Rebaixamento traumático há quase quatro anos serviu para o clube iniciar processo de profissionalização, que vem gerando ótimos resultados em campo

Jogadores do Coritiba comemoram o título da Série B de 2010 e a volta para a divisão principal
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Jogadores do Coritiba comemoram o título da Série B de 2010 e a volta para a divisão principal

A dramática cena do dia 6 de dezembro de 2009 ainda está bem viva na cabeça de qualquer torcedor do Coritiba . Ao empatar em 1 a 1 com o Fluminense , o time paranaense – que havia passado a maior parte do torneio fora da zona de rebaixamento – viu diante de si, pela segunda vez na era dos pontos corridos, o vexame de cair para a Série B, justamente no ano de seu centenário, ao terminar o Campeonato Brasileiro em 17º lugar, com 45 pontos, somente um atrás do time carioca.

O desespero foi tanto que integrantes de torcidas organizadas invadiram o gramado e protagonizaram uma batalha campal com a polícia militar. A confusão rendeu ao Coritiba uma pena recorde de 30 partidas sem mando de campo, punição que depois caiu para dez jogos.

Corte rápido para 2013. A realidade na qual o time paranaense se encontra hoje é completamente diferente. Empurrado por um profundo processo de profissionalização, o Coritiba vem obtendo ótimos resultados dentro e fora de campo, disputando títulos nacionais e aumentando sua receita com um competente programa de sócio-torcedor. O cenário de terra arrasada de quatro anos antes não existe mais.

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Tudo isso somado a um craque como destaque principal de seu elenco – o veterano meia Alex, ídolo da torcida e formado nas categorias de base do clube – faz com que o clube paranaense cumpra uma belíssima campanha no atual Brasileirão, sendo o único invicto na competição e estando sempre nas primeiras posições. Mas que ninguém chegue lá pelos lados do Alto da Glória, bairro da capital paranaense onde está localizada a sede do Coritiba, dizendo que tudo isso é obra do acaso. A observação certamente não será muito bem recebida.

“Ninguém chega a duas decisões de Copa do Brasil de forma consecutiva e conquista um tetracampeonato estadual à toa. Mas não posso dizer que já tínhamos projetado esta campanha, pois iria soar como arrogância. A verdade é que planejamos terminar o campeonato na primeira metade da tabela e quanto mais em cima, melhor”, afirma o superintendente de futebol do Coritiba, Felipe Ximenes.

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Ao chegar ao clube em janeiro de 2010, logo após o rebaixamento, Ximenes – que exerceu a mesma função remunerada em outros clubes, como Fluminense e Atlético-MG – acompanhou o início da profunda transformação do Coritiba. “Não houve uma grande dificuldade para se implantar a nova filosofia no clube após a queda para a Série B”, explicou o dirigente. Mas talvez a melhor explicação para demonstrar como o clube decidiu dar uma guinada vem do próprio presidente, Vilson de Andrade. “O desespero diante do caos em que o clube se encontrava acabou favorecendo para implantar o nosso projeto no Coritiba”, afirmou o dirigente, eleito para o cargo logo após o rebaixamento, ainda em dezembro de 2009.

Trabalho em duas frentes

A transformação no traumatizado clube paranaense, campeão brasileiro em 1985, após derrotar o Bangu na decisão por pênaltis, em pleno Maracanã, começou a ser feita em duas frentes. Dentro de campo, Ximenes implantou a unificação no departamento de futebol do clube. “Agora, tudo está concentrado na superintendência de futebol”, disse o superintendente. “Eu não tenho um gerente de futebol da base, por exemplo. Tenho um gerente de futebol que é o responsável por todo o futebol do clube. A filosofia de trabalho é a mesma em todas as categorias”, explicou.

Felipe Ximenes chegou ao Coritiba em 2010 para reformular o dapartamento de futebol
Divulgação
Felipe Ximenes chegou ao Coritiba em 2010 para reformular o dapartamento de futebol

A isso, também foi implantada a cultura de preservação do trabalho dos treinadores. Desde 2010, somente três técnicos comandaram o Coritiba: Ney Franco, Marcelo Oliveira e Marquinhos Santos, algo raro no volátil mercado de técnicos do Brasil. “A troca de treinadores não tem sido o perfil do trabalho desta administração. O Marquinhos já vai para um ano e oito meses de trabalho. A autonomia que eu recebo da presidência é total, e isso acaba contribuindo para o prosseguimento do nosso trabalho”, explicou Ximenes.

Fora de campo, o Coritiba teve como maiores preocupações sanear as finanças após a queda. “Tínhamos mais de R$ 120 milhões em dívidas na época e procuramos fazer uma readequação destes valores, negociando valores com bancos e com órgãos públicos. Hoje, 20% do nosso orçamento é usado para pagar gastos das gestões anteriores”, disse o presidente Vilson Andrade, lembrando ainda que o clube trabalha forte para terminar as obras de ampliação do Couto Pereira, que em 2014 poderá receber 45 mil pessoas. O resultado positivo mais evidente nesta nova gestão, contudo, tem sido no crescimento no número de sócio-torcedores.

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“A questão do sócio-torcedor também tem um papel importante no processo. Houve um grande boom em 2011, na época da final da Copa do Brasil, contra o Vasco, quando para mais de 30 mil associados, o que garante uma receita fixa para o clube que quase bate na cota que recebe da TV”, compara o repórter Gustavo Ribeiro, setorista do Coritiba para o jornal Gazeta do Povo, do Paraná.

Mas nada disso traria algum resultado prático se dentro de campo o time não alcançasse resultados. “Além do trabalho seguir uma espécie de sequência desde 2010, a presença de três jogadores mais experientes no elenco tem sido fundamental: Deivid, Lincoln e, é claro, o Alex. Eles estão mostrando aos mais novos que é possível pensar em algo mais do que a liderança momentânea do Brasileiro. Vaga na Libertadores ou mesmo a conquista do título são metas que já começam a ser faladas no clube”, disse Ribeiro.

De forma oficial, contudo, o Coritiba prefere manter os pés no chão e não traçar metas ousadas demais. “Estamos disputando o campeonato mais difícil do mundo. Uma meta é ficar entre os oito primeiros, mas dentro disso pode ser tanto ficar em 8º, como em 4º como sem campeão”, disse Felipe Ximenes.

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