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Futebol

27/01 - 08:16

De olho na molecada, olheiros invadem campeonatos de base

De prancheta e celular nas mãos, empresários e observadores de clubes garimpam jovens talentos nas competições sub-18 e sub-20. Em alguns jogos da Copa São Paulo havia mais olheiros do que torcedores

Marcelo Monteiro, iG São Paulo

Rola a bola para Juventude x CFZ, no acanhado estádio Nicolau Alayon, pelas quartas-de-final da Copa São Paulo de futebol sub-18. Sem grandes clubes envolvidos, o jogo atrai menos de 200 torcedores, em uma abafada tarde de janeiro, na capital paulista. Das arquibancadas, saem alguns poucos gritos de incentivo para os dois times. Enquanto meia dúzia de jovens da delegação brasiliense tenta empurrar o CFZ, três torcedores do Juventude – dois deles, pais de garotos que estão em campo – orientam à distância os guris que brigam pela vaga nas semifinais. E é só.

A maioria dos presentes não está preocupada com quem irá enfrentar o São Paulo na próxima fase do torneio. Celulares, pranchetas e fichas de atletas em punhos, dezenas de empresários e olheiros – ou observadores técnicos, como se intitulam – representam clubes como Parma (Itália), Ajax (Holanda), Chelsea (Inglaterra) e São Paulo, só para citar alguns. Atentos, com copos de água ou refrigerante nas mãos, eles assistem à partida como se estivessem em um arremate rural. Durante o jogo, cochicham com assessores e trocam impressões sobre a estrutura e os dotes técnicos dos jovens para, no final – no caso dos melhores –, arriscar um lance e tentar levá-los para seus rebanhos.

A cada ano, esta rotina se repete nas principais competições do futebol de base no País. O calendário dos olheiros inclui a Taça Belo Horizonte de Futebol Júnior, que acontece no meio do ano, na capital mineira, o Campeonato Brasileiro Sub-20, disputado em dezembro, no Rio Grande do Sul, e, principalmente, a Copa São Paulo, em janeiro, em várias cidades paulistas.

Em campo, enquanto tentam avançar com seus times, os jovens buscam atrair a atenção dos pares de olhos clínicos que os observam das cadeiras. Mesmo que a maior parte dos moleques já tenha empresário, ninguém esconde o desejo de ser contatado por algum grande clube do Brasil ou da Europa. "Gostaria de jogar no Flamengo, que sempre foi o meu clube do coração", revela o atacante Samuel Dias, do Paulista, enquanto circula entre a torcida, no Estádio Municipal Bruno Lazzarini, em Leme (SP), no intervalo do jogo com o Santos, ao lado do lateral-esquerdo Marcos Vinícius. Suspenso, "Samuca" – como é chamado – ficou de fora a partida, assim como o colega, que estava lesionado.

Marcelo Monteiro
Jogo Juventude x CFZ, pela Copinha: mais olheiros do que torcedores nas cadeiras

Mãos na cintura, nem pensar

Muitos garotos mostram boa técnica, outros têm ótima estatura e alguns exibem boa visão de jogo, mas, segundo os observadores profissionais ouvidos pelo iG Esporte, o principal requisito  é outro: "A paixão é o principal", garante Hans Van de Zee, do Ajax. "A observação começa com a paixão e depois, a parte técnica, o talento", explica o olheiro, para quem o conceito de paixão inclui a dedicação e o empenho totais dos atletas durante um jogo de futebol.

O observador técnico Sérgio Guerrero, do São Paulo, concorda com o colega holandês sobre a importância do jogador se doar ao máximo em favor da equipe. "De um modo geral, o jogador tem que ter muita garra, muita determinação. Sem ela, ele não vai a lugar nenhum", afirma o profissional, que atua no Centro de Formação de Atletas do Tricolor, em Cotia. "Jogador que põe a mão na cintura, a gente pensa duas, três, quatro vezes antes de oferecer alguma situação pra ele".

De acordo com Guerrero, a tranquilidade extrema por vezes pode confundir-se com a apatia, o que contribui para que o atleta acabe passando uma imagem negativa para quem o está observando. "Jogador tem que ter dinâmica de jogo. Quando está muito marcado, tem que sair da posição dele e armar uma outra situação para um companheiro, abrir espaço para o time", ensina.

Além da própria concorrência com os outros 21 atletas (ou 19, considerando somente os de linha), quando há observadores assistindo à partida, os garotos também lutam contra o tempo. Isso, segundo Guerrero, é uma razão extra para que os meninos dediquem-se ainda mais durante o jogo. "Dentro de campo, ele tem que dar o máximo que pode, porque são só 90 minutos, e que na realidade não chegam a 90 minutos de bola rolando, chegam no máximo a 47 ou 48. Então, ele tem que dar o melhor de si."

AE
Para olheiro do São Paulo, campeão da Copinha, jovens precisam de muita dedicação

Eficiência e produtividade em primeiro lugar

Apesar da ênfase dos observadores no quesito dedicação, é claro que a questão técnica ainda tem grande relevância para os clubes que buscam promessas nas categorias de base. "A primeira vez que a gente vê um jogador, analisa as características dele. Eu, particularmente, avalio muito quando ele recebe a bola e o que ele faz a partir disso. Se ele para, pensa, olha para os lados", explica o observador são-paulino. "O jogador inteligente, diferenciado, é aquele que, quando pega a bola, já sabe o que fazer."

Já Hans Van de Zee afirma que a objetividade e a competência técnicas são essenciais para um jogador, qualquer que seja a posição em que atua. "O atacante tem que fazer gol, o zagueiro tem que marcar, cada um tem que fazer bem o seu papel", explica o observador do Ajax. "É preciso ser eficiente e produtivo, seja qual for a posição."

Segundo o olheiro holandês, para fisgar a atenção dos profissionais da observação técnica os jovens atletas têm que ser objetivos. "Se um ala tem possibilidade de cruzar, mas puxa a bola para driblar mais uma vez, ele está fazendo a jogada errada", orienta.

De acordo com Sergio Guerrero, a observação dos atletas também se baseia em critérios e características específicos para cada posição. "É um contexto geral, que depende da posição", explica o olheiro do Tricolor, campeão da Copinha em 2010. "Você pega um lateral que sabe ser ofensivo e defensivo, vê o posicionamento dele, se vai e tem reação de volta. Isso chama muito a atenção. O mesmo vale para um volante que sabe marcar e sair para o jogo, um atacante que se desloca e cai pelos lados e é bom no cabeceio, o que é muito importante. Entre os zagueiros, hoje se destacam os mais rápidos."

Por fim, uma questão que aflige os atletas franzinos, desde os tempos de Zico: atletas com pouca estrutura física têm chances de serem selecionados? "Tem como resolver isso", diz Sérgio Guerrero. "Não vou atrás daquele atleta muito forte, porque já está definido. Procuro um cara que tenha articulação e movimentação, que a gente veja um futuro para ele lá na frente. Se ele estiver maturado já fica difícil trazer o jogador. Por isso, procuramos atletas que a gente possa trabalhar esse aspecto", conclui.

Como se destacar na multidão

O que fazer e o que não fazer para ter chances de ser “visto” por um olheiro:

• Demonstre garra e empenho totais durante a partida. Geralmente, o tempo de observação é pequeno. Por isso, é preciso fazê-lo render positivamente

• Procure ter iniciativa e dinâmica. Chame a responsabilidade do jogo

• Ao receber a bola, não se precipite. Pense o que fazer com ela. Mas não demore demais, para não ficar sem ela

• Não se abata com a marcação forte. Se ela for implacável, tente atrair a atenção dos marcadores, abrindo espaço para os companheiros

• Em posições que requerem movimentos ofensivos e defensivos, como alas e volantes, esteja sempre preparado e disposto a voltar rapidamente para interceptar um contra-ataque adversário

• Seja efetivo. O que importa é o resultado de sua jogada. Não adianta driblar cinco adversários e perder a bola para o sexto – é preferível driblar dois e arriscar o chute ou deixar o companheiro livre para marcar

Marcelo Monteiro
O jovem zagueiro Bressan, do Juventude, em ação: aposta no pai-empresário

"Não confio nesses caras", diz o pai de zagueiro revelação

Nem sempre é preciso de um empresário ou de um olheiro de clube para se chegar ao futebol profissional. Com 17 anos recém-completados em 15 de janeiro, o zagueiro Matheus Bressanelli, o Bressan, do Juventude, ainda tem idade para duas Copas São Paulo. Mas logo na primeira que disputou teve desempenho tão positivo que acabou realizando um sonho de infância: de volta a Caxias, foi promovido para o elenco profissional, junto com os colegas Follmann (goleiro), Goiano (volante) e Hiago (meia).

Bressan começou a jogar futsal aos seis anos. Aos nove, entrou para a escolinha do Ju. Em 2009, assinou o primeiro contrato com o clube. Mas segue sem empresário. Quem cuida dos negócios é o próprio pai, Dorivaldo Bressanelli, um dos três torcedores do Ju que assistiram ao jogo com o CFZ. "Tem vários empresários que procuram, mas não confio muito nesses caras. Ainda não encontrei alguém em quem pudesse confiar. Esses caras são muito oportunistas", diz Dorivaldo. "Além do mais, eu moro na mesma cidade e esses guris, nessa idade, precisam ter alguém por perto."

Pai dedicado, o representante de vendas de uma empresa caxiense é também um "empresário" atento e torcedor assíduo nos jogos do filho. Nas oitavas-de-final da Copinha, pegou um voo às 7h, de Caxias do Sul até Campinas. Depois, alugou um carro e seguiu até Araraquara, onde à tarde o Juventude eliminaria o Corinthians. No mesmo dia, voltou para Campinas e, em seguida, para Caxias. Três dias depois, estava novamente em São Paulo, desta vez na capital, para ver o duelo com o CFZ. "Tirei folga hoje, né? Meu chefe é camarada, gosta de futebol também."

Ex-fixo no futsal e ex-beque no futebol de campo, o pai-empresário também dá dicas técnicas ao filho. "Zagueiro não pode entrar correndo", ensina ao garoto, que considera – corujismo à parte – um jogador de futuro. "É um zagueiro de qualidade, que sabe sair jogando", define o pai. "Ele costuma cercar. Não é de chegar no corpo do atacante".

Despreocupado em se mostrar para os olhos clínicos das arquibancadas, Matheus queria apenas agradar ao pai-empresário. Acabou tendo uma atuação de gala, que culminou com o gol decisivo na cobrança de pênaltis contra o CFZ. "A gente sonha em jogar em um time grande, mas tem que ter sempre uma pessoa de confiança do nosso lado, que nos orientes para o bem. E o meu pai é essa pessoa", diz o guri.

Fã do zagueiro Lúcio, da Internazionale, Bressan agradeceu à presença e creditou o sucesso no começo de carreira ao acompanhamento do pai. "Ele diz pra eu não pensar nesse negócio extracampo, de empresário, pra não me iludir, que é pra fazer o que eu sei fazer, que o resto virá ao natural", diz o jovem, cuja atuação deixou Dorivaldo radiante. "Bah, o guri jogou como gente grande", comentou, após o jogo.

Marcelo Monteiro
Dorivaldo cumprimenta o filho: "Bah, o guri jogou como gente grande"


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Marcelo Monteiro

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