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Futebol

18/08 - 09:43

'Superpop', PVC lança livro sobre êxodo de jogadores brasileiros
Ao lançar o seu terceiro livro, “Bola Fora”, o jornalista Paulo Vinicius Coelho tenta explicar por que se tornou um dos mais populares e respeitados profissionais da área

Mauricio Stycer, repórter especial do iG

SÃO PAULO - Paulo Vinicius Coelho teve certeza que deixou de ser apenas mais um entre milhares de jornalistas esportivos há cerca de um ano, durante um jogo entre Palmeiras e Lusa, que assistiu nas numeradas do estádio do Pacaembu. Fim do primeiro tempo, João Pedro, seu filho de 9 anos, pediu para ir ao banheiro. Ao longo dos 50 metros que separavam sua cadeira do banheiro, o menino contou 12 pessoas que pararam seu pai para pedir autógrafo ou fazer fotos. “Não consigo ir ao banheiro”, João Pedro reclamou, com razão.

Às vésperas de completar 40 anos, Paulo Vinicius Coelho, ou simplesmente PVC, é hoje um dos mais populares jornalistas esportivos do país e, ao mesmo tempo, o que é raro, um dos mais respeitados e admirados. Nesta terça-feira, às 19hs, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Pompéia, em São Paulo, ele lança seu terceiro livro, “Bola Fora – A história do êxodo do futebol brasileiro”, no qual descreve o que motivou, a cada década, o êxodo de jogadores brasileiros para o exterior.

Paulo Vinícius Coelho, que lança o livro "Bola Fora" nesta terça-feira


O que explica o sucesso de PVC? Muitos atribuem a fama do jornalista à memória impressionante que exibe, capaz de citar escalações completas de times campeões de qualquer tempo. Também dá aulas de tática de futebol, fruto de conversas diárias com técnicos, especialistas e muita observação. Domina, igualmente, estatísticas como poucos na área.

Nada disso, diz PVC: “Não sou carismático. Sou um cara carismático quando falo sobre futebol”, começa, antes de entregar a sua receita. “Acho que o público mais jovem enxerga em mim um cara que gosta de futebol como eles. Para falar de rock e futebol isso vale muito. Você não pode gostar menos de futebol que o cara que te lê ou assiste.”

O raciocínio prossegue com uma observação que alcança, indiretamente, seus colegas de profissão: “E muitos jornalistas gostam menos que os caras que os assistem. Não fico enfadado ao falar de futebol. Os caras aos 40 anos não gostam mais tanto quanto gostavam quando tinham 18.” E completa com uma confissão: “O que aconteceu comigo é muito legal. Não posso perder isso nos próximos 15 anos. Tenho dois filhos para criar (além de João Pedro, há Bruna, de 6 anos).”

Outro segredo, ensina PVC: “Eu converso de igual para igual com o torcedor que sabe a escalação do time dele campeão. É preciso saber a escalação desse time. O moleque não esquece”, diz. “A minha memória não igual a de 9 anos. Treino. Faço questão de saber o time campeão. O vice talvez eu não saiba.”

Ajuda o jornalista o fato de que, no passado, os times não mudavam tanto. Mas não se iluda, ele avisa. “O time titular do Flamengo campeão mundial em 1981, sabe quantas vezes jogou junto?”, ele pergunta ao repórter, como se estivéssemos num programa na ESPN, onde é chefe de reportagem, comentarista e apresentador. “Quatro vezes, apenas”, responde, antes de dar a escalação: “Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Junior; Andrade, Adílio e Zico; Titã, Nunes e Lico”.


O jornalista diz que existe uma comunidade no Orkut chamada “Eu odeio o PVC da ESPN”, integrada por 65 membros. “Eles dizem que eu não passo de uma biblioteca”, conta. “Não acho justo quando dizem que só falo de estatísticas. Falo de história quando comparo números. Entendo que tem o cara que me adora por causa disso. Mas entendo de tática, história, economia do esporte. Sem falsa modéstia, sobre futebol posso falar com profundidade sobre qualquer assunto”. PVC não tem perfil no Orkut, no Facebook e só se rendeu ao Twitter recentemente, depois que uma pessoa fazendo-se passar por ele anunciou na rede que Muricy havia fechado com o Palmeiras – o que só veio a ocorrer três semanas depois – causando alvoroço na mídia esportiva. O jornalista é palmeirense, mas só fala sobre isso se alguém o questiona a respeito. Reconhece, porém: “É difícil não se deixar afetar por isso”.

Em “Bola Fora” (Panda Books, 196 págs., R$ 29,90), PVC não defende nenhuma tese, nem avança em alguma explicação mais estrutural, mas relata boas histórias sobre o êxodo de jogadores brasileiros, que tem início em 1914, conta, com a ida de Arnaldo Porta, de Araraquara, para jogar no Verona, na Itália.

O caso que mais empolga PVC, pelo que representou, é a transferência de Paulo Roberto Falcão do Internacional, de Porto Alegre, para a Roma, em 1980, para ganhar cerca de US$ 100 mil por ano. Falcão abriu uma porteira, fechada desde 1966, quando a Itália foi eliminada da Copa do Mundo pela Coréia, e a sua consagração estimulou muito o êxodo que se seguiu.

O livro traz uma tabela com os maiores negócios envolvendo jogadores brasileiros já realizados – uma relação encabeçada por Robinho (US$ 30 milhões, Santos-Real Madrid), e seguida por Denilson (US$ 26 milhões, São Paulo-Betis), Lucas (US$ 21 milhões, Altético-PR-Rennes), Fabio Junior (US 20 milhões, Cruzeiro-Roma) e Breno (US$ 19 milhões, São Paulo-Bayern). “Há avaliações equivocadas”, diz PVC, sem entrar em detalhes.

Para os fãs por estatísticas e dados organizados, “Bola Fora” apresenta a relação de todos os jogadores brasileiros que já atuaram na Itália, Espanha, Alemanha e Inglaterra, com número de partidas disputadas e gols marcados nos clubes em que jogaram.

“Bola Fora” se encerra com a informação que o empresário Wagner Ribeiro, legítimo representante do que PVC chama de “filosofia extrativista”, já cuida com carinho da carreira de Neymar, do Santos. O jovem atacante, escreve o jornalista, representa a geração que entende que “a única saída para as próprias vidas é o aeroporto”.

O jornalista está entre os defensores da idéia de alinhar o calendário do futebol brasileiro ao europeu, o que significaria começar o Brasileiro no segundo semestre do ano e encerrá-lo no primeiro semestre do ano seguinte. “É preciso equacionar o aspecto esportivo com o econômico”, defende. “Você não vai sanar as contas do clube, mas ajuda a organizar o orçamento. E o clube vai vender melhor se o time for bem no campeonato. Não acaba com o êxodo, mas atenua o impacto do êxodo no campeonato”.


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