Tamanho do texto

Tiago Ribeiro, 39 anos, é presidente há quatro anos e levou modesto clube da segunda divisão lusa à Liga Europa

Football Manager é um jogo em que se simulam as atribuições de um dirigente e técnico de futebol de qualquer equipe do mundo. Escolher que atletas contratar ou vender e salários a pagar são algumas das funções essenciais para o sucesso. Mas, apesar da fama com amantes do esporte, poucos são os que têm na vida real a oportunidade de desempenhar a função de dirigente. É o caso de Tiago Ribeiro, 39, que nunca jogou FM ou seu precursor Elifoot, mas que há quatro anos é presidente do Estoril, sensação do futebol português nas últimas temporadas.

Já sonhou em ser dirigente esportivo? Deixe seu comentário

Tiago Ribeiro, executivo da Traffic e há quatro anos presidente do Estoril
Divulgação
Tiago Ribeiro, executivo da Traffic e há quatro anos presidente do Estoril

Estoril é uma antiga freguesia do concelho de Cascais, similar aos municípios brasileiros, distante 27 quilômetros de Lisboa e com população de 26 mil habitantes. É famosa pela antigas corridas de Fórmula 1, disputadas entre 1984 e 1996 e palco da primeira vitória da carreira de Ayrton Senna, e por ter o maior cassino da Europa. Já o clube de futebol, fundado há 74 anos, tem como principais conquistas apenas dois títulos da segunda divisão de Portugal. Na elite, a melhor campanha foi uma quarta colocação em 1947/48.

Após décadas no ostracismo, o time conseguiu um quinto lugar da temporada passada, que culminou em uma vaga na atual Liga Europa, o primeiro torneio continental de sua história. Em 2013/14, embora tenha sido eliminado da disputa europeia na fase de grupos, a equipe vai novamente bem e é a atual quarta colocada no Campeonato Português e está nas quartas de final da Copa de Portugal. Isso tudo com um orçamento anual de 4,5 milhões de euros por ano. Bem menos do que os cerca de 80 a 90 milhões gastos pelos grandes Benfica, Porto e Sporting.

Confira a classificação completa do Campeonato Português 2013/14

Ribeiro trabalha na Traffic, empresa de marketing esportivo e que também atua na formação e gerenciamento da carreira de jogadores. No Brasil, a companhia comanda o Desportivo Brasil, clube dedicado principalmente às categorias de base. Após o entendimento de que faltava um braço europeu para os negócios, surgiu a ideia de comprar o Estoril, então na segunda divisão de Portugal e à beira da falência em 2009.

GRUPO DESPORTIVO ESTORIL PRAIA
Fundação: 17/05/1939
Estádio: Antônio Coimbra Mota (capacidade 5 mil)
Apelido: Canarinhos
Títulos: Bicampeão da 2ª divisão portuguesa (2003/04 e 2011/12) e pentacampeão da 3ª divisão (1941/42, 1943/44, 1945/46, 1974/75 e 2002/03)

“A Traffic já tinha um escritório de representação de jogadores em Portugal na Europa desde 2007. Começamos a analisar os negócios e logo Portugal apareceu como mercado mais óbvio por conta de questões culturais, adaptação, clima e toda a facilidade que um atleta brasileiro teria mais em Portugal do que em outro país europeu. Teve também a questão de Portugal não ter limite para estrangeiros no plantel e nos 11 que iniciam jogando. Por último, o Estoril foi escolhido por ser uma SAD (Sociedade Anônima Desportiva) e até então em Portugal era a única detida por um particular”, explicou o executivo.

Foram compradas 74,5% das ações do Estoril pela Traffic antes do início da temporada 2009/10. Praticamente sem elenco, talvez o time não tivesse feito sua inscrição para o campeonato da segunda divisão se não fosse a chegada da empresa, que assegurou sua participação e o recheou de brasileiros. Só que, para ser um pouco mais complicado que o Football Manager, sobravam dívidas e faltavam receitas.

“Tinham muitas dívidas, um valor passivo relativamente alto, em torno de quatro milhões de euros. A gestão foi feita com prejuízo no início. Nas três primeiras temporadas as receitas eram muito inferiores às da primeira divisão. As cotas de televisão eram dez vezes menores; os patrocínios, praticamente inexistentes; e bilheteria, então, nem se fala. A gente tinha público de 200, 300 pessoas por jogo. Era uma situação triste”, contou Ribeiro.

“Mas o maior problema era a falta de organização, falta de documentação. A gente teve muito trabalho fora de campo para deixar não só o Estoril com as contas em dia e o passivo zerado, mas também com os processos administrativos, contáveis e fiscais organizados. Coisa que a gente estava sujeito a penalizações por parte de autoridades tributárias e trabalhistas. E a gente sempre achava alguma documentação falha”, continuou o dirigente.

Estoril disputou a Liga Europa pela primeira vez em sua história nesta temporada
Divulgação
Estoril disputou a Liga Europa pela primeira vez em sua história nesta temporada

Enquanto a situação extra-campo era resolvida, o clube precisava justificar seu investimento dentro das quatro linhas. Nos dois primeiros anos, o time penou e não conseguiu seu objetivo imediato, que era subir para a primeira divisão nacional.

“Na primeira temporada primeira a gente chegou muito em cima da hora. No segundo ano, fez uma aposta errada. Talvez a gente tivesse subestimado o mercado da segunda divisão, que é muito difícil trabalhar e errou a mão na montagem da estratégia. O time acabou mal classificou e não subiu apesar do investimento bastante alto naquele ano”, disse Ribeiro.

“Com o tempo a gente, também na parte administrativa e diretoria de futebol, se acostumou ao mercado português e soube entender que tipo de atleta era necessário. Que às vezes aquele camisa 10 brasileiro que faz chover no meio de campo não é o que a gente precisa lá. A gente precisa de jogadores com outra característica, mais entrega coletiva, atitude dentro de campo e não só qualidade técnica e isso a gente aprendeu com o tempo. E na terceira temporada deu resultado. Fora de campo estava tudo resolvido e foi mais fácil”, lembrou o presidente.

A rápida subida para a elite portuguesa era uma pressão mais interna da própria Traffic do que de torcedores propriamente ditos. Isso porque, embora a média de público do Estoril tenha saltado para 2.500 torcedores na última temporada, não há a cobrança típica de clube grande.

Evandro, revelado pelo Atlético-PR e ex-Palmeiras, é um dos destaques do Estoril
Divulgação
Evandro, revelado pelo Atlético-PR e ex-Palmeiras, é um dos destaques do Estoril

“A pressão era interna, de gestão, do patrão. A subida fazia parte do objetivo principal do projeto, porque, sem ela, sem o time estar na primeira divisão, talvez a gente não aguentasse financeiramente outra temporada e o projeto acabasse. Foi a última cartada. E o grande sucesso mesmo, este que nós não esperávamos tão cedo, foi o Estoril terminar em quinto e classificar pra Liga Europa”, falou Ribeiro, explicando que torcedores reais mesmo a equipe só terá em pelo menos dez anos.

“A gente vai conquistar uma geração de torcedores talvez daqui a dez, 15 anos. Que vão ser torcedores próprios do Estoril. Porque Estoril está em uma área de influência de Lisboa e a maioria das pessoas que estão ali são torcedores do Benfica ou do Sporting e tem no Estoril aquele segundo clube querido. Como em São Paulo se você comparar com Portuguesa ou Juventus. É normal muitos torcedores do Estoril, quando veem o Benfica jogar aqui, virarem a casaca. Não tem o que fazer com esses atuais torcedores, temos que buscar os filhos deles”, analisou o dirigente.

A única coisa que incomoda Ribeiro é quando dizem que o Estoril está sendo usado como “barriga de aluguel”. Isto é, que o time serve apenas para valorizar os jogadores da Traffic e depois será abandonado quando o projeto acabar.

“Tanto isso não é verdade que compramos o clube e somos hoje acionistas majoritários. E eu posso te falar que é o clube mais limpo, sem dívidas, de Portugal. Pode ter um tão limpo quando, mas nenhum mais limpo”, assegurou o presidente

"E aos poucos está sendo valorizada a marca Estoril, que é famosa não pelo futebol, mas pelos antigos esportes que havia, a F1, casinos e praias, mas que estava um pouco decadente. Estoril hoje depende muito do futebol para reerguer sua marca Europa afora", afirmou o executivo.

Ao fim da entrevista, a conclusão é que o dirigente tem uma vida de dar inveja a muitos amantes de futebol.

“Nunca joguei, mas posso dizer que vivo um Football Manager da vida real”, finalizou Ribeiro.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.