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Futebol

22/10 - 18:08

Portugal x Bósnia: Respeito é uma coisa, medo outra
Portugal não deve temer Bósnia-Herzegovina na repescagem para a Copa; basta apenas que não menospreze o adversário

Trivela.com

SÃO PAULO - Como o leitor já há de saber, Portugal defrontará a Bósnia-Herzegovina na repescagem européia das eliminatórias para a Copa de 2010. O sorteio da FIFA, feito no último dia 19 de outubro, poderia ter sido mais cruel para os Tugas, caso ditasse a Ucrânia ou a Irlanda como seus adversários.

Mas há quem ache o contrário. Alguns entendidos de futebol europeu vêem com a tese de que a Bósnia é perigosíssima, por força do ataque arrasador – em que despontam artilheiros que militam no futebol alemão. Alguns amigos brasileiros, por outro lado, já me felicitaram por achar que Portugal passa fácil pelos bósnios.

Nem tanto ao mar, nem tanto aos Bálcãs. Na coluna da semana passada, afirmei que Bósnia e Eslovênia seriam as seleções mais acessíveis para Portugal, e continuo com a mesma opinião. Por uma simples razão: essas duas seleções exibem um futebol técnico e ofensivo que se assemelha muito à tradição do futebol português, que nunca primou pelo rigor defensivo. A Irlanda, pelo contrário, oferece a antítese do futebol luso, com muito rigor defensivo, excesso de jogadas aéreas e uma maior “pegada” nas disputas de bola. É exatamente o tipo de adversário que irrita facilmente jogadores latinos. Já a Ucrânia, pela qualidade do conjunto, parece-me a mais forte das quatro equipes que poderiam calhar a Portugal.

Portanto, excetuando-se a Eslovênia (a seleção menos forte da repescagem européia), a Bósnia é um adversário que não pode tirar o sono dos portugueses. Sim, seu ataque pode ser arrasador, mas sua defesa também mostra grandes vulnerabilidades. Até aí, temos um cenário semelhante ao da seleção lusa. Assim, por que Portugal seguiria como favorito nesse embate?

Simplesmente porque os Tugas contam com jogadores muito mais experientes no cenário do futebol europeu – jogadores habituados a campeonatos disputados e a jogos decisivos, algo que pode fazer a diferença neste momento. Basta referirmos que Cristiano Ronaldo, Deco, Ricardo Carvalho, Nani e Bosingwa, entre outros, têm participado das finais ou das semifinais da Liga dos Campeões nos últimos anos. Grande parte do elenco, aliás, disputou a última Eurocopa e o último Mundial.

Portugal não terá moleza nas duas partidas com os bósnios. Mas para a seleção dos Bálcãs, talvez fosse preferível que, no sorteio, lhes tivesse caído a Rússia ou a Grécia. A Bósnia teme a seleção de Portugal, mais do que os portugueses devem temer seu adversário. Portanto, a chave desse encontro deverá ser o respeito e a autoconfiança. Portugal não pode subestimar seu oponente, pelo simples fato de ele ser um “emergente” europeu. Mas Portugal não pode, tampouco, acovardar-se diante de um adversário desse porte. Senão, o que farão os Tugas quando tiverem uma Inglaterra ou uma Itália pela frente? Não menosprezar a Bósnia e jogar a sério no Estádio da Luz, no dia 14 de novembro, é o principal passo para chegar à Copa da África do Sul.

Portugal: o principal adversário para a Copa de 2018
Na última terça-feira (20 de outubro), as Federações de Futebol de Espanha e de Portugal entregaram à FIFA um dossiê com a candidatura em conjunto dos dois países para organizar a Copa do Mundo de 2018 ou a de 2022. A meu ver, trata-se de uma oportunidade ímpar para que a Península Ibérica potencialize ainda mais suas infra-estruturas futebolísticas e de serviços.

E sejamos racionais: os encargos exigidos pela FIFA ultimamente impedem que Portugal encabece uma candidatura única, já que os investimentos necessários estão além do que o país pode oferecer. Será que os portugueses conseguem engolir um parceiro que, ao mesmo tempo, é seu maior rival histórico?

A despeito de saber que ficará com a Espanha a decisão do torneio, vejo com bons olhos uma parceria com os espanhóis. Não dá para ser diferente, diante da diferença territorial e populacional dos dois países – para não falar do abismo entre os PIBs de um e de outro. Japão e Coréia do Sul, que também possuem rivalidades históricas, organizaram um belo Mundial em 2002. Portugal e Espanha podem fazer o mesmo, com a vantagem de terem seleções bem mais competitivas do que os asiáticos. O que não pode atrapalhar é a ciumeira lusitana diante do maior poderio que está do outro lado da fronteira.

Passado esse primeiro obstáculo (convencer os portugueses da necessidade de se aliar aos espanhóis para a realização a Copa), há ainda outro: fazer com que o país se entenda e não exponha ao mundo alguns conflitos internos. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Gilberto Madaíl, já começou mal nessa tarefa, ao dizer que Portugal teria “apenas” três estádios a oferecer para a Copa: o do Dragão (na cidade do Porto), mais o da Luz e o de Alvalade (ambos em Lisboa). De fato, é muito pouco, se considerarmos que o país aprontou dez estádios para a Eurocopa de 2004. O problema é que, tirando os três estádios já citados, os outros sete da Eurocopa não têm mais do que 30 mil lugares de capacidade – e a Fifa exige recintos com ao menos 42 mil assentos para os jogos da fase grupos.

O argumento de que Portugal deveria preocupar-se com outras coisas, já que teria carências mais urgentes nas áreas de saúde e educação, por exemplo, é falho. Os investimentos que esses eventos acabam por alavancar dificilmente seriam alocados naquelas áreas. Além disso, a economia que um evento como a Copa do Mundo gera é extremamente benéfica para as receitas do Estado e da iniciativa privada. O grande dilema em Portugal, agora, é saber como aumentar o número de estádios para esse Mundial ibérico. Os responsáveis pelo Estádio do Algarve (subaproveitado desde a Eurocopa) e pelo AXA (do Braga) já se mostraram interessados em participar da Copa. Precisarão realizar reformas difíceis e complicadas para aumentar sua capacidade. Tal qual se discute no Brasil, cabe a pergunta: quem pagará a conta?

Golo de Letra
Quando, girando e rodando, de oriente para ocidente, meia-volta perfeita foi completada, a península começou a cair. Nesse preciso instante, e em sentido absolutamente rigoroso, se podem as metáforas, como transportadoras do literal sentido, ser rigorosas, Portugal e Espanha foram dois países de pernas para o ar.

(José Saramago, em trecho do romance Jangada de Pedra)


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