‘Ficha limpa’, Chapecoense aposta em disciplina financeira para chegar à elite

Por Thiago Rocha - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Invicto na Série B do Brasileirão e com folha de pagamento de R$ 500 mil mensais, clube catarinense quase fechou em 2005 por causa de dívidas

Aguante Comunicação/Chapecoense
Torcedor esbanja confiança na Chapecoense na Série B após vitória sobre o rival Joinville

“Nossa preocupação é fazer os pontos que nos livrem no rebaixamento, pensamos nisso primeiro.” A cautela faz parte do discurso de Sandro Pallaoro, presidente da Chapecoense, até na hora de avaliar o bom momento do único invicto da Série B do Brasileirão após nove rodadas – é o vice-líder com 20 pontos e um jogo a menos, tem o melhor ataque (20 gols) e o artilheiro da competição, Bruno Rangel, com dez. No primeiro semestre, perdeu o título catarinense para o Criciúma no saldo de gols. Na visão do dirigente, disciplina, especialmente no setor financeiro, tem sido a marca registrada do clube, com 40 anos de existência, para sonhar em fazer parte da elite do futebol nacional.

Comente esta notícia com outros torcedores

A Chapecoense mantém uma folha salarial de cerca de R$ 500 mil mensais no departamento de futebol, um pouco mais do que o chileno Jorge Valdivia recebe por 30 dias de trabalho (por volta de R$ 400 mil) pelo Palmeiras, líder da Série B. Na diretoria, apenas o gerente de futebol, o ex-jogador Cadu Gaúcho, é remunerado.

Com bons resultados em campo, o clube conseguiu atrair seis patrocinadores para a camisa, o mais recente deles, a Caixa Econômica Federal, foi acertado na última quarta-feira, e ampliar o programa de sócio-torcedor para 8.200 participantes, que rendem R$ 320 mil mensais – em 2009, eram 1.200 pessoas. A Chapecoense ainda recebe R$ 3 milhões provenientes dos direitos de TV e não tem custos de manutenção com o local onde manda seus jogos, a Arena Condá, administrada pela Prefeitura de Chapecó.

Leia mais: Chapecoense recebe o Avaí para voltar a liderar Série B e afundar o rival

Gerir melhor as contas foi uma questão de sobrevivência para a Chapecoense. Em 2005, o clube acumulava mais de R$ 1,5 milhão em dívidas com ex-funcionários e fornecedores, correndo risco de encerrar as atividades. Uma força-tarefa envolvendo a diretoria da época, a prefeitura e empresários da região ajudaram a equilibrar as finanças e renegociar pendências. Dois anos depois, o trabalho de recuperação rendeu o primeiro fruto, com o título do Campeonato Catarinense em 2007. 

Veja como está a classificação do Campeonato Brasileiro da Série B

Em 2009, a Chapecoense conquistou o acesso à Série C do Brasileirão, mas as contas ainda desequilibradas quase impediram esse feito. "Para subir, precisávamos vencer o Araguaia (do Mato Grosso) nas quartas de final (da Série D). A gente precisava de R$ 100 mil para quitar salários atrasados e bancar a viagem de ônibus. Um empresário nos ajudou, viajamos mais de 2 mil quilômetros mas voltamos com o acesso garantido", relembra Sandro Pallaoro, que integrava a diretoria de futebol na época. Os próximos passos da reconstrução vieram com o título estadual de 2011 e a qualificação para a segunda divisão nacional.

Embora esbanje saúde financeira, as dívidas trabalhistas renegociadas impedem ainda que a Chapecoense invista mais no futebol: "Pagamos todo mês entre R$ 40 mil e R$ 50 mil de contas antigas. Isso equivale a 10% da folha de pagamento", lamenta Pallaoro. "Hoje nossa administração não deve para ninguém. Somos ficha limpa", gaba-se.

Aposta em desacreditados

Aguante Comunicação/Chapecoense
Bruno Rangel é o artilheiro da Série B

O atual presidente da Chapecoense, em seu segundo mandato, é um ferrenho defensor do bom e barato. "Buscamos reforços dentro da realidade do clube, jogadores desacreditados que combinem com a nossa filosofia", conta Sandro Pallaoro. Um desses "desacreditados" era o atacante Aloisio, destaque da equipe no título catarinense de 2011, atualmente no São Paulo. Hoje, os principais nomes do elenco comandado por Gilmar dal Pozzo são os atacantes Bruno Rangel, de 31 anos e 12 clubes na carreira, e Rodrigo Gral, de 36, revelado pelo Grêmio e com passagem pelo Flamengo.

“Não preciso fazer loucuras, e sim fazer com que os atletas queiram vestir essa camisa. Prefiro um que ganhe R$ 20 mil suando a camisa todo dia do que alguém ganhando R$ 200 mil sem fazer nada”, resume Pallaoro, que revelou a preocupação da comissão técnica na vida extracampo do elenco: "Buscamos informações em ex-clubes dos atletas. No fim de 2010 determinamos que jogador não combina com bebida e noitada. Não queremos um time de freiras, mas eles não podem abusar em véspera de jogo. A gente analisa esse perfil. Tem de saber que precisa se preservar em algumas ocasiões. Jogador precisa ter objetivo na vida e nos campeonatos. O clube precisa dar condições dentro e fora de campo para isso."

Independentemente do acesso à Série A, a Chapecoense está finalizando um novo centro de treinamentos, a ser entregue em dezembro. Já está definido também a recompensa ao elenco caso chegue à elite. "Pagamos um salário menor em relação a outros clubes, mas trabalhamos com premiação para objetivos alcançados", disse Pallaoro sem revelar o valor, mas dando uma pista: "Pagamos R$ 300 mil ao grupo quando subimos para a Série B".

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas