Psicólogo do esporte alerta para perigos que a superexposição pode causar em jovens talentos

Neymar em gravação de comercial para uma marca de baterias de carro
Divulgação
Neymar em gravação de comercial para uma marca de baterias de carro

Os principais jogadores de futebol do país não são mais apenas “boleiros”, o termo popular designado para eles. Há pelo menos 15 anos, quando Ronaldo foi pioneiro nesse cenário no Brasil, os craques fazem comerciais, lançam produtos próprios e entre um compromisso e outro, treinam e jogam. A rotina e o sucesso fácil acabam atrapalhando alguns deles a ter um bom desempenho e compromete até mesmo sua carreira, caso de Adriano, por exemplo.

“Além dos malefícios da exposição exagerada, ela gera um desgaste de energia e também emocional. Aumenta-se o risco de se ter uma ampliação de expectativa e isso acaba atrapalhando desempenho”, avalia João Ricardo Cozac, presidente da associação paulista da psicologia do esporte e do exercício físico.

Para superar as pressões e manter em campo as boas atuações que garantiram para esses jogadores o status de “astros”, há assessores para tentar minimizar os efeitos nem sempre positivos que uma superexposição pode gerar. A família também é fundamental.

Neymar é o maior exemplo disso no Brasil nos últimos anos. Com mais de 10 contratos de patrocínio, o atacante do Santos tem uma agenda cheia de gravações e sessões de foto que já o fizeram até a mudar seus compromissos no Santos.

“O Neymar chegou onde está porque fez por onde. Tem talento, as grandes marcas vêem isso e buscam essa imagem para se associar”, disse o pai de Neymar. “Seu” Neymar é quem controla tudo que que o filho gasta e onde vai investir tudo que ele ganha. São mais de R$ 3 milhões por mês entre contratos de patrocínio e salários no Santos. Neymar tem também um assessor especial que cuida de toda sua agenda de compromissos. O jogador ainda conta a agência 9ine, de Ronaldo, para cuidar da sua carreira publicitária. 

Pai de Neymar controla a carreira do filho
AE
Pai de Neymar controla a carreira do filho

"Ele já se acostumou com essa rotina, mas claro que eu alerto para o exagero. Quando vejo que ele precisa descansar, se concentrar mais, a gente dá uma segurada", conta o pai de Neymar.

E o craque do Santos lida com essa superexposição. "Ainda me assusto com ela. Mas tenho mais noção hoje em dia. Algumas coisas acontecem e acho engraçado. Mas estou me acostumando. O carinho é legal. Só tenho de agradecer a Deus por tudo que ele faz na minha vida", disse na última quinta-feira, em mais um evento publicitário para o lançamento do seu gibi.

Entre ex-atletas, a percepção é que Neymar e outros jogadores que alcançaram o sucesso muito jovens precisam sempre da orientação e de uma aproximação cada vez mais próxima da família e com jogadores mais experientes. 

"O que o Neymar precisa é da orientação de boleiros das antigas, gente que conhece bem o mundo do futebol e pode lhe dar conselhos e alertá-lo sobre as armadilhas que podem surgir. E ele tem de dar ouvidos a quem pode ajudá-lo”, avalia Paulo Cézar Caju, campeão com a seleção brasileira em 1970. Ele sofreu com excessos no início da carreira, mas contou com a orientação de seu pai para não perder o dinheiro que ganhou.

“Meu pai (Marinho) foi jogador e me ensinou a pensar no futuro e a ter equilíbrio na minha vida pessoal. Quando comprei meu primeiro carro, em 70, já tinha quatro imóveis”, conta o ex-jogador.

Alexandre Pato, astro precoce, com passagem de cinco pelo Milan e contratado pelo Corinthians neste ano, também tem um suporte de assessores no clube e do seu empresário, Gilmar Veloz, para lidar com a exposição da sua vida fora dos gramados, especialmente em relação à sua ex-esposa, a atriz Sthefany Brito. "Pato é jogador de futebol, e essa é a preocupação dele", disse sua assessoria pessoal em resposta a um pedido do iG para que ele falasse sobre o assunto.

Adriano tem dificuldades para conciliar a exposição da sua vida com a carreira de jogador
Carlos Moraes/Ag. O Dia
Adriano tem dificuldades para conciliar a exposição da sua vida com a carreira de jogador

Quando o sucesso atrapalha
Adriano é um caso de atleta com potencial que não teve o suporte para lidar com as faclidades que o sucesso proporciona. Com o mundo aos seus pés em 2005, ele perdeu o chão após a perda do pai e nunca mais se encontrou (à exceção foi em 2009, quando com regalias, ajudou o Flamengo a ser campeão brasileiro). 

"Adriano age como um adolescente que pulou etapa de desenvolvimento na adolescência e chegou à fase adulto. É um adolescente-adulto. Isso é comum em jogadores nesse nível. Quando ganham muito, perdem a noção do limite do que deve ser feito. Como alguns limites sociais. O Adriano, eu percebo, não sabe se é o Imperador ou o se ele é garoto da Vila Cruzeiro. É uma grande lacuna que se forma. E se ele não está disposto a ser ajudado a situação fica irreversível", avalia Cozac.

Para Cozac, que tem atletas de alto rendimento entre seus pacientes, um trabalho psicológico ajudaria a maioria dos jogadores de futebol com mais visibilidade a não se perder entre os perigos que o sucesso pode oferecer. "Jogadores que se destacam, jogam na seleção brasileira, na mídia devem ter cautela maior com o que fazem. Aí certamente um apoio psicológicom feito da forma correta, pode ajudar". Hoje a maioria dos clubes têm seus psicólogos, mas o atendimento raramente é individualizado. 

No Corinthians, com quem teve contrato entre abril de 2011 e março de 2012, houve a tentativa de dar a Adriano um apoio psicológico, mas ele não aceitou a ajuda. Ele não joga uma partida oficial há mais de um ano e entre problemas físicos, uma passagem rápida pelo Flamengo, teve sua vida pessoal em foco. Namoros, visitas a sua comunidade no Rio... tudo virou notícia. E Adriano nunca lidou bem com essa exposição.

"Todos nós sabemos que existem pessoas ruins, que gostam de falar mal e até inventar coisas", disse em seu Twitter no início do mês. "Estou muito chateado com a imprensa do Rio e com tudo isso que estão fazendo comigo", disse, sobre as especulações em torno de seu nome. 

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