No primeiro jogo entre os times depois que o River foi rebaixado, torcedores enfrentaram filas, superlotação e truculência policial no estádio que receberia Brasil x Argentina

Estádio Centenário, em Resistencia, sofreu um apagão antes do jogo entre Argentina e Brasil
AFP
Estádio Centenário, em Resistencia, sofreu um apagão antes do jogo entre Argentina e Brasil

Brasil e Argentina não seria o primeiro superclássico que a cidade de Resistencia veria. Em 25 de janeiro de 2011, o estádio Bicentenario foi palco de um Boca Juniors e River Plate nos torneios de verão, preparatórios para a temporada argentina. A partida também era especial por ser o primeiro encontro dos rivais depois do rebaixamento do River.

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Diferente do duelo de seleções desta quarta-feira, nos 90 minutos de partida correu tudo bem em campo, sem problemas no sistema de iluminação, e o Boca acabou vencendo por 2 a 0. Fora de campo, no entanto, não faltaram confusões nas imediações do estádio. Filas imensas, superlotação nas arquibancadas, torcedores que ficaram de fora e truculência da polícia foram alguns dos problemas relatados.

O estudante Felipe Bianchi, 23 anos, fanático pelo futebol sul-americano, esteve no Superclássico argentino e contou que havia mais torcedores do que espaço na geral destinada à torcida do River. "Havia de três a quatro pessoas se espremendo por degrau. No início do jogo, em lances perigosos, uma multidão chegou a desabar de tão lotado e alguns torcedores foram pisoteados", lembrou. Já durante o dia do jogo, a imprensa argentina noticiava que haviam sido vendidos mais ingressos do os 25 mil que o estádio do Club Atlético Sarmiento suportaria. Do lado da torcida do Boca, muitos do que tinham ingressos para o setor popular foram obrigados a se ajeitar nas escadas de outros setores por conta da superlotação.

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Na longa fila para entrar no estádio - algumas pessoas demoraram cerca de uma hora e meia para conseguir chegar aos portões -, a polícia tratava a massa com força bruta. Há até quem quase tenha sido esmagado entre as grades de ferro colocadas supostamente para organizar o fluxo. "Houve relatos de torcedores do Boca de que a entrada foi bastante confusa", disse Bianchi, que comprou os ingressos com um amigo - um para o lado millionario , outro para o xeneize  - pela internet, com mais de dois meses de antecedência à partida.

"Meu amigo teve problemas na entrada do estádio. A equipe de lá acusava o ingresso de ser falso, pois não sabiam que havia torcedores com ingressos retirados antecipadamente", completou, destacando que alguns torcedores não puderam entrar no estádio.

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Os problemas para o brasileiro haviam começado vários dias antes do jogo. Há 1000 quilômetros de Resistencia, na capital Buenos Aires, conseguir os ingressos que custaram cerca de R$ 60 cada também foi penoso. "Eu achava que as empresas que vendem ingressos pela Internet aqui no Brasil fossem ruins, mas na Argentina foi muito pior. Não havia informação suficiente no site e nem respondiam os e-mails com dúvida do consumidor. Acabamos indo na loja indicada e descobrimos que não conseguiríamos retirar os ingressos. Nos mandaram a outro ponto de retirada, em outro dia - tivemos que estender nossa estadia em Buenos Aires apenas para retirar os ingressos. Chegando lá, estava uma zona completa e ficamos quase duas horas na fila", relatou.

O estádio Bicentenario tem pouco mais de um ano de existência e foi construído em homenagem aos 100 anos do Club Atlético Sarmiento, atualmente na quarta divisão do futebol argentino e presidido pelo governador da província do Chaco, Jorge Capitanich. Desde que foi inaugurado em maio de 2011, o estádio vem sediando vários eventos importantes. Além do superclássico argentino, o Centenario também foi palco de um amistoso entre Argentina e Paraguai, um jogo da seleção argentina de rugby, além de show do cantor porto-riquenho Ricky Martin.

Depois do fiasco desta quarta-feira no Superclássico das Américas, Bianchi avalia que Resistencia não tem condições de receber jogos dessa magnitude. "Achei que o estádio e o evento foram bem organizados, com exceção da superlotação", comentou. "Entretanto, a estrutura de Chaco está longe de ser adequada a um superclássico River e Boca ou Argentina e Brasil. Escolher a cidade para sediar jogos tão importantes parece claramente uma atitude gananciosa da AFA".

Resistencia tem aproximadamente 275 mil habitantes, dos quais quase 50% vivem abaixo da linha da pobreza (pessoas com renda diária inferior a 1 dólar, ou R$ 2,03). Com uma economia baseada na agricultura e no extrativismo, o Chaco tem o pior PIB dentre as 23 províncias argentinas, além do terceiro pior IDH.

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