Ídolo de Vasco, Botafogo, Flamengo e São Paulo, craque que faria 100 anos nesta sexta deu ao País sua fama no futebol mundial graças à sua habilidade e gols na Copa de 1938

Leônidas da Silva completaria 100 anos no dia 6 de setembro de 2013
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Leônidas da Silva completaria 100 anos no dia 6 de setembro de 2013

Dia 6 de setembro de 1913. Há exatos 100 anos nascia o homem que iniciou a transformação do futebol brasileiro naquilo que conhecemos hoje. Se os jogadores de nosso país são famosos pela ginga, pela habilidade e, por que não dizer, pela malandragem, isso é graças a Leônidas da Silva, o “primeiro Pelé".

Leônidas era de um tempo em que amadorismo e profissionalismo ainda se misturavam. O Brasil ainda não possuía grande representatividade no cenário internacional quando o atacante despontou por São Cristóvão e Bonsucesso, pequenos clubes do Rio de Janeiro. Situação que mudou quando o mundo o conheceu na Copa de 1934, na Itália. A seleção foi mal, mas foi dele o nosso único gol na competição.

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A consagração, no entanto, veio quatro anos mais tarde, na França. Já ídolo do Flamengo, depois de passagens pelos rivais Vasco e Botafogo, Leônidas foi o artilheiro do Mundial com sete gols e ajudou o País a alcançar o então inédito terceiro lugar. Ao mostrar para os europeus a bicicleta, Leônidas mudou de vez a imagem do futebol brasileiro.

“Na Copa de 1938 ele foi eleito o melhor jogador e foi ali que o Brasil passou a ser respeitado mundialmente. O talento dele era absurdo, aquelas jogadas acrobáticas. Foi ali que o povo viu a bicicleta sendo feita”, falou ao iG Esporte o jornalista André Ribeiro, autor de “Diamante Negro”, biografia de Leônidas e maior especialista sobre a história do craque.

“Um jornalista francês da revista Paris Match, a mais importante da época, vê e fica absolutamente encantado. Então, imagine onde foi parar a popularidade não só dele como do futebol brasileiro. Foi a partir daí que o Brasil ganhou essa fama da ginga, da habilidade. Tudo que a gente depois construiu com outros nomes, o precursor foi ele. O primeiro Pelé brasileiro”, completou Ribeiro.

LEÔNIDAS E O ÚNICO GOL DESCALÇO DA HISTÓRIA DAS COPAS
“Com o campo pesado com a chuva que caiu, barro, acabou a chuteira ficando uma boca de jacaré. Descolou a sola da parte superior. Então eu tirei e joguei fora. Ia ser cobrada uma falta contra a Polônia. O juiz não percebeu. Nós não tínhamos meias brancas, na época se jogava com meias pretas e, com a lama, o juiz talvez não tenha observado. A chuteira não era clarinha e eu fiquei na jogada. A bola bateu na barreira, voltou pra mim e eu aproveitei o lance e fiz o gol”.


Nascem os apelidos "Diamante Negro" e "Homem Borracha".

Não é exagero comparar a popularidade de Leônidas com a que Neymar tem nos dias de hoje. Depois da Copa, onde ganhou o apelido de Homem Borracha pela elasticidade e habilidade, o atacante foi eleito o melhor jogador do Brasil com o dobro de votos do segundo colocado, uma escolha popular promovida por uma marca de cigarro. Aproveitou bem a fama, virou garoto-propaganda e emprestou o apelido Diamante Negro, também ganhou na França, ao chocolate até hoje popular.

Apesar de atuar no Rio, a idolatria ultrapassava as fronteiras estaduais. Foi então contratado pelo São Paulo em 1942 e recebido por mais de 10 mil pessoas na antiga estação de trem do Brás.

“Ele foi carregado nos ombros da massa humana dali até o Largo do Payssandu, onde era a sede social do São Paulo. E a estreia dele levou mais de 70 mil pessoas ao Pacaembu. Todo jogo dele era Pacaembu lotado. Foi dez anos disso. Ele se tornou o maior ídolo do São Paulo nesse período”, diz Ribeiro.

Mais de 70 mil pessoas foram ao Pacaembu assistir à estreia de Leônidas pelo São Paulo
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Mais de 70 mil pessoas foram ao Pacaembu assistir à estreia de Leônidas pelo São Paulo

Aquele foi fim de uma época em que o Campeonato Paulista era vencido por Corinthians ou Palestra Itália, antigo nome do Palmeiras. Havia uma brincadeira na qual se dizia que o campeão era definido no “cara ou coroa”.

“Com a chegada dele, a moeda caiu de pé. Em 1943 foi o primeiro título. E ele se torna monstruoso no São Paulo. Foram cinco títulos, artilheiro quase todos os anos. O clube começou a excursionar para tudo que é canto, começou a investir. Se transformou em esquadrão, chamado de ‘rolo compressor’”, explica o jornalista.

Comentarista número 1 do Brasil

O que hoje é frequente nos veículos de comunicação não existia na década de 1950, ano em que Leônidas da Silva se aposentou: ex-jogadores de futebol comentando partidas. A pioneira experiência veio depois da fracassada passagem como técnico no São Paulo. O jornalista Paulo Machado de Carvalho, que havia bancado sua contratação para o clube paulista, lhe fez um convite.

“O Paulo Machado de Carvalho, que era meio que o tutor dele, disse: ‘Você vai queimar seu nome se continuar como treinador. Vem trabalhar comigo na televisão e no rádio’. E ele foi”, conta Ribeiro.

Leônidas ganhou sete troféus Roquette Pinto, o “Oscar” do jornalismo esportivo em São Paulo. Mas não foi fácil para um ex-jogador de origem humilde se tornar o comentarista número 1 do Brasil. Para isso, ele teve a ajuda de Albertina dos Santos, mulher e parceira até os último dias de vida.

“Ela é uma pessoa muito inteligente, estudava filosofia, muito culta. E foi a pessoa que acompanhou ele. E dizia pra ele: ‘Você não pode dizer que Corinthias é Corinthians’. Ele era uma pessoa muito simples, só tinha o primário, formação escolar básica. Era menino de subúrbio, só ficava jogando bola na rua e abandonou os estudos muito rápido. E quem acabou dando essa base pra ele de falar corretamente, como se expressar, foi a Albertina”, lembra Ribeiro.

Diagnosticado com Mal de Alzheimer no início da década de 1970, Leônidas da Silva teve que abandonar a carreira de comentarista. Ele morreu no dia 24 de janeiro de 2004, aos 90 anos, em decorrência da doença. Estava internado em uma clínica com os custos pagos pelo São Paulo Futebol Clube e sempre acompanhando de Albertina dos Santos, que na última quinta-feira esteve no Morumbi para receber mais uma homenagem do clube paulista.

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