Teste físico ainda é barreira a árbitras, mas Ana Paula enaltece: 'São heroínas'

Por Gabriela Chabatura - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Apesar do grande número de assistentes, desde a aposentadoria de Silvia Regina, em 2007, o Brasileirão nunca mais teve uma mulher como árbitra central

Djalma Vassão/Gazeta Press
Ana Paula Oliveira, Silvia Regina e Aline Lambert durante Guarani e São Paulo, em 2003, pelo Brasileirão

Há dez anos, Silvia Regina de Oliveira, ao lado das assistentes Ana Paula Oliveira e Aline Lambert, entravam para a história do futebol brasileiro ao compor o primeiro trio de arbitragem feminino no Brasileirão, durante o jogo entre Guarani e São Paulo, em Campinas. No entanto, desde quando pendurou o apito em 2007, a ex-arbitra jamais viu uma mulher assumir a função novamente. O motivo? O teste físico.

Deixe o seu recado e comente com os outros leitores

Apesar de o número de mulheres ter aumentado significativamente na arbitragem brasileira, a maioria delas exerce a função de assistente, em consequência da reprovação nos testes físicos para árbitra central. A reclamação é a rigidez do teste, que exige uma performance semelhante à de um atleta. Problema para elas que têm a arbitragem como uma "segunda profissão" . 

Os exames feitos pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) seguem os padrões da Fifa. Reformulados recentemente, os testes possuem uma série de corrida e não fazem diferenciação entre homens e mulheres que queiram arbitrar a mesma competição. Hoje, são executados seis tiros de 40 metros, com um descanso de 15 minutos, para em seguida aplicar 20 a 24 tiros de 150 metros, intercalados com descansos de 50 metros. De acordo com a entidade, atualmente são 17 mulheres, todas elas assistentes e aptas a trabalhar na primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

"Eu entendo que há uma diferenciação entre o homem e a mulher, mas achamos que temos de seguir os padrões da Fifa, para que todos estejam preparados quando selecionados para apitar um torneio mundial. Dentro do futebol, há muita cobrança e ninguém vai querer ouvir que houve alguma facilidade. Não existe isso. Ambos precisam ter uma melhor capacitação física para que sejam aprovados", afirmou ao iG Paulo Camello, instrutor físico da CBF.

Graziele Crizol, Regildenia de Holanda Moura e a jornalista Paloma Tocci. Foto: ReproduçãoAna Paula Oliveira. Foto: ReproduçãoAna Paula Oliveira apitou a partida de reinauguração do Maracanã. Foto: ReproduçãoAna Paula Oliveira em jogo festivo. Foto: ReproduçãoDurante reinauguração do Maracanã, trio feminino aproveitou para tietar Ronaldo. Foto: ReproduçãoÁrbitra assistente Fernanda Colombo desconcentra os torcedores nas arquibancadas. Foto: ReproduçãoÁrbitra assistente Fernanda Colombo, da categoria CBF-2. Foto: ReproduçãoGaúcha, Maíra Americano é árbitra assistente da categoria CBF-2. Foto: ReproduçãoDurante jogo festivo, Maíra Americano aproveitou para tirar foto ao lado de Neymar. Foto: ReproduçãoGraziele Crizol é árbitra assistente pela Federação Paulista de Futebol. Foto: ReproduçãoAssistente Graziele Crizol é de São Caetano do Sul. Foto: ReproduçãoTatiane Sacilotti é árbitra assistente da categoria CBF-1. Foto: ReproduçãoRenata Ruel é árbitra assistente da categoria CBF-1. Foto: ReproduçãoNadine Câmara é de Santa Catarina. Foto: ReproduçãoDaiane Madeira, árbitra assistente da Federação Catarinense de Futebol. Foto: Reprodução

Regildênia de Holanda Moura, de 39 anos, é um das três árbitras da categoria Fifa que conseguiram destaque atuando em jogos masculinos. Em 2005, quando ingressou na primeira categoria, bandeirou jogos das Série A2 e A3 e da Segunda Divisão do Campeonato Paulista, para depois se fixar como árbitra adicional. No ano passado, ela foi quarta árbitra em dois jogos da Série B, nos meses de outubro e novembro.

A dedicação de mulheres como Regildênia é motivo de orgulho para aquelas que já pararam. "Eu vejo a participação das mulheres como algo muito bom para a arbitragem. Elas estão sempre acompanhando a jogada na linha para decidir e trabalham muito. Existem alguns lances em que são cometidos alguns erros, mas são normais, assim como acontece com os homens. Da mesma forma que há erros, há também muitos acertos", exaltou Silvia Regina, que hoje ministra o curso de arbitragem na FPF (Federação Paulista de Futebol).

Ana Paula Oliveira também reforça o discurso da colega. "O teste para árbitro requer uma condição física maior, e o caminho é bem árduo. Fui importante para abrir esse caminho, mas quero muito vê-las em jogos importantes, trabalhando em partidas decisivas, coisa que eu ainda não vi. Isso é muito importante. Fico muito feliz em vê-las. Se para o homem é difícil, para nós mulheres é ainda mais. Essas meninas são heroínas", afirmou ela.

Dividida entre a seleção para a tese de mestrado e a participação em um programa esportiva na TV Alterosa, de Belo Horizonte, Ana não se desgruda do futebol e faz um apelo para que a qualidade da arbitragem, em geral, melhore. "Eu entendo que o teste físico é difícil, mas é importante falar também que é necessário uma inteligência desses árbitros. É essencial que eles saibam se comportar dentro de campo e tenham noções dos conceitos técnicos e táticos. Não pode dar ênfase em uma coisa e anular a outra. Eu não quero uma arbitragem brasileira com nota 7, quero uma nota 9,9. Quero uma nota máxima e árbitros excelentes", discursou.

Profissão é regulamentada

Na última semana, a presidente Dilma Rousseff aprovou o projeto que regulamenta a profissão de árbitro de futebol. Os juízes de futebol agora terão o direito de se organizar em sindicatos e em associações profissionais, além de terem o direito de prestar serviços a ligas e entidades futebolísticas. Com a profissionalização, a expectativa é que haja maior dedicação.

"Eu demorei sete anos para me formar em jornalismo, porque estava representando meu país e faltei às aulas. Fui reprovada nas disciplinas da faculdade porque eu não era atleta, portanto, minhas faltas não poderiam ser configuradas. Com a regulamentação, ganha-se tempo para se dedicar, uma vez que a cobrança é muito grande", declarou Ana Paula Oliveira.

Nesta quarta-feira, será possível acompanhar o trabalho de pelo menos três dessas mulheres no Brasileirão. Nadine Schraamm estará na função de árbitra assistente 2 na partida entre Cruzeiro x Fluminense, enquanto Neuza Inês Back será a assistente 1 no confronto entre São Paulo x Náutico. Katiuscia Mendonça atuará no jogo entre Ponte Preta x Coritiba.

Leia tudo sobre: Ana Paula Oliveiraarbitragem

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas