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Futebol

16/04 - 10:18

Racismo no futebol volta à tona, mas discriminação segue impune
Apesar da vasta história de atitudes preconceituosas entre jogadores e torcedores, nenhuma punição severa foi dada aos acusados. Relembre alguns casos

Mário André Monteiro, iG São Paulo

O jogo desta quinta-feira pela Copa do Brasil entre Palmeiras e Atlético-PR trouxe à tona uma polêmica que insiste em permanecer no futebol: o racismo. O zagueiro Manoel, do time paranaense, acusou o também zagueiro Danilo, do clube paulista, de chamá-lo de "macaco" em partida disputada no Palestra Itália.

"O Danilo cuspiu em mim e me chamou de macaco. Ser chamado de macaco é a pior coisa que tem", disse o jogador do Atlético, que pisou no rival durante o segundo tempo da partida como forma de revidar. "Realmente eu pisei nele, porque eu estava muito chateado e faria novamente. Confesso que eu pisei, porque ele me chamou de macaco", concluiu. Manoel foi a uma delegacia da capital paulista prestar queixa.

AE
Zagueiro Manoel deixa a delegacia após prestar queixa contra Danilo


A acusação, porém, não é novidade nos campos de futebol. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2006, justamente com o atual treinador do Palmeiras. Na época zagueiro do Juventude, Antônio Carlos foi acusado pelo gremista Jeovânio de racismo em uma partida entre as duas equipes pelo Gauchão.

Antônio Carlos foi expulso por acertar uma cotovelada no volante e deixou o gramado do Alfredo Jaconi fazendo gestos de passagem dos dedos nos dois antebraços, dando a entender que se referia à cor de pele de Jeovânio. "Não sou racista e nunca fui racista. Eu estava de cabeça quente. Falei um monte de coisa, mas não lembro exatamente o quê. Peço desculpas", disse o ex-zagueiro na ocasião.

Após a partida, Jeovânio e então presidente do Grêmio, Paulo Odone Ribeiro, foram até o Ministério Público do Rio Grande do Sul para relatar o fato, mas o caso acabou sendo arquivado.

A casa do Juventude ainda foi palco de outra manifestação preconceituosa. O volante Tinga, do Internacional, a cada vez que pegava na bola em um jogo pelo Brasileirão, ouvia grande parte da torcida alviverde imitar um macaco. O árbitro Alicio Pena Júnior chegou a interromper o jogo e solicitar que a diretoria do clube da Serra Gaúcha tomasse providências. "Nunca tinha visto algo parecido", comentou o juiz. O Juventude acabou sofrendo uma multa de R$ 200 mil e perdeu o mando de campo em dois jogos.

Gazeta Press
Imagens da TV mostram Antônio Carlos fazendo gestos em seu braço


Grafite x Desábato

O atacante brasileiro Grafite, que defendeu as cores do São Paulo na Copa Libertadores de 2005, também acusou o zagueiro argentino Desábato, na época do Quilmes, de preconceito racial em uma partida realizada no estádio do Morumbi.

Ainda no gramado de jogo, após o término da partida, Desábato recebeu voz de prisão e ficou dois dias preso em São Paulo acusado de injúria com agravante de racismo depois de ter insultado o atacante. Depos pagar uma fiança de R$ 10 mil, o defensor foi solto, retornou a Buenos Aires, comprometendo-se a voltar ao Brasil nos atos do processo. Grafite, porém, retirou a acusação.


Maxi López x Elicarlos

Também pela Libertadores, mas na edição de 2009, o duelo brasileiro entre Grêmio e Cruzeiro foi marcado por mais uma acusação de racismo. Elicarlos, volante do time mineiro, disse que o atacante Máxi Lopez, dos gaúchos, o chamou de "macaco".

Em consequência da acusação, policiais cercaram o ônibus do Grêmio no final do jogo com o objetivo de tomar o depoimento do atacante argentino. Isso foi feito ainda no Mineirão, palco da partida, e o jogador deixou a delegacia de madrugada, sem dar declarações.

No jogo da volta, realizado em Porto Alegre, quando Elicarlos se preparou para entrar no decorrer do segundo tempo, a torcida gremista que lotou o estádio Olímpico começou a imitar sons de macaco. A falta de respeito perdurou até o fim do jogo sempre que o jogador recebia uma bola.

EFE
Maxi López e Elicarlos durante o duelo entre Grêmio e Cruzeiro na Libertadores


Na Europa

Em 2006, torcedores do Zaragoza insultaram o atacante Samuel Eto'o, do Barcelona, durante uma partida do Campeonato Espanhol, e o árbitro chegou a interromper o jogo para alertar os torcedores sobre os xingamentos racistas. Como a conduta da torcida persistiu, o atacante camaronês ameaçou deixar o gramado, mas os jogadores o convenceram a continuar em campo.

A Federação Espanhola aplicou uma multa de 9 mil euros ao Zaragoza. O clube, por sua vez, abriu investigação para tentar identificar os torcedores autores do insulto e ainda divulgou uma nota na qual condenava qualquer manifestação de preconceito e xenofobia.  

No mesmo ano de 2006, às vésperas da Copa do Mundo, o atacante alemão Gerald Asamoah, que é de origem ganesa, foi vítima de uma campanha difamatória por parte de um grupo de torcedores germânicos. A organização espalhava cartazes por Berlim com os dizeres "Não Chita, você não é Alemanha. Você é um macaco” e com a imagem de um chimpanzé. Asamoah foi o primeiro jogador negro a ser convocado para seleção da Alemanha.

AP

Brasileiro Álvaro, do Zaragoza, tenta convencer Eto'o a ficar em campo


Punições

Apesar de promover há algum tempo um combate intenso contra o racismo, a Fifa pouco conseguiu fazer fora e dentro do âmbito esportivo. As diversas campanhas realizadas pela entidade não surtiram o efeito desejado e os casos de discriminação seguem impunes. Apenas algumas multas são aplicadas.

Apesar da grande quantidade de acusações racistas no futebol, poucas atitudes foram tomadas fora da esfera esportiva. Não houve qualquer condenação pelo crime inafiançavel.

Roma e Lazio já tiveram que desembolsar dinheiro por cânticos racistas de seus torcedores. A primeira teve que pagar 25 mil euros à Federação Italiana, enquanto a rival da capital foi punida com multa de 15 mil euros. Mais recentemente, Juventus e Cagliari também receberam multas pelo comportamento de seus torcedores. Em Portugal, o jogador que praticar ato racista em campo verá seu clube jogar com portões fechados.

No final de 2009, o zagueiro argentino Héctor Gaitán, que atua no Oriente Petrolero, da Bolívia, foi suspenso por cinco partidas e multado em cerca de 15 mil dólares por ter ofendido o jogador Alejandro Gómez, do Blooming.


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AP

Desábato

Desábato
Zagueiro argentino teve voz de prisão decretada dentro de campo após ofender o atacante Grafite

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