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Futebol

17/08 - 12:16

Longe dos holofotes, Inter de Lages enfrenta seu calvário
Após dois anos fora dos gramados, clube que já foi campeão catarinense reinicia sua trajetória pela terceira divisão do estadual

Patrick Cruz, iG São Paulo

Neste domingo, quando o Fluminense ampliou sua liderança no Campeonato Brasileiro, quando o Corinthians ficou um pouco mais atrás nessa briga, quando São Paulo e Cruzeiro encerraram seu encontro com um empate por 2 a 2, um outro time celebrou, longe dos holofotes, o simples fato de existir. Menos notório que os gigantes da Série A, mas com décadas de história no futebol de Santa Catarina, o Internacional de Lages, um dos clubes mais longevos e tradicionais do estado, voltou aos gramados.
 
Não foi um retorno apoteótico, como os do cinema, porque um cineasta veria pouco apelo no regresso de um time que atualmente cumpre pena na divisão de acesso (a terceira divisão) do Campeonato Catarinense. Mas foi marcante em sua simplicidade: vitória por 1 a 0 contra o Oeste, de Chapecó. Autor do gol: João.
 
O Inter de Lages, fundado em 1949, foi campeão estadual no longínquo ano de 1965, teve dois vice-campeonatos, dois títulos da segunda divisão do estadual (em uma das ocasiões, com Kuki como artilheiro; o atacante saiu do Inter para se tornar um dos grandes ídolos da história do Náutico) e outros tantos momentos que não entraram para a história do futebol, mas que ainda hoje orgulham sua torcida: uma vitória contra a "Máquina Tricolor", com Rivelino e tudo, em 1978, o brilho de Andrade (ex-Flamengo) em seu meio-campo, em 1991, o lendário empate por 1 a 1 contra o Avaí, em 30 de maio de 1979, quando os jogadores disputaram a partida no Estádio Vidal Ramos Jr., em Lages, em um gramado absolutamente embranquecido pela neve.

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Equipe do Inter de Lages em 1991: destaque para Andrade, penúltimo em pé à direita


Para voltar à elite do Catarinense, o Inter – que disputou a segunda divisão do estadual em 2008, mas ficou fora das competições em 2009, justamente quando se tornou sexagenário – ainda precisa de dois acessos consecutivos. Em outras palavras: na melhor das hipóteses, apenas em 2012 ele poderá novamente medir forças com Avaí, Figueirense ou Criciúma.
 
Mas, neste momento, a sobrevida é mais relevante que os títulos. “O lugar do Internacional é na primeira divisão do estadual. Se, no futuro, for disputar o título ou brigar contra o rebaixamento, é circunstancial”, diz o advogado Maurício Neves de Jesus, torcedor do Inter e autor de “Aquelas Camisas Vermelhas”, título provisório do livro que contará a história do clube e será lançado ainda em 2010. “O Inter tem que pensar em sobreviver de modo digno”.
 
O Inter de Lages pode não ser célebre como seu primo rico do Rio Grande do Sul, que está próximo de conquistar a Libertadores, ou seu homônimo italiano, atual campeão da incensada Liga dos Campeões europeia, mas também move paixões. “Fazia 11 anos que eu sonhava em entrar neste estádio, usando essa camisa. Hoje é o dia”, disse, antes da partida, o lateral-direito Lucas Cebola, um dos destaques da vitória do time lageano neste domingo.

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Inter de Lages no Vidal Ramos Jr. lotado, para a final da Copa Santa Catarina de 1992

O entusiasmo não era exclusivo do jovem estreante. Cerca de duas mil pessoas assistiram ao jogo, um público que faria ótima figura na primeira divisão do estadual – e seria, na comparação com a segundona catarinense, a soma da audiência de todas as cinco partidas que compõem cada rodada. Os entusiastas até relevaram o atraso de 27 minutos para o início do jogo, ocorrido por um motivo prosaico: a demora para a chegada da ambulância ao estádio, obrigatória segundo o Estatuto do Torcedor.
 
“Dá pra ver nas ruas que a torcida está bem mais animada que em 2007, e isso mesmo sendo uma divisão inferior”, disse o treinador Sérgio Abreu, que naquele ano também treinou o Internacional, então na segunda divisão. “Acho que estavam com saudade do time”.
 
Nem todos puderam matar a saudade. Iran Yared, médico do clube durante anos e conhecido como um dos maiores torcedores do clube, faleceu quatro dias antes da partida de retorno do Inter aos gramados. “Nós éramos o time mais incrível do mundo, não, Zezé?”, relata um dos trechos do livro sobre o Inter de Lages, ainda inédito, sobre a conversa entre ele e José Carlos Susin, o Zezé, ponta-direita campeão estadual em 1965, ocorrida em um momento de inatividade do clube. “Acho que o mundo não ficou sabendo”, emendou Yared. “Azar o dele”. Agora, para torcedores que concordam com o falecido médico, o verbo ao menos não precisa mais ser conjugado no passado.

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Inter de Lages (de vermelho) reecontrou a torcida no último domingo, após dois anos


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