Advogado da Embaixada trata processo contra corintianos presos como “lixo”

Por Gazeta |

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Para o boliviano Miguel Blancourt, caso dos torcedores detidos na Bolívia pela morte de Kevin Espada está repleto de irregularidades e pontos obscuros

Sete dos 12 corintianos presos na Bolívia foram liberados na noite de quinta-feira, dia 6 de junho. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersCorintiano exibiu a bandeira do Brasil ao deixar a prisão na Bolívia. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersOs 12 corintianos presos em Oruro. Eles são investigados pela morte de Kevin Beltrán Espada durante a partida entre Corinthians e San José. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersCorintianos participam de jogo com outros presidiários na cadeia de Oruro. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersCorintianos posam para fotos com bolivianos em presídio de Oruro, onde estão presos desde 20 de fevereiro. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersCorintianos presos em Oruro, na Bolívia. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersCorintianos presos usam camisa em homenagem a Kevin Beltrán. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersCorintianos na quadra do presídio San Pedro, em Oruro, na Bolívia. Foto: Daniel Rodrigo/ReutersOs torcedores corintianos foram transferidos para um presídio de Oruro. Foto: APTorcedores da Gaviões da Fiel fizeram protesto em frente ao Consulado da Bolívia em São Paulo. Foto: Gazeta PressTorcida pediu por justiça aos detentos de Oruro. Ela alega que eles são inocentes. Foto: Gazeta PressTorcida do Corinthians protesta em frente ao Consulado da Bolívia na Avenida Paulista. Foto:  J. Duran Machfee/Futura Press


Miguel Blancourt, advogado ligado à Embaixada do Brasil em La Paz que defende os corintianos detidos em Oruro, em razão da morte do torcedor Kevin Beltrán Espada, ocorrida no jogo entre San José e Corinthians pela Copa Libertadores, apontou uma série de irregularidades e pontos obscuros ao analisar o processo.

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O primeiro problema observado por Blancourt se refere ao policiamento da partida, disputada em 20 de fevereiro. Na "Tribuna de Preferencia" do Estádio Jesús Bermúdez, setor ocupado pela torcida visitante, 12 homens eram responsáveis pela segurança o que, para o advogado, é um indício de que as prisões foram realizadas a esmo.

"Entendo que esses 12 policiais correspondem aos 12 detidos. Se fossem 20 policiais, teríamos 20 detidos. Além disso, os vídeos mostram que os policiais não estavam observando a torcida, mas sim vendo o jogo. Um evento desse nível raramente ocorre em Oruro, e os policiais estavam desfrutando do espetáculo ao invés de trabalhar", disse Blancourt.

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Já a "Ata de Consignação e/ou Registro de Pessoa Apreendida", assinada pelos 12 torcedores, aponta que o motivo da prisão foi "ter sido surpreendido em flagrante" (com o braço engessado, o acusado Rafael de Almeida apenas colocou suas digitais). Segundo Blancourt, os brasileiros, sem os serviços de um tradutor, não tinham consciência do que faziam - alguns garantem quem nem sequer estavam dentro do estádio no momento do acidente.

"Eles foram praticamente obrigados a confessar que foram surpreendidos em flagrante sem que existisse um tradutor no momento. Os torcedores não sabiam o que estavam fazendo. A falta de tradutores nas atas de prisão dos 12 brasileiros é uma irregularidade", afirmou Blancourt.

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Os vídeos produzidos no dia da partida são provas de fundamental importância. No processo, consta o diploma do perito Carlos Jabier Paredes, responsável por analisar o material. Desde agosto de 2012, ele tem o título de especialista em "delitos informáticos" pela Academia Colombiana de Criminalística e Fotografia Investigativa.

"Não existe na Bolívia uma pessoa qualificada para fazer a perícia dos vídeos. O meu laptop, que é bem antigo, é melhor que o desse perito. O computador dele simplesmente não consegue reproduzir os vídeos. É uma boa pessoa, mas não sei como está fazendo o seu trabalho", afirmou o advogado.

Blancourt ainda acusa Abigail Saba, promotora que era responsável pelo caso, de assinar documentos como se tivesse participado de eventos de que não participou. "Essa investigação não avançou praticamente nada e já se passaram mais de 40 dias. As primeiras 48 horas depois de um delito são chaves, e não há nada", protestou.

Reprodução/Facebook
Torcedor do San José, Kevin Espada morreu ao ser atingido por um sinalizador, no dia 20 de fevereiro

O advogado calcula que o processo tem aproximadamente 800 páginas. Os responsáveis pela investigação solicitaram a empresas de transporte aéreo e terrestre os nomes dos brasileiros que ingressaram na Bolívia na época. Assim, cerca de um terço do material é composto por listas com nomes de pessoas.

"Esse processo com mais de 800 páginas prova três coisas. Primeiro, que os torcedores não chegaram a Oruro em transporte público, fato ridículo. Depois, quem são os policiais que estavam no estádio. Em terceiro lugar, que dois corintianos portavam sinalizadores. Esses são os resultados da investigação. Um lixo, não serve para nada", disse Blancourt.

A única testemunha da tragédia no processo é Beymar Jonathan Trujillo Beltrán, primo de Kevin. Os dois viajaram de Cochabamba a Oruro para acompanhar o jogo no Estádio Jesús Bermúdez. Posicionado ao lado do familiar, Beymar diz ter percebido o deslocamento de ar provocado pela passagem do sinalizador.

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"Senti um golpe de vento na cabeça que arrancou a peruca que estava usando. Fiquei de pé para ver o que tinha acontecido e vi meu primo deitado na arquibancada com um objeto incrustrado em seu olhinho", diz o depoimento do garoto, que seguiu para o Hospital Obrero. "Ali me disseram que meu primo estava morto", afirmou.

No processo, há uma sequência de fotos do cadáver de Kevin. É possível observar que o sinalizador atingiu o olho direito do garoto e penetrou na diagonal. Parte do objeto chegou a sair pelo lado oposto, abaixo da orelha esquerda, na altura do pescoço.

Alfredo Santos, promotor que herdou o caso de Abigail Saba no Ministério Público de Oruro, evitou fazer qualquer análise mais detalhada. "Já foram realizadas algumas investigações e devemos continuar com isso. Nossa legislação estabelece seis meses de investigação. Estamos dentro do período para acumular os elementos de prova", afirmou.

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