Dirigente falou que ambas equipes tinham problemas de autoestima e que acesso na Série B é obrigação. Segundo ele, apenas direitos de imagem de atletas estão atrasados

Palmeiras foi bicampeão brasileiro em 1993 e 1994, com Brunoro no cargo de diretor executivo
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Palmeiras foi bicampeão brasileiro em 1993 e 1994, com Brunoro no cargo de diretor executivo

Palmeiras e José Carlos Brunoro tentam, em 2013, repetir o sucesso da parceria feita nos anos 90. Com o diretor executivo, o clube superou um período de baixa autoestima e voltou a vencer. Na época, era um jejum de 17 anos sem conquistas. Agora, nova queda à Série B do Campeonato Brasileiro é o desafio.

Em entrevista ao iG Esporte , Brunoro fala sobre as semelhanças entre os Palmeiras dessas duas épocas. Entre 1992 e 1996, foram dois títulos brasileiros e três paulistas. Agora, o dirigente diz acreditar até em vencer a Libertadores nesta temporada. Mas não faz questão de esconder que a conquista da segunda divisão nacional é a única obrigação da equipe em 2013.

O diretor nega que existam salários atrasados dentro do atual elenco, apenas direitos de imagens, e dá um voto de confiança para o técnico Gilson Kleina. Para ele, somente no meio do ano será possível avaliar o trabalho do treinador. Culpa do grupo enxuto que o Palmeiras tinha no início da temporada e das diversas lesões sofridas pelos atletas.

Brunoro fala ainda sobre a necessidade de modernização dos estádios para evitar perda de público ainda maior, que o calendário do futebol brasileiro é bom e defende os Estaduais. Segundo ele, estes torneios são fundamentais para a formação de novos jogadores. O diretor entende, porém, que as fórmulas de disputa devem ser revistas.

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Confira a entrevista de José Carlos Brunoro ao iG Esporte:

José Carlos Brunoro está de volta ao Palmeiras desde o final de janeiro de 2013
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José Carlos Brunoro está de volta ao Palmeiras desde o final de janeiro de 2013

iG Esporte - Quais foram as principais dificuldades encontradas?
Brunoro -  Tinha uma dificuldade de baixa autoestima do elenco, uma dificuldade da comunidade desconfiar do elenco e, dentro do elenco, uma desconfiança das informações que saíam muito para fora. Então nós resolvemos jogar muito claro com o elenco, e definimos que as pessoas responsáveis para falar com eles eram o presidente, eu e o Omar [Feitosa, gerente de futebol]. Isso criou uma confiabilidade, criou rapidamente uma confiança. Mas a maior dificuldade foi realmente melhorar essa autoestima no profissional, conseguir mais informações nos outros departamentos, que é não é tão simples em tão pouco tempo conseguir.

iG Esporte - Quais as principais diferenças entre esse Palmeiras atual e o que o senhor trabalhou nos anos 90?
Brunoro - Têm algumas semelhanças e algumas coincidências. Em termos de crise, a gente chegou naquela época com 17 anos sem títulos. A situação de baixa autoestima e desconfiança do time era praticamente a mesma. Até maior, porque não ganhava título há muito tempo. O Palmeiras, hoje, tinha acabado de ganhar uma Copa do Brasil. Mas a situação financeira naquela época era melhor do que está hoje.

iG Esporte - O Flamengo passa por um processo semelhante e chegou a acabar com os esportes olímpicos. Há alguma necessidade de remanejar recursos para o futebol como eles fizeram?
Brunoro - Nós estamos acabando de avaliar essa situação do esporte olímpico. A gente só sabe que, como modalidade de competição mesmo, o clube não pode ter todas elas disputando em peso forte. A gente tem que fazer uma mescla aí de trabalho social e esportivo para os sócios e tem que ter a representatividade. Quais serão as modalidades representativas, ainda falta um tempo para a gente definir.

iG Esporte - Como está o controle da dívida do clube e como trabalhar para diminuí-la?
Brunoro - Dentro das minhas atribuições, eu não quis entrar na parte financeira. O clube contratou um profissional de mercado, o Luciano, que cuida de toda a parte financeira do clube profissionalmente. Ele está montando todos os projetos e vendo tudo o que pode fazer.

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iG Esporte - Mas o senhor saberia dizer de há jogadores com salários atrasados?
Brunoro - Não existem salários atrasados. Existem imagens atrasadas. São duas situações diferentes, não é carteira de trabalho. E que está totalmente, vamos dizer assim, controlado junto com os atletas.

iG Esporte - Como é este processo de profissionalização do futebol?
Brunoro - O Omar é o gerente de futebol e cuida de toda a parte de vestiário, relação dos atletas comigo, o planejamento da equipe técnica. Tudo que é futebol profissional, no dia a dia, o Omar está fazendo. Toda a parte de campo, vestiário, relacionamentos, administrativa de ter na mão dele a logística, o registro profissional, os contratos. Tudo está na mão dele para que a gente possa ganhar um pouco de tempo e dar suporte a ele também um pouco mais macro.

iG Esporte - Com relação ao marketing, como explorar melhor e valorizar a marca Palmeiras?
Brunoro - Isso vai fazer parte de um grande projeto. Na realidade, a gente está montando esse projeto, já está com uma atuação forte em cima do sócio torcedor. Estamos reavaliando nossos patrocínios com a nossa capacidade de captação de todos os produtos que nós temos e já estamos indo ao mercado com isso. Depois a marca Palmeiras será trabalhada em um determinado momento. Então o barco está se estruturando, vamos dizer assim, para poder aproveitar duas situações importantes: o centenário do clube e a inauguração da Arena.

iG Esporte - Dentro de campo, quais as metas do Palmeiras?
Brunoro - O grande objetivo é a Série B. Não adianta a gente esconder isso. Sem você subir para a Série A, você não cresce também como clube, time ou recursos. Tudo tem que passar por você subir. Todos os projetos do clube têm que passar por você subir. Não adianta você ganhar a Libertadores e não subir, que o problema vai ser muito grave, como diminuição de receitas e coisas do tipo. Nós temos dificuldade na Libertadores e no Campeonato Paulista porque a gente montou um elenco com essas competições praticamente em andamento, têm uma fase crítica de classificação. Mas, como são competições que têm uma fase de mata-mata, todos os clubes, na minha visão, têm as mesmas possibilidades. Depende de um jogo, no caso do Paulista, e na Libertadores depende de como se joga fora de casa. Têm algumas situações que podem levar o Palmeiras muito mais adiante do que se imagina, então a gente joga com essas possibilidades.

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iG Esporte - O Paulo Nobre falou cerca de duas semanas atrás que o elenco é esse, para que o torcedor se acostume. O Palmeiras não vai mais buscar jogador no mercado?
Brunoro -  "O elenco é esse" é o seguinte, o Paulo deixou bem claro: não é porque perdeu de seis que vai ficar mudando treinador e comissão técnica. Então, o que acontece: nós precisamos de algumas peças em alguns setores, que poderão acrescentar a esse elenco que está aí.

Arena Palestra é um dos pontos a serem explorados pelo departamento de marketing
Divulgação
Arena Palestra é um dos pontos a serem explorados pelo departamento de marketing

iG Esporte - Tem algum nome específico?
Brunoro - Não, nome não. Nós temos posição, que é ataque. Um na lateral e talvez mais um zagueiro.

iG Esporte - Pensando que o objetivo principal é Série B, com o que o Palmeiras tem hoje é o suficiente?
Brunoro - Para a Série B nós estamos montando um time. Já tem meio caminho andado. Lógico que vai precisar de algumas peças aí, mas têm que ser muito pontuais.

iG Esporte - O senhor mesmo disse que o clube ainda não deu condições ideais de trabalho para o Gilson Kleina e por isso não o demitiu. Quais são essas condições?
Brunoro - A primeira é tempo de trabalho com um elenco que ele pegou no meio do caminho. Ele não teve tempo de trabalho, em função de ter jogadores que jogam só Libertadores e outros que jogam só no Paulista, de montar o time que ele imagina, a estrutura que ele imagina. Não há tempo para ele fazer isso nesse momento. Para a Série B, você vai ter tempo. Tem a parada para a Copa das Confederações, você tem uma série de coisas que ele pode desenvolver o trabalho dele com mais calma. Também não está o elenco completo, principalmente pelas muitas contusões. E dificulta você fazer uma análise do trabalho do treinador.

iG Esporte - Sobre essas lesões: é culpa da pré-temporada, da preparação física...?
Brunoro - Contusões não têm culpa, né. É muito difícil jogar culpa. Mas como no Palmeiras todo mundo quer achar uma culpa, fica se falando isso.

iG Esporte - Todos os clubes têm. A culpa é da pré-temporada, que é reduzida?
Brunoro - O Palmeiras, em função de ter um elenco muito pequeno, teve mais dificuldades. Todos os jogadores no começo tiveram que jogar praticamente desde o primeiro jogo. Os outros clubes ainda pouparam parte do elenco por terem um elenco maior. O Palmeiras, então, está recolhendo essa situação. Como tinha um elenco reduzido, não conseguiu desde o primeiro jogo poupar alguns jogadores para poder entrar em forma, como aconteceu com Corinthians, São Paulo, etc. O Palmeiras sofreu muito mais em não ter tido a pré-temporada. E realmente não teve nenhuma pré-temporada.

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iG Esporte - Qual sua avaliação então sobre o calendário do futebol brasileiro?
Brunoro - Acho que o calendário do futebol brasileiro é bom. É igual ao calendário europeu. O calendário europeu joga duas vezes por semana, joga Uefa (Liga Europa) ou Champions, campeonato nacional, a copa nacional deles. Só não tem o regional. É a única diferença. Então acho que é bom. Nós não podemos aqui criar o mundo ideal, quando na verdade temos que ver o mundo real. Tirar os campeonatos regionais? Os campeonatos regionais sempre foram grandes formadores de jogadores. E talvez, em vez de querer imitar os europeus, ver que isso é um grande ganho para nós. A gente não deve apenas se espelhar neles achando que aqui temos que fazer tudo igual. Nós estamos em uma nação continental. Acho que a fórmula pode ser melhorada e, aí, contemplar uma mini pré-temporada.

Para dirigente, estádios vazios são culpa de violência e maus serviços oferecidos
Fernando Dantas/Gazeta Press
Para dirigente, estádios vazios são culpa de violência e maus serviços oferecidos

iG Esporte - E quanto aos estádios vazios?
Brunoro - São várias situações. Na primeira delas, tem um grupo em que você não atua só nos clássicos. Mas o time menor precisa jogar. Não é um grande atrativo, mas isso não quer dizer que o futebol esteja ruim. Nós estamos ajudando os clubes menores. A diminuição (de público) é factual. A violência: nós passamos um mês e meio entre falar da morte na Bolívia e da agressão aos jogadores do Palmeiras. Durante praticamente um mês o noticiário era esse. Como é que as pessoas vão se motivar a ir pro estádio com essa visão? É bastante complicado. Em vez da gente estar falando sobre futebol, nós ficamos falando de violência. E o que é natural, é notícia, aconteceu o fato. E depois, a outra situação é a seguinte: comodidade dos estádios. Você paga o ingresso, na minha visão, importante. E chega lá você tem banheiro químico, você não tem área de alimentação... O futebol está na área do entretenimento. Se eu chegar em um jogo com meu filho, vou levar ele para o banheiro e ele entra num banheiro químico, vou procurar um lugar pra ele comer legal e não encontro, ele senta em um lugar ruim, vê briga na arquibancada. Tudo bem, levei ele nesse jogo. No jogo seguinte, ele me pede para ir ao cinema. Ele chega lá tem pipoca quentinha, um lugar para ele assistir, não vê briga, só vê gente legal. No outro domingo você pergunta: quer ir no futebol ou no cinema? O que ele vai falar? Enquanto nós não entendermos que temos concorrentes na área do entretenimento, nós vamos ter problemas. Porque as pessoas querem conforto, querem que aquilo seja um espetáculo. Então a gente tem que melhorar as condições e isso virá com as novas arenas.

iG Esporte - Com as novas arenas, acha que os preços dos ingressos tendem a subir?
Brunoro - Eu sou contra. Eu acho que a arena possui um mix de faturamento e o preço do ingresso é parte dele. O importante é a pessoa que entrar tenha um tíquete médio elevado. O que é isso: ele tem o ingresso, gastou na loja, gastou na alimentação, em produtos do time e da arena, estacionamento. Não é só o ingresso. O mix de faturamento deve ser bem balanceado para que todos possam usufruir.

iG Esporte - A gestão da diretoria no Palmeiras é de dois anos. Quais as metas para 2014?
Brunoro - Nós queremos todo o crescimento do Palmeiras, em todas as áreas, sustentável, que a gente não retroceda. Dentro do planejamento a gente quer que seja um crescimento sustentável e que a equipe seja competitiva perenemente. Se você tem uma equipe competitiva, briga para ser campeão e não para não ser rebaixado.

iG Esporte - Algum clube serviu de inspiração para este modelo de gestão?
Brunoro - Eu tenho dois modelos que gosto muito, que são momentos em que o clube avança. O Barcelona, quando estava com sérios problemas financeiros, e o Manchester United, com a situação de um clube organizado.

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iG Esporte - Passados dois meses e meio, o departamento de futebol hoje é mais estruturado do que quando o senhor assumiu?
Brunoro - O departamento de futebol e tudo aquilo que a gente encontrou. O marketing está mais estruturado, o futebol de base começa a ficar mais estruturado, o futebol profissional. Sempre salientando uma coisa, e isso não é critica ao passado: são modelos de trabalho. A gente acha, dentro dessa linha de pensamento, que a estrutura sendo profissional vai mais rápido. Por isso que eu digo que está mais estruturado: tem mais gente, profissionais trabalhando, não só pessoas colaborativas.

iG Esporte - O jornalista Ricardo Perrone, colunista do UOL, publicou que o senhor tem direito do Palmeiras a um carro no valor de R$ 100 mil, além do salário mensal de R$ 120 mil, o que causa desaprovação de conselheiros do clube. O que o senhor tem a falar sobre?
Brunoro - Eu tenho primeiro que comentar o seguinte: o Perrone, se amanhã acontecer alguma coisa com minha família, é responsável. Ele é corresponsável, assim como a entidade que o emprega. Eu não vejo o Perrone falar o salário do presidente da Sony, do presidente da Telefonica... Eu não tenho nada a declarar sobre isso. Quando você é um profissional do mercado, você negocia contratos de mercado. A profissionalização exige isso. Agora, eu acho uma irresponsabilidade muito grande, uma leviandade, que as pessoas supostamente inventem aquilo que elas querem para colocar como salário. Em qualquer empresa você tem direitos, tem benefícios. Eu sou uma pessoa de mercado bastante valorizada e construí isso. Não é por acaso, basta olhar tudo o que já fiz. E acho uma leviandade se colocar coisas desse tipo. O repórteres deveriam ter um pouco mais de responsabilidade. Não vou dizer se a informação é verídica ou não, mas de qualquer forma está na mídia e isso é um processo de segurança. Se acontecer, alguém vai ter que ser responsabilizado.

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