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Em entrevista ao iG, ex-jogador do Palmeiras e Grêmio, que assumiu a seleção paraguaia, já projeta um duelo contra os brasileiros

Arce já comandou o Paraguai em dois amistosos, as vitórias contra Panamá e Honduras
EFE
Arce já comandou o Paraguai em dois amistosos, as vitórias contra Panamá e Honduras
Desde o final de julho à frente da seleção paraguaia, Francisco Arce já tem o seu principal objetivo no novo trabalho: classificar o time para a Copa de 2014, no Brasil. Antes disso, o ex-lateral do Grêmio e do Palmeiras sonha com um amistoso contra a seleção brasileira para 2012.

“Tomara que isso aconteça. Já pedi para a federação tentar um amistoso no ano que vem”, revelou o técnico em entrevista ao iG . Motivos não faltam para o treinador querer o confronto. Nos últimos 10 anos, o Paraguai foi o rival que mais complicou a vida do Brasil na América do Sul . Foram quatro derrotas, quatro vitórias e três empates, incluindo o que eliminou a seleção, após cobranças de pênaltis, na Copa América deste ano.

Aos 40 anos e no segundo trabalho como treinador, Arce diz se inspirar em Luiz Felipe Scolari. “Foi o melhor técnico que eu tive”, declara. Com Felipão, foi campeão no Grêmio e Palmeiras.

No clube gaúcho, o paraguaio viveu também a maior desilusão na carreira, a derrota para o Ajax, nos pênaltis, na final do Mundial Interclubes em 1995. “Fiquei 16 anos sem conseguir ver aquele jogo. Só fui ver alguns lances outro dia porque meu filho me chamou no computador para mostrar. Ele tem 10 anos e queria saber se era eu mesmo. Aquela derrota foi a mais sofrida”, afirma.

Confira a entrevista com Arce:

iG: O Paraguai se tornou a maior pedra no sapato do Brasil na América do Sul. Como a seleção não vai jogar as eliminatórias, você pretende disputar algum amistoso contra os brasileiros?
Arce: Tomará que a gente possa jogar contra o Brasil. Seria ótimo jogar contra a melhor seleção do mundo. Ano que vem temos três datas para jogos amistosos. Já pedi para enfrentar o Brasil. Eu me ofereci para fazer contato, já que conheço algumas pessoas no Brasil, que podem ajudar no contato. Vamos ver se vai rolar. Ficou nas mãos do presidente da federação fazer esse contato. Quero muito enfrentar o Brasil. Acho que é o jeito de colher um pouco mais de qualidade, de avançar. Especialmente na questão técnica. Queremos dar um pouco mais de conjunto e o melhor é jogar contra times fortes. Devemos jogar, no ano que vem, com Grécia e com Espanha. Depois tem outra data que a gente quer aproveitar para tentar jogar com o Brasil.

Arce trabalhou com Felipão no Grêmio e no Palmeiras
Getty Images
Arce trabalhou com Felipão no Grêmio e no Palmeiras
iG: Como foi assumir a seleção paraguaia?
Arce: Voltei a um lugar que conheço bem e onde que sempre gostei de estar. Encontrei pessoas da minha época e até jogadores. Está sendo ótimo. Agora, estamos dando a nossa ideia. Tem sido um entendimento com jogadores. Fomos para o México para um jogo homenagem com o Cabañas e jogamos dois amistosos.

iG: No próximo mês começam as eliminatórias. Qual a sua expectativa?
Arce: Temos dois jogos difíceis, contra o Peru, no dia 7 de outubro, e o Uruguai, no dia 11. As eliminatórias são sempre complicadas. Ainda mais agora que dois, três times têm melhorado. Peru, Colômbia e Venezuela melhoraram. Nós estamos bem, com mentalidade firme de conseguir se classificar para a melhor Copa do Mundo de todos os tempos, disputada no Brasil, pertinho daqui. Já temos uma base importante de jogadores para isso.

iG: A ideia é manter a base da Copa América?
Arce: Sim, vamos manter bastante e estamos testando novos jogadores, também. Vamos fazer treinamentos dois dias por semana, segunda e terça. Jogadores que atuam no Paraguai trabalham com a gente até a estreia nas eliminatórias. São dois dias por semana. É uma situação nova, não dá para perder tempo. Eu conheço a situação aqui, por ter trabalhado de técnico em time e solicitamos isso aos clubes.

iG: O Paraguai ficou marcado por times que foram bem nas últimas eliminatórias e Copas sempre com um estilo de jogo mais defensivo. Você pretende manter essa característica?
Arce: Eu tenho um jeito de entender futebol e era como eu jogava: prático, rápido, de agilidade. Acho que devemos aliar isso à garra paraguaia. Já temos isso inato, incorporado no nascimento. Mas podemos trabalhar posse de bola, segurança no passe e tentar se adaptar a qualquer esquema do rival

Fiquei 16 anos sem conseguir ver aquele jogo (derrota do Grêmio para o Ajax no Mundial Interclubes). Aquela derrota foi a mais sofrida .


iG: Você trabalhou com alguns técnicos brasileiros. Em quem você se inspira no trabalho de treinador?
Arce:
Na realidade, minha maior inspiração é o Luiz Felipe, pelo jeito do trabalho e pela personalidade também. Sempre fui muito próximo dele. Tive muitos técnicos bons, mas o Luiz Felipe foi o melhor. O Markarián, atual técnico da seleção peruano, também é alguém com quem aprendi muito. Os dois têm estilos de trabalho muito sérios, na forma de viver a vida, na lealdade. Depois, em como enxergar o futebol e gostar do jogo, gosto também de treinadores como Carpegiani e o Luxemburgo. Mais meu maior espelho é o Luiz Felipe mesmo.

iG: E você tem o mesmo jeito dele no trabalho?
Arce: Não, não, sou um pouco mais calmo (risos).O Felipão é bem mais explosivo. Também tem horas que a gente não segura, mas eu sou mais calmo. Tenho temperamento forte, mas um pouco mais contido que o dele. Agora, os jogadores se acostumam rápido com ele. Não assusta quando alguém é tão direto e honesto como ele. A gente nota quando um técnico faz isso só para encher o saco, para chatear. É diferente quando se levanta voz para ajudar o time, para corrigir erros para melhorar. O Luiz Felipe sempre foi assim, desse jeito. Ele é muito preocupado com a igualdade no trato com o grupo, com todo mundo. A carreira dele sempre foi marcada por muitas conquistas.

iG: E como está vendo o atual time do Palmeiras? O Felipão ainda conseguiu repetir as conquistas de outros trabalhos. Por que você acha que isso ainda não aconteceu?
Arce: Acho que está sendo um bom trabalho. Eu vejo o time jogar. Bem do estilo dele, sem muitos nomes, consegue fazer o time jogar. Mais para frente ele deve dar mais uns títulos ao Palmeiras. Eu mantenho contato com o Luiz Felipe. Fui visitá-lo quando ele esteve em Portugual. Na época, eu tinha abandonado a carreira. Agora, neste ano, fui no Palmeiras. Falo bastante com o Galeano (ex-jogador e coordenador técnico do Palmeiras)

iG: O Alex chegou a afirmar em entrevistas que o time de 99, campeão da Libertadores, tinha alguns problemas de relacionamento fora de campo. Como conseguia jogar bem mesmo assim e vencer títulos?
Arce: Porque só tinha fera naquele elenco. E ninguém lembrava das diferenças dentro de campo, era tão alto o profissionalismo que isso não influenciava, qualquer dificuldade que tinha fora de campo. Porque também não é obrigatório você se dar bem fora de campo. Isso é muito difícil de acontecer, você precisar respeitar os companheiros. Eu tive sorte de ter muitos amigos, de me dar bem com a maioria dos jogadores. Continuo falando com Galeano, Agnaldo, Roque Júnior, Alex, Rogério, Marcos e outros companheiros daquele tempo.

iG: Você ganhou muito títulos na carreira, duas Libertadores, Copa do Brasil, mas teve algumas derrotas marcantes em finais. Duas finais no Mundial Interclubes, em 1995 com o Grêmio, e 1999 com o Palmeiras, além da queda na Copa de 1998 para a França. Qual foi a mais sofrida?
Arce: No grupo, de sentir a tristeza depois do jogo, foi a da Copa do Mundo, contra a França em 1998. Mas no aspecto pessoal, para mim, foi a derrota do Grêmio. A gente mereceu ganhar a disputa do Ajax, que era o bicho-papão da Europa. Ficamos 45 minutos com um a menos. No final, tivemos duas chances com o Jardel. Depois, eu perdi uma das cobranças de pênalti na decisão. Na realidade, eu não consegui ver o jogo ainda, passados 16 anos. Outro dia o meu filho me chamou porque ele estava no computador, vendo vídeos no youtube. Eu nunca tinha visto aqueles lances, mas como ele não me viu jogar, ele fica procurando coisas e me chama. Talvez um dia vou conseguir ver aquele jogo. Até hoje nunca vi inteiro. Esse jogo do Grêmio, especialmente, foi muito sofrido.

Tive muitos técnicos bons, mas o Luiz Felipe foi o melhor. Me espelho nele.

iG: Você pretende trabalhar como técnico em um clube do Brasil?
Arce: O caminho natural é um dia voltar para o Brasil. Mas quero primeiro ficar muito tempo na seleção, até depois de 2014. Estou trabalhando com as divisões de base. É algo que vamos precisar de muito tempo.

iG: Em agosto, você esteve no México num jogo em homenagem ao Cabañas. Como ele está? Você acha que ele poderá voltar a jogar futebol profissionalmente?
Arce: Estamos trazendo ele para a seleção, para o convívio com os amigos dele. Com os outros jogadores ele melhora mais rápido. Vamos ver como ele vai melhorando e quem sabe um dia volte a jogar de novo. O mais importante é que tenho uma vida normal, tranquila.

iG: O São Paulo contratou um lateral-direito paraguaio, o Piris. Você acha que ele pode dar certo no Brasil?
Arce: Sim, é o grande lateral neste momento do futebol paraguaio. Agora está sendo chamado à seleção. O futebol brasileiro vai ajudar ele no crescimento, principalmente para melhorar os fundamentos, já que vai enfrentar adversários mais fortes.

iG: Na última Copa, muitos jogadores reclamaram da bola, que era ruim, que atrapalhava em cobranças de falta. O que você acha disso?
Arce: Acho que é desculpa. Pode ser ruim para o goleiro, mas para um grande batedor isso pode ser até bom. Beneficia o chute do batedor. Ela muda de direção. Hoje em dia, acho que se reclama muito.

iG: Você jogou com o Marcos e com o Chilavert. Quem é melhor?
Arce: Os dois (risos). Marcos e Chilavert foram os melhores com que eu joguei, mas eles tinham uma defesa muito boa, né? A bola chegava pouco neles (risos). No Paraguai e no Palmeiras eles estavam protegidos. Mas, quando a bola chegava, eles eram sensacionais.

iG: Na segunda rodada das eliminatórias o Paraguai vai enfrentar o Uruguai. Pelo título na Copa América e a campanha no último Mundial, você acha que é o adversário mais forte da América do Sul?
Arce: Não vejo assim. Com ausência do Brasil, a Argentina é o mais difícil. Uruguai é páreo com a gente. Depende do dia, quem estiver melhor, mas dá para encarar com igualdade. Argentina tem mais qualidade individual. Uruguai tem mais conjunto com dois jogadores diferentes na frente, o Forlán e o Luis Suárez. No Mundo, Espanha está à frente de todo mundo pelo conjunto que tem.

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