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Futebol

22/09 - 11:05

Stoichkov elogia Romário, critica Ronaldo e capricha nos palavrões

Em entrevista exclusiva ao iG Esporte, ex-ídolo do Barça revela mágoa pela ida de Ronaldo ao Real, diz que Romário foi o melhor da história do Brasil e xinga jornalistas e o árbitro da semifinal da Copa de 94

Levi Guimarães, enviado especial iG Esporte

PRETORIA (África do Sul) - Polêmico. O adjetivo continua servindo bem para definir o ex-atacante Hristo Stoichkov, ídolo nos anos 90 tanto do Barcelona como da seleção búlgara, quarta colocada na Copa do Mundo de 1994. Aos 43 anos, o agora treinador do Mamelodi Sundowns, time mais vitorioso da história do futebol sul-africano, continua com a língua afiada, seja ao falar da relação com a imprensa (tanto na Bulgária quanto na África do Sul) ou ao relembrar momentos marcantes da carreira como jogador.

Stoichkov recebeu a reportagem do iG Esporte na última segunda-feira, logo após treino da equipe no centro de treinamentos no bairro de Chloorkop, na periferia de Pretoria, capital administrativa da África do Sul. Ao ver uma filmadora, vem o primeiro sinal da postura que lhe deu fama de grosseiro, principalmente com a imprensa. “No camera, no camera”, exige em um inglês carregado de sotaque.

Durante os 27 minutos de entrevista, no entanto, a postura é diferente. Falando em inglês, mas misturando algumas palavras de espanhol e catalão em muitos momentos, ele chega a mostrar bom humor, mesmo ao fazer críticas, como quando afirma que “a imprensa [sul-africana] não entende nada de futebol. São capazes de confundir a bola com uma melancia”.

Ele dá seus palpites para a Copa de 2010, mas sem arriscar muito. A não ser ao garantir a presença da Argentina no Mundial. “Espanha é favorita, Brasil é favorito, Inglaterra é favorita, até a Argentina. Estão com problemas, mas tenho certeza que vão vencer os dois jogos que faltam. 100% de certeza. E aí, todo mundo que chegar à Copa é favorito”, diz.

Artilheiro da Copa de 94 com seis gols, Stoichkov revela uma ferida aberta. A desclassificação da seleção búlgara contra a Itália nas semifinais, quando o árbitro francês Joel Quiniou teria deixado de marcar dois gols a favor da Bulgária. Ao relembrar a partida, não faltam inclusive palavrões do ex-jogador para falar do juiz.

Essa revolta com a eliminação em 94 contrasta com os comentários sobre outra derrota, em 1992, na final do Mundial Interclues contra o São Paulo, em Tóquio. “Nesse jogo fiz um dos gols mais bonitos da minha vida, mas eles jogaram muito bem nos minutos finais do primeiro tempo e do segundo e conseguiram vencer. Mas é algo que faz parte do futebol”, explica.

Ele ainda relembra os jogadores brasileiros com quem atuou no Barcelona. Rivaldo, Ronaldo, Sonny Anderson, Giovani e, principalmente, a amizade e a admiração por Romário, que para ele é muito, muito melhor do que Ronaldo. E ao comentar a (falta de) relação com a imprensa de seu país, ele volta ao discurso polêmico. E ao tom de quem reconhece em si mesmo um dos maiores jogadores de futebol da história.

“Os jornalistas da Bulgária pra mim nem existiriam. Tenho quatro ou cinco grandes amigos jornalistas, mas o resto está sempre falando coisa negativa. Nunca positiva. Pra mim esses caras são merda. Eles que continuem vivendo na Bulgária, nas suas vilas. Eu vivo no mundo, vou ao Brasil, Argentina, Itália. Eu sou Hristo Stoichkov, e esses caras...”

As reticências, no fim da frase, não deixam dúvida a respeito da opinião do agora treinador sobre alguns de seus compatriotas.

Confira abaixo a entrevista completa com o ex-craque e atual treinador:

Relembrando alguns momentos da sua carreira como jogador. Você atuou ao lado de alguns brasileiros no Barcelona...
O melhor de todos era o Romário. Melhor que qualquer outro.

Melhor que Ronaldo?
Muito, muito, muito melhor. O melhor jogador do Brasil na história.

Na história?
Pra mim sim. Jogamos dois anos juntos no Barcelona. Pra mim ele era o melhor dentro da área. E também sempre tive uma boa relação com ele, com os filhos, com a ex-mulher Mônica. Então, pra mim o Romário era o melhor amigo, o melhor profissional, o melhor camisa 9 na área. Muito melhor que qualquer outro. Joguei com Rivaldo, Ronaldo, Giovanni, Sonny Anderson e outros jogadores. Mas tudo é diferente. Rivaldo era um dos melhores meias do mundo. Ronaldo, duas vezes o melhor jogador do mundo. Romário, campeão do mundo. Depois do Pelé foi quem mais marcou gols na história do Brasil. Sonny Anderson, um dos melhores atacantes do futebol francês, também jogou alguns anos no Barcelona. E Giovanni... Então, muitos brasileiros fizeram parte da minha história no Barcelona, mas o top dos tops foi Romário.

Você conseguiu acompanhar alguma coisa em relação ao Ronaldo nos últimos tempos? Da nova fase dele, agora no Corinthians?
Não. Mas ouça... Depois da lesão que ele teve... É muito difícil pra um jogador voltar e ser o número um. O Barcelona apoiou ele durante um ano. Mas depois disso ele foi pro Real Madrid. Para as pessoas em Barcelona isso foi muito ruim. Então, pra mim é um pouco diferente. Às vezes nos encontramos e conversamos, mas pra mim machuca muito alguém deixar o Barcelona pra ir jogar no Real.

Arquivo
Zubizarreta, Guardiola, Nadal, Koeman, Stoichkov, Begiristain; Bakero, Amor, Sergi, Ferrer, Romário

Você criou uma verdadeira relação de amor com o Barcelona...
Eu vivi 20 anos em Barcelona. Então, pra mim a Catalunha é boa. Ainda tenho muitos amigos lá, parte da minha família mora lá. Pra mim, Barcelona é uma das melhores cidades do mundo. Os melhores amigos continuam sendo de lá. Na Bulgária é diferente, tem muita inveja, muita coisa negativa, a imprensa sempre escrevendo merda. Os jornalistas da Bulgária pra mim nem existiriam. Tenho quatro ou cinco grandes amigos jornalistas, mas o resto está sempre falando coisa negativa. Nunca positiva. Pra mim esses caras são merda. Eles que continuem vivendo na Bulgária, nas suas vilas. Eu vivo no mundo, vou ao Brasil, Argentina, Itália. Eu sou Hristo Stoichkov e esses caras...

Você sente que tem mais respeito fora do seu país, fora da Bulgária?
Absolutamente. Os jornalistas da Bulgária não respeitam ninguém. Não só no futebol, em todos os esportes. Esse é o motivo pelo qual eu não falo mais com a imprensa de lá. Em 94, o nosso time jogou um belo futebol nos Estados Unidos e era todo dia “time de merda” e coisas do tipo. Eu marquei seis gols na Copa do Mundo e eles diziam “ah, normal...”.

Falando em 94, a Bulgária foi uma surpresa naquela Copa...
Surpresa? Surpresa nada... Foi o trabalho. Porque todo mundo se dedicava, todo mundo honrava a camisa, todos se orgulhavam de jogar pelo país. Todo mundo tinha responsabilidade dentro e fora do campo, cada um dava 100% do que podia.

Mas talvez uma surpresa pra quem olhava de fora?
A Bulgária era muito melhor que a Alemanha, muito melhor que a Argentina, que a França, que o México, que a Grécia.

Então pra vocês a surpresa foi não ter ido ainda mais longe, chegar na final ou até vencer a Copa?
Sim, mas lembre: o presidente da Fifa era o [João] Havelange. Brasil e Itália não jogavam a final há 24 anos. Essa é a razão pela qual a Bulgária não foi pra final. Todo o mundo assistiu ao jogo Bulgária e Itália, não? Houve dois pênaltis... 100% pênalti. Mas aquele filho da p... daquele juiz francês... Eu me lembro como se fosse hoje, tentei argumentar com esse merda. Merda! Francês de merda... Não consigo ver nenhuma razão pra ele não ter marcado os pênaltis. E pra não dar um cartão vermelho para o Costacurta. Só porque era a Itália. Qual a diferença entre Bulgária e Itália, Brasil e Argentina? Ele era um profissional, um árbitro profissional numa semifinal de Copa do Mundo. Mas pra mim é um merda, vai ser sempre. Tenho muitos bons amigos franceses, Michel Platini, vários... Mas esse cara pra mim quebrou a mentalidade do povo francês. Um cara de merda, Joel Quiniou.

Foi o pior momento da sua carreira?
Foi muito difícil. Porque foi uma decepção para o meu país. A Bulgária tem 5 milhões, 10 milhões de habitantes, não sei exatamente. A França tem 40 ou 60 milhões. A Itália também é muito maior. Tem muito mais publicidade, interesses comerciais, mais dinheiro. Mas não importa. Não havia razão.

AP
Defendendo a Bulgária na Eurocopa de 1996, em partida contra a França, de Marcel Desailly

O principal período da sua carreira foi na Espanha, mas você também atuou em outros países...
Japão, Itália, Arábia Saudita, Estados Unidos.

Só não jogou na América do Sul, África e Oceania.
Em três continentes, ganhei as três Copas de clubes. Quantas pessoas jogam em três continentes e ganham três Copas? Eu não sei...

E agora você está trabalhando como técnico na África. Com essa experiência, como você vê a preparação para a Copa? Do país e da seleção sul-africana.
Eu não sei se a Federação está preparada. Todos os dias eles parecem estar brigando aqui na África do Sul. O presidente briga com os diretores, cada dia por uma coisa diferente. Mas o Blatter não é louco. Ele observa tudo que acontece aqui. Mas eu acho que fora da Federação as pessoas estão prontas. Os torcedores estão prontos. A infraestrutura já está muito boa, você pode ver quando anda nas ruas. Os estádios estão muito bons. Provavelmente vão ter muitos hotéis novos, porque muita gente vai vir para essa Copa. Porque talvez seja a última vez que a Copa aconteça na África. Talvez seja a primeira e última.

Acompanhando as eliminatórias, você acredita que pelo fato de a Copa acontecer na África, algum país do continente pode surpreender?
Alguns times africanos são muito fortes. Costa do Marfim, Camarões, Gana. São os três principais representantes do continente junto com a África do Sul. É muito difícil, mas são times que têm muitos jogadores que estão na Inglaterra, na Espanha e em outros lugares na Europa. Eu vejo isso de forma muito positiva, porque isso dá uma experiência maior para esses times. Em relação à África do Sul, talvez ajude o fato de jogar em casa, ter o apoio da torcida. Ainda não sabemos quais serão os grupos [o sorteio acontece no dia 4 de dezembro, na Cidade do Cabo], mas eles devem conseguir passar da primeira fase. As expectativas são boas, com um técnico brasileiro.

A respeito do técnico brasileiro, como você vê a pressão que o Joel Santana sofre da imprensa sul-africana?
Eu nunca leio os jornais. Pressão, pressão não é coisa pra mim. Joel é um bom técnico, se não fosse não estaria à frente da África do Sul. Perdeu seis seguidas, mas no último jogo ganhou de Madagascar de 1 a 0. O time não tem jogado mal. O problema é que não conseguem marcar gols. Esse é o maior problema. Tem muitos bons jogadores, mas eles simplesmente não conseguem marcar muito. E dependem muito de Katlego [Mphela, atacante dos Sundowns]. Perdem de 3 a 1, Katlego marca o gol; ganham de 1 a 0, Katlego marca o gol; perdem de 3 a 2, Katlego marca os dois gols. Mas em relação ao estilo de jogo, dá pra ver que têm uma típica mentalidade brasileira, com muito toque de bola. A diferença é que times como Brasil, Espanha e Itália criam uma chance e marcam. A África do Sul não marca.

Falando nessas seleções, as maiores do mundo, quais times podem ser apontados desde já como favoritos?
Espanha é favorita, Brasil é favorito, Inglaterra é favorita, Holanda é favorita, Sérvia é favorita. Todos os times que chegam aqui são favoritos. E aí no final os maiores aparecem. Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha, Brasil... Talvez a Argentina. A Argentina está com problemas, mas vai para a Copa. 100 % Com certeza vão ganhar os dois últimos jogos.

Você não vê chance nenhuma de a Argentina ficar fora?
Não, nenhuma.

E vê alguma possível surpresa pro Mundial?
Não, surpresas são a França na repescagem, a Romênia não se classificar, a Bulgária não se classificar, a Irlanda talvez não classificar.

Você não acha possível uma surpresa como foram os Estados Unidos na Copa das Confederações?
Pra mim não foi surpresa. Eu joguei lá por quatro anos, e o Bob Bradley [atual técnico da seleção norte-americana] foi meu técnico por três. Então, pra mim não é surpresa que os Estados Unidos estejam jogando bem. E também pelo trabalho que está sendo feito lá com as categorias de base, há mais de 10 anos. Os EUA são com certeza o melhor time da Concacaf. E hoje também têm muitos jogadores jogando na Europa, ganhando mais experiência. Para mim não foi surpresa. A surpresa foi eles perderem depois de abrirem 2 a 0 [na decisão, contra a seleção brasileira].

Provavelmente o seu principal confronto com um time brasileiro foi na final do Mundial Interclubes de 92, contra o São Paulo. Na sua opinião, o que fez o São Paulo vencer aquele jogo?
É parte do futebol. Talvez o principal mérito do São Paulo tenha sido jogar muito bem tanto nos dez minutos finais do primeiro tempo quanto no final do segundo. E talvez... Não é uma desculpa, mas o Barcelona chegou ao Japão 24 horas antes do jogo. Existe o problema do fuso-horário, e você precisa de um pouco de tempo pra se adaptar. Mas é parte do futebol. Eu marquei um dos gols mais bonitos da minha vida nesse jogo, mas eles marcaram nos minutos finais do primeiro tempo e nos minutos finais do segundo tempo. Mas não foi nenhum motivo em especial, a derrota é parte do futebol.

Quais você considera os momentos mais felizes da sua carreira?
São muitos, é difícil dizer. Mas levar a Bulgária, um país pequeno, até onde levamos na Copa do Mundo. Ganhar duas Golden Boot (Chuteira de Ouro), a Golden Ball (Bola de Ouro), ser duas vezes o segundo melhor jogador do mundo. Ser artilheiro de uma Copa. Mas pra mim, os maiores prazeres foram jogar em times como a seleção de 94, o melhor grupo que eu posso imaginar, uma coisa inacreditável. E também o dream team do Barcelona, o melhor de todos os tempos. Ganhamos muitos títulos e são todos momentos que eu nunca vou esquecer.

No último jogo dos Sundowns o time perdeu [para o Bidvest Wits, por 4 a 2] e você teve alguns problemas...
Nada. Merda... Os jornalistas falam essas coisas porque não gostam do Sundowns.

Mas não houve um conflito com a torcida, eles não te ameaçaram?
A torcida é a torcida. Se o time perder e eles não reclamarem, aí sim eu vou achar estranho. Isso é parte do futebol. Ganhar, perder... As pessoas aqui falam muito. Os jornalistas não entendem nada de futebol e falam muito. São capazes de confundir uma bola com uma melancia.

Obrigado pela entrevista
Obrigado e mande um abraço pro Romário no Brasil.


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Ex-atacante xingou os jornalistas, elogiou muito Romário e... só não deixou tirar uma fotinho

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