“Ronaldo foi o melhor que vi, mas não tinha paixão pelo futebol”

Ao iG, Arrigo Sacchi fala sobre convivência com brasileiros na Europa, a situação do futebol italiano e elogia o Barcelona

Paulo Passos, iG São Paulo |

Ao final da partida em que o Barcelona goleou o Real Madrid por 5 a 0, em novembro de 2010, Arrigo Sacchi recebeu uma ligação na sua casa. O técnico, que ficou famoso por comandar o Milan do final da década de 80, vencedor de duas Ligas do Campeões seguidas, atendeu o telefone, riu e concordou com o que ouviu do seu ex-chefe, Adriano Galliani, diretor executivo do Milan.

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Sacchi trabalha como coordenador das categorias de base da seleção italiana
“Acho que eles chegaram perto da gente, Sacchi”, disse o cartola, que se referia ao domínio que aquele Milan de Gullit, van Basten e Rijkaard teve no seu auge. “Eu tive que concordar. Acho que, junto com o nosso time e o Ajax da década de 70, este Barça está entre os maiores da história”, afirma. O causo foi contado pelo técnico em entrevista ao iG e dá uma ideia da sua admiração em relação ao time de Guardiola, Messi e companhia.

Hoje, Sacchi trabalha como coordenador das categorias de base da seleção italiana. Há 18 anos, era o treinador do time principal na derrota para o Brasil na final da Copa do Mundo de 1994. “Acho que, no final, ganhou o time que merecia mais. Mas não perdemos no jogo, perdemos nos pênaltis”, lembra.

A queda na disputa de pênaltis não é única referência que o técnico tem dos brasileiros. Como treinador do Parma e do Atlético de Madri, além de diretor técnico do Real Madrid, trabalhou com vários jogadores do Brasil: Taffarel, Adriano , Roberto Carlos e Ronaldo.

“Ronaldo, com certeza, foi o melhor que vi. Ele não tinha uma grande paixão pelo futebol, uma grande motivação”, afirma o italiano, que trabalhou com o atacante brasileiro na época da era dos galácticos do Real Madrid.

Se não houver uma mudança na base da seleção, acho que o futebol morrerá na Itália"

 O “Fenômeno” não foi o único a dar alegrias e dores de cabeça ao técnico. Há dez anos, Sacchi indicou a contratação de Adriano para o Parma. “Ele era um menino e fazia um gol por jogo. Mas era um problema. Tínhamos que colocar alguém para segui-lo, porque não tinha um bom comportamento profissional”, diz.

Confira a entrevista com Arrigo Sacchi:

iG: Que times lhe agradam no futebol atual?
Arrigo Sacchi: O Barcelona, com certeza. Algumas equipes ajudaram para o desenvolvimento do futebol. Acho que agora o Barça é uma dessas equipes. Antes, tivemos o Ajax, o Milan. Vejo hoje na Europa dois times muito fortes, o Real Madrid é outro. Mas nos últimos três anos, vejo o Barcelona como líder do futebol mundial. Joga um futebol novo, moderno, sempre com uma evolução contínua. Acho que forma junto com o Real Madrid a dupla de times mais fortes da Europa. Hoje até já vejo o Real Madrid muito próximo, mas ainda precisa ultrapassar o Barça.

iG: Quem venceria uma partida entre o atual Barcelona e o seu Milan?
Sacchi: Me perguntaram isso muitas vezes (risos). É difícil comparar dois times numa distância de tempo tão grande. Acho que o Ajax, o Milan e o Barcelona têm uma coisa igual: sempre tentaram ter liderança no campo, tendo a bola a maior parte do tempo possível. Foram três equipes grandes, que acrescentaram muito a história do futebol. Trouxeram evolução e uma mudança grande. Me lembro de uma frase de um jornal, após a nossa vitória em uma final da Liga dos Campeões: “Depois de ter visto este Milan, o futebol nunca mais poderá seguir sendo o mesmo”. Acho que agora se deve dizer o mesmo sobre o Barcelona. Parece que mais ou menos de 20 em 20 anos temos um time que renova as coisas. Os conceitos gerais são os mesmos, mas evolução maior com algumas mudanças. Poucas coisas mudam muitas coisas no futebol.

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Em 1994, Sacchi era o técnico da Itália na derrota para o Brasil no Mundial dos Estados Unidos


iG: Hoje você já não trabalha como técnico. Qual a sua função hoje na Federação Italiana de Futebol?
Sacchi: Sou responsável pelas categorias de base da seleção italiana. Desde a sub 15 até o sub 21. Estamos trabalhando com os técnicos para melhorar o futebol italiano, que tem uma grande história como o brasileiro, mas que nem sempre investe nos jovens. Eu treino os técnicos na tentativa de dar uma linha, um estilo para todos os times. Tentamos acabar com aquele estilo de jogar apenas no contra-ataque, se defendendo. Queremos jogar como se atua no futebol moderno, com todos participando, tendo posse de bola. O futebol italiano tem muitas qualidades mais precisa melhorar com tudo o que acontece hoje, vendo a Espanha, a Alemanha e times como Barcelona e o Real Madrid. 

Ronaldo era o melhor, mas não tinha muita paixão pelo futebol. Uma pena porque eu dei chances para ele mudar essa imagem, mas ele não fez questão de aproveitar"

iG: Você acha que a Itália está muito atrás dos rivais?
Sacchi: Muito, não sei, mas está atrás. Se não houver uma mudança na base da seleção, acho que o futebol morrerá na Itália. Os clubes não investem na base. Agora temos a Juventus, que no próximo ano vai inaugurar um centro de formação com atletas e 14, 15 e 16 anos. Temos poucos exemplos disso aqui.

iG: Existe algum segredo para formar um técnico?
Sacchi: É difícil se formar um técnico. Eu tenho grandes jogadores que atuaram comigo e vejo que custa a eles. É preciso trabalhar. Eu estou tentando ajudar aqui na Itália, mas segredo mesmo não sei se existe.

iG: E você ouviu muitas criticas por não ter sido atleta. Acho que há preconceito com treinadores que nunca foram jogadores profissionais?
Sacchi: Sim, tinha na minha época e hoje. Eu já disse isso algumas vezes e repito: Nunca ouvi dizer, por exemplo, que para se tornar um jóquei é preciso ter sido cavalo primeiro (risos).

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Ronaldo no Real Madrid, quando Sacchi era diretor do clube

iG: Por que os técnicos brasileiros não tiveram sucesso na Europa? Existe uma explicação para isso?
Sacchi: Sim, tem uma explicação para isso. Os técnicos brasileiros têm uma ideia menos coletiva do futebol que os europeus. É diferente. Aqui na Europa se vive um futebol mais agressivo, de velocidade, onde se marca na frente. Os jogadores precisam se mover junto. Agora no Brasil as coisas estão mudando um pouco. Outro dia vi um jogo do Brasil de uma equipe de base. Vi que já atuam de forma mais coletiva que antes.

iG: No Real Madrid você contratou o Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid. Por que não deu certo?
Sacchi: É um bom técnico, que tem conhecimento. Fez um bom trabalho em uma situação complicada.

iG: Por que Luxemburgo não ficou mais tempo?
Sacchi: Ele ficou um ano. Porque no Real Madrid tem que ganhar sempre. Se você não ganha não fica. Era um Madrid que trocava muito de técnicos. Ele foi embora e logo depois eu sai. Eu vejo o trabalho dele como bom, ele fez um bom trabalho.

iG: E dos jogadores brasileiros que você trabalhou quem foi o melhor ?
Sacchi: Com certeza, o Ronaldo. Ele não tinha uma grande paixão pelo futebol, uma grande motivação, mas era um jogador extraordinário. Tive também o Roberto Carlos e o Adriano. O Adriano eu contratei quando estava no Parma. Ele era um menino e fazia um gol por jogo. Mas era um problema. Tínhamos que colocar alguém para segui-lo, porque não tinha um bom comportamento profissional. Temos muitos casos de brasileiros com talento, mas que não são os profissionais mais corretos. Porém, temos outros exemplos também, que têm comportamento ideal. Vejo o caso do Kaká, do Cafu. Tive o Taffarel no meu time, no Parma, e ele era exemplar, não dava problema.

“Nunca ouvi dizer que para se tornar um jóquei é preciso ter sido cavalo primeiro”, diz Sacchi sobre técnicos que não foram jogadores 

iG: Por que você acha que o Ronaldo não tinha paixão pelo futebol?
Sacchi: Ronaldo era o melhor, mas não tinha muita paixão pelo futebol. Uma pena porque eu dei chances para ele mudar essa imagem, mas ele não fez questão de aproveitar. Mas era um grande do futebol. Um talento fenomenal.
Nota da redação: Sacchi era diretor técnico do Real Madrid na época que Ronaldo atuava no clube. Segundo a imprensa local, nos últimos anos na Espanha, o atacante faltava a treinamentos e tinha dificuldade de manter a forma física.

iG: Quem foi melhor: van Basten ou Ronaldo?
Sacchi: São distintos. Ronaldo tinha mais talento, mas Van Basten jogava mais com o time e para o time. No meu time, eu ficaria com o Van Basten.

iG: Você ainda sofre com a derrota para o Brasil na final da Copa do Mundo de 1994?
Sacchi: Foi um jogo raro. Se jogava em uma condição climática difícil para a gente, principalmente porque atuávamos em um ritmo intenso forte. O Brasil tinha um time muito bom, o Parreira fez um grande trabalho. Nada que eles conquistaram foi fácil. Acho que no final ganhou o time que merecia mais. Não perdemos no jogo, perdemos nos pênaltis.

iG: Mas como foi o clima no vestiário depois do jogo? Foi mais triste da sua carreira?
Sacchi: Quando chega nos pênaltis você pode ganhar ou perder, independente de como foi o jogo. Acho que todo mundo fez o seu dever. Os brasileiros e os italianos.

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