Na China, Paulo André segue por dentro do Bom Senso: 'Clubes têm medo do novo'

Por Gabriela Chabatura - iG São Paulo |

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Ex-zagueiro do Corinthians continua em constante com contato com membros do movimento, e acredita que greve seja necessária para as mudanças no futebol brasileiro. Goleiro Fernando Prass, novo "líder" do grupo em São Paulo, diz que "algo está errado nos campeonatos estaduais"

Paulo André nunca teve medo de bater de frente com os cartolas. Articulado, o zagueiro jamais escondeu sua insatisfação com aqueles que comandam o futebol brasileiro e nem poupou críticas a José Maria Marin, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), e Marco Polo Del Nero, vice-presidente da entidade e presidente da FPF (Federação Paulista de Futebol). Não à toa ele recebeu o rótulo de líder do Bom Senso FC, grupo que reivindica melhorias no futebol do país, e rapidamente se tornou peça fundamental para divulgar as ideias do grupo em São Paulo. Mas será que a saída dele para a China enfraquece o movimento? O iG Esporte traz com exclusividade um bate-papo com o jogador e conta os próximos passos do grupo.

Reprodução Facebook
Paulo André continua ligado nos passos do Bom Senso FC, mesmo longe do país

Nesta segunda-feira, em uma faculdade da capital paulista, o Bom Senso FC apresentará duas propostas para o futebol brasileiro, são elas a do Fair Play Financeira e calendário. Paulo André, que prometeu não abandonar o movimento e está na China desde o dia 17 de fevereiro, está acompanhando tudo e inclusive já sabia data do seminário.

“No dia 17 de março, o Bom Senso apresentará duas propostas ao futebol brasileiro e espero que elas sejam bem recebidas pelos principais atores do esporte no país. Foram seis meses de estudo e muito trabalho por parte dos atletas e especialistas. Sem dúvida, é um modelo muito melhor do que está aí”, revelou o defensor ao iG Esporte.

O ex-corintiano também garante que a força do Bom Senso FC não diminui em nada com a sua saída do país. “Eu acho que o movimento tem uma grande oportunidade de mostrar que não se trata de algo do Paulo André, do Rogério Ceni, do Alex, do Dida ou do Juan. E isso há de fortalecer ainda mais o Bom Senso. Trata-se de um movimento de jogadores de todos os níveis que, na ausência de dirigentes competentes, viram-se obrigados a proteger o futebol brasileiro. Nós poderíamos apenas jogar futebol, mas arregaçamos as mangas e estamos dando a cara para bater”, completou ele.

Somente neste ano, os jogadores que encabeçam o Bom Senso FC realizaram duas reuniões para debater os temas. Com a transferência de Paulo André o Shangai Shenhua, o goleiro Fernando Prass, do Palmeiras, foi quem assumiu o papel de porta-voz do grupo, embora ele mesmo refute o termo. O arqueiro estará no evento desta segunda-feira, ao lado de Dida, do Internacional, e Roberto, da Ponte Preta.

Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação
Goleiro Fernando Prass, do Palmeiras, assumiu a função de principal articulador do Bom Senso em São Paulo

“Nós temos algumas ideias para discutir aqueles três temas que propusemos o início. Não é que a gente vá trazer uma mudança, uma solução, mas sim alternativas para debater e melhorar a situação do futebol. Nós temos o exemplo do Campeonato Carioca, que é um dos mais tradicionais do Brasil, com o Flamengo jogando para 300 pagantes e o Botafogo para cento e poucos. Então, se juntarmos os quatro clubes grandes e somarmos 12 rodadas, o público não encherá o Maracanã. É muito pouco, e isso não é normal. Alguma coisa não está correndo bem para esse produto não ser atrativo”, argumentou Prass à reportagem.

O levantamento recente que o iG realizou sobre os prejuízos nos estaduais é um dos pontos também debatidos pelos atletas. O fato de os clubes praticamente pagarem para jogar é a exemplificação de uma fórmula ultrapassada, que chegou a ser comparada por Paulo André os primeiros computadores criados pela empresa americana IBM (International Business Machines).

“Os estaduais, no formato atual, foram importantes na construção do futebol brasileiro (devido às distâncias e a dificuldade de locomoção nas décadas de 60, 70 e 80) assim como foi importante o 286, 386 e o 486 para a IBM há 20 anos. Imagine se estivéssemos usando esses computadores porque deles saíram grandes textos do passado. Imagine se estivéssemos usando máquinas de escrever, ficaríamos para trás do resto do mundo, correto? Com o futebol brasileiro ocorre o mesmo. Estamos ficamos para trás por causa de um saudosismo que o mercado não permite mais”, apontou.

“Os dirigentes dos clubes têm medo do novo, tem medo das retaliações que podem vir por parte das federações se eles se manifestarem contrários a formula atual. E a CBF, por sua vez, que deveria zelar pelo futebol e protegê-lo, não tem coragem de mexer nas datas dos Estaduais, porque quem vota para a presidência da entidade são as federações. E esse ciclo vicioso continuará assim até quando chegarmos no fundo do poço, se é que já não estamos nele. A solução é trocar o produto. Não digo que é necessário acabar com os Estaduais, mas deve-se dar um banho de loja. Enquanto os clubes não se unirem, isso será impossível”, declarou Paulo André.

MEMBROS JUSTIFICAM AUSÊNCIA DE AÇÕES NOS ESTADUAIS


Muitos torcedores e até parte a imprensa questionaram o “desaparecimento” do Bom Senso FC no início deste ano, período dos campeonatos estaduais e regionais. Membros do movimento, entretanto, explicam que a ausência faz parte da estratégia adota por eles para não prejudicam os atletas de clubes que não possuem competições no segundo semestre do ano.

De acordo com os próprios números abordados pelo Bom Senso FC, dos 684 clubes, 583 deles não tem um calendário anual, deixando atletas desempregados e submetidos a vínculos curtos de três e/ou quatro meses.

“Ficou entendido de que a manifestação para chamar a atenção foi feita (no fim do ano passado). Não adianta ficarmos fazendo, porque temos de ter atitudes que é apresentar propostas para os problemas que levantamos. Conseguimos a divulgação necessária para o movimento, então acho que esse primeiro passo já foi dado. Começamos uma nova etapa”, alegou Prass.

Paulo André seguiu a mesma linha. “Acreditamos que os Estadual é a única oportunidade de milhares de jogadores atuarem e garantirem seus salários. Não teríamos tido bom senso se tivéssemos paralisado esse campeonato. Mas quando os Estaduais terminarem e 80% dos atletas ficarem desempregados, teremos todos os motivos do mundo para protestar e parar o Campeonato Brasileiro”.

GREVE: O MAL NECESSÁRIO?

Depois de terem descartado a greve no início do Campeonato Paulista, em decisão conjunta com o Sapesp (Sindicato dos Atletas de São Paulo) – hoje parceiro com qual o relacionamento melhorou -, Paulo André acredita que a paralisação se faz necessária para que as mudanças possam acontecer. Ele lembrou dos diversos protestos no país, durante o ano passado, que pediam pela melhoria dos transportes públicos.

“Eu acho que sem ela (greve), nada vai mudar. Os políticos só têm medo de uma coisa: do povo nas ruas. Os dirigentes do futebol só têm medo de duas coisas: paralisação do campeonato e exposição da inoperância de suas funções” falou.

O evento desta segunda-feira está previsto para durar um pouco mais de três horas e já tem as presenças confirmadas de: Fernando Prass (Palmeiras), Dida (Internacional), Roberto (Ponte Preta), Alex (Coritiba), Juan (Internacional) e Rafael Silva (Nacional-MG). É pressão contra os cartolas do futebol brasileiro.

exto

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