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Futebol

22/10 - 07:40

Pelé: 70 anos de gols, títulos, conquistas e "causos"

iG revela histórias da vida do maior jogador de futebol de todos os tempos

Juan Polanco, especial para o iG

A história do Pelé tricampeão do mundo, do Pelé dos mais de mil gols, você provavelmente já conhece. Agora, o personagem completo do atleta mais famoso da história não se limita a isso. Ele próprio não esconde que é a somatória do sujeito Edson Arantes do Nascimento com o mito Pelé.

Ao longo de 70 anos, esse personagem protagonizou incontáveis episódios, anedotas e histórias – porque, claro, tudo que Pelé faz, de alguma forma, vira história. Mas alguns casos são emblemáticos dessa fusão entre homem e mito; casos que passaram a fazer parte da história do futebol, e não apenas de sua vida pessoal, mas que revelam muito sobre o que há de humano no semideus que Pelé se tornou.

O iG escolheu algumas dessas passagens que, no fundo, podem dizer mais sobre quem é o Rei do que a história oficial:

E era verdade
Aos nove anos, por mais que já adorasse futebol, Edson vivia o esporte como convém a uma criança: simplesmente jogava bola e pronto. Era 16 de julho de 1950, dia da final da Copa do Mundo entre Brasil e Uruguai, e Dondinho, o pai de Pelé, havia feito em Bauru o mesmo que tantos brasileiros: preparado uma festa para comemorar o inevitável título mundial.
 

Gazeta Press
Derrota para o Uruguai, em 1950, fez garoto Pelé prometer título ao pai

Pessoal reunido na sala, em volta do rádio, e a garotada, entre eles Pelé, corria de um lado para o outro - da sala para o quintal, do quintal para a rua. Numa dessas idas e vindas, Pelé encontrou a sala quieta e seu pai e os amigos todos às lágrimas. E perguntou: “Pai, por que o senhor está chorando?”. Dondinho explicou: porque o Brasil tinha acabado de perder a Copa. Pelé, então, com a praticidade para resolver problemas de quem tem nove anos, propôs: “Não chora, não. Eu vou ganhar uma Copa do Mundo para o senhor.” Só faltou Pelé dizer que aquilo não era só um consolo infantil. E que cumpriria o prometido dali a apenas oito anos. E que em seguida mudaria a história do futebol.

Olhar para frente é para os normais
Pelé ainda era garoto, mas já começava a ser fenômeno. Na disputa do II Campeonato Infanto-Juvenil de Futebol do Estado de São Paulo, em 1954, seu Bauru Atlético Clube – conhecido ternamente como Baquinho – saiu campeão, com 47 gols de Pelé em 33 jogos. Um desses 47 ficou famoso por ser supostamente seu primeiro gol de calcanhar: Pelé perdeu o ângulo, ficou de costas para as traves do adversário e, mesmo assim, não teve pudor de tocar para o gol.

O lance gerou assombro, sem dúvida, mas também um puxão de orelha de seu técnico e mentor Waldemar de Brito, sempre compreensivelmente preocupado em deixar os pés do talentoso menino no chão. “Certo, mas por que você não simplesmente se virou e olhou para o gol?”, o treinador perguntou. Ao que Pelé respondeu com a singeleza de quem é tão genial que nem percebe. “É que eu olhei para o nosso gol lá atrás, vi a posição das traves e imaginei onde ia estar o outro gol. Foi isso.” A discussão, segundo consta, acabou ali.

Rei não tem prioridade
Maior artilheiro da história do Santos atrás apenas de Pelé – que, segundo ele mesmo frisa, “não conta” -, o ponta-esquerda Pepe foi um dos símbolos da equipe que dominou o futebol do Brasil durante décadas, e um dos companheiros inseparáveis do Rei. Ele conta que, certa vez, voltando de uma excursão, o avião que levava a delegação santista aterrissou para uma escala, e todos os passageiros precisaram desembarcar, Pelé inclusive.

Não adiantou ser o rei do futebol, nem explicar o alvoroço que sua presença causaria no aeroporto. A comissária de bordo foi irredutível e obrigou todos a descerem. Aliás, todos menos um sujeito, e que não era Pelé!

Pepe contou essa última história para as câmeras da TV iG. Assista:

Entre sem bater
Perceba só o calor da fogueira em que se havia metido o atacante Amarildo. A seleção brasileira, então campeã do mundo, chegava à Copa de 1962, no Chile, como favoritíssima para repetir o título.

Depois de uma vitória por 2 a 0 na estreia sobre o México, a equipe empatou em 0 a 0 com a Tchecoslováquia. Pior: naquele jogo, Pelé sofreu uma das poucas lesões de sua carreira, certamente a mais dramática, uma distensão na virilha que o tiraria, no mínimo, do jogo seguinte diante da Espanha.

Os espanhóis tinham um timaço e, se vencessem, poderiam eliminar os brasileiros na primeira fase. Então, justo numa partida decisiva dessas, coube a Amarildo substituir quem àquela altura já era consagrado como o melhor jogador do mundo, Pelé.

AE
Substituto de Pelé 1962, Amarildo marcou gols decisivos na conquista do bi

Depois de sair atrás no placar no primeiro tempo, o Brasil virou aquele jogo, justamente com dois gols de Amarildo. O que deve ter dado uma pontinha de ciúmes em Pelé, cuja falta aparentemente não foi tão sentida assim, certo? Pergunte-se ao próprio Amarildo:

“Logo depois do jogo, eu estava tomando banho, e de repente o Pelé aparece e entra de roupa e tudo debaixo do chuveiro para me abraçar, emocionado. Imagina a satisfação que isso não me deu? Você vê que ele não jogou, mas que o pensamento estava no campo, torcendo para mim.”

Assinado, o Rei
Pelé, então, era isso: um companheiro gente fina. Mas não teria chegado longe como chegou se não tivesse um quê de malícia; não fosse algo folgado. Porque, afinal, se o maior jogador do mundo não tivesse alguma coisa de folgado, quem então ia ter? E mais: no geral, só o que Rei fazia era responder às incontáveis vezes em que os adversários tentavam tirá-lo do sério, fosse na base da pancada ou da provocação. Que foi a má ideia que tiveram os zagueiros vascaínos Brito e Fontana na partida diante do Santos pelo Torneio Rio-São Paulo de 1963.

É que parecia ser um dia em que nada poderia dar errado para o Vasco no Maracanã: a equipe abriu 2 a 0, e o fabuloso ataque do Santos – Pelé inclusive – não dava o menor sinal de conseguir incomodar. Então, a cada vez que a defesa dos cariocas ganhava uma jogada, Brito e Fontana gracejavam, chutavam a bola para longe para atrasar a reposição e trocavam galhofas em voz alta:

- Aí, Brito, disseram que tinha um rei dentro de campo. Você viu?
- Ué, por aqui não vi, não.
- Se ele aparecer, manda o meu alô para ele.

E tudo, na certa, devidamente acompanhado de um ou outro complemento impublicável para se referir a Pelé, que, quieto parecia engolir uma das poucas derrotas que o timaço do Santos sofria naquele tempo. Isso até os 42 minutos do segundo, quando o camisa 10 descontou o placar para 2 a 1. E um minuto depois, numa jogadaça individual bem no meio da dupla de zaga, marcou o gol de empate. Pelé foi até as redes, buscou a bola tranquilamente e levou-a até Fontana, há quem diga que com uma calculada pose monárquica:

- Olha, tá vendo isto aqui? Leva para a sua mãe de presente. Fala que foi o Rei que mandou.

Dor de cotovelo
Mas ninguém é mais habilitado do que o zagueiro uruguaio Dagoberto Fontes para falar da malícia, da picardia e da disposição de Pelé em não aguentar desaforo. E também da dureza do seu cotovelo. Foi na semifinal da Copa de 1970 entre Brasil e Uruguai, aquela que era encarada pelos brasileiros como a revanche do “Maracanazo” de 50.

Os uruguaios não tiveram pudor de parar a seleção, bem mais talentosa, com uma infinidade de faltas, algumas delas violentas. Pelé mesmo já havia levado uma tremenda pancada no tornozelo de Fontes no primeiro tempo. E não a esqueceu. Na segunda parte, quando o Brasil já havia virado o jogo, Pelé correu pela ponta com a bola dominada, com Fontes o perseguindo.

“Eu sabia que ele vinha para dar uma entrada dura, então eu não tive dúvida e o acertei forte com o cotovelo. Foi um golpe violento. E o juiz deu falta ao meu favor! Ele viu que o uruguaio estava chegando mal-intencionado”, argumenta Pelé, que ainda tenta conjeturar e salpicar um pouco de bondade na paulada que deve ter lhe dado tanto prazer de aplicar.

“Olha, ainda bem que eu só acertei a testa dele, porque se acerto a mandíbula ou o nariz, acho que eu quebrava. Eu lembro de pensar ‘Meu Deus! Meu cotovelo está doendo, imagine só a testa do Fontes...’”

Quando ele chorou
Nesse ano de 1970, Pelé já era não só o melhor jogador de futebol do mundo, mas havia adquirido quase todos os títulos e apostos que hoje o acompanham: rei do futebol, homem dos mil gols, maior de todos os tempos. Tinha 30 anos e, desde a adolescência, já havia passado por quase tudo o que é possível acontecer num campo de futebol. Era então, obviamente, um dos pilares da seleção que foi ao México para buscar o tricampeonato mundial.

O Brasil havia vencido suas cinco primeiras partidas jogando muita bola, e dia 21 de junho era a hora de disputar o título diante da Itália. Momento de decisão, desses em que um cara iluminado e já experiente como Pelé encara... chorando?

“No caminho para o estádio Azteca, eu estava sozinho num banco no fundo ônibus e de repente senti uma emoção incontrolável. Pensei na minha história toda e na frustração dos brasileiros quando perdemos a Copa de 1966. E chorei muito, me escondendo dos outros jogadores”, revelou o tricampeão mundial.

Quer dizer então que até Pelé já teve um colapso nervoso antes de um momento de enorme pressão? Pois sim, teve. Mas bastou entrar em campo para ele abrir o placar para a vitória de 4 a 1, em que jogou muito e se tornou o único atleta da história com três títulos mundiais. Aí a diferença entre o choro de uns e de outros.


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Pelé
Ex-jogador, tricampeão do mundo com a seleção, completa 70 anos neste sábado

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