Futebol
05/02 - 15:35
Política esquenta o clima para amistoso Brasil x Itália
Refúgio concedido pelo governo brasileiro a Cesare Battisti tem provocado acalorado debate envolvendo políticos, atletas e dirigentes; Buffon, Mazzola e Paolo Rossi entre eles
Redação iG Esporte
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SÃO PAULO – Brasil, vencedor de cinco título mundiais, e Itália, vencedora de quatro, são as duas seleções de futebol que mais conquistaram Copas do Mundo na história. O retrospecto já bastaria para transformar o amistoso que os dois times disputam no próximo dia 10, no Emirates Stadium, em Londres, em um jogo de muito interesse e rivalidade.
A partida, contudo, será cercada por um clima de animosidade política rara entre duas nações tradicionalmente amigas. Nada a ver com a não liberação do atacante Amauri por parte da Juventus de Turim para a seleção brasileira, ainda que o fato de o jogador ser cogitado para jogar também pela Itália pudesse dar margem a criativas teses conspiratórias sobre o caso.
A animosidade provém de um assunto que, pelo menos em princípio, não teria nada a ver com futebol: o refúgio político concedido pelo ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro, a Cesare Battisti, italiano condenado à prisão perpétua em seu país pela acusação de ter cometido quatro homicídios — ele nega os crimes.
Há quem diga que futebol e política não devem se misturar, mas a repercussão do caso na imprensa italiana nas últimas semanas mostra que nem todos pensam assim, a começar pelo ministro da defesa da Itália, Ignazio La Russa, e pelo subsecretário das Relações Exteriores, Alfredo Mantica, que chegaram a propor o cancelamento do amistoso se o Brasil não voltasse atrás e concedesse a extradição.
Mas a idéia, apoiada por diversos políticos do país, foi rechaçada pelo ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, que não deixou, contudo, de fazer uma referência à partida entre as duas seleções ao comentar o tema. "Sou um torcedor da seleção italiana e quero que a Itália vença o Brasil. No segundo round, venceremos na Suprema Corte [brasileira, que ainda vai julgar o caso]”, afirmou.
"É preciso representar aos olhos do governo brasileiro o sentimento de amargura que está nos corações italianos", Giorgia Meloni, ministra italiana, defendendo o uso de faixas de luto no jogo contra o Brasil
Jogadores de futebol do presente e do passado também foram consultados sobre o tema e, a exemplo de Frattini, foram contra o cancelamento do jogo. "É absurdo não jogar, essa não é uma guerra. O que deveriam ter feito então Argentina e Inglaterra quando aconteceu o conflito nas Malvinas?", pergunta o ex-jogador Mazzola, na Itália conhecido como José Altafini, que já vestiu as camisas das duas seleções nas décadas de 50 e 60.
Como o governo italiano manteve a realização do amistoso, a ministra da Juventude da Itália, Giorgia Meloni, sugeriu que os jogadores da Azzurra entrem em campo com uma faixa de luto em homenagem às vítimas de Battisti. "É preciso representar aos olhos do governo brasileiro o sentimento de amargura que está nos corações italianos", disse.
Meloni, porém, ressaltou uma outra preocupação: a de que os torcedores italianos que forem ao estádio em Londres sejam cuidadosos para não insultar a população brasileira com vaias e cartazes. "Este é o aspecto que mais me assusta nesta partida, razão pela qual considero sensata a hipótese de não realizá-la", explicou.
Já para o goleiro italiano Gianluigi Buffon, titular da seleção, mesmo a proposta de luto feita por Meloni é exagerada. "É exagerada e fora de hora", afirmou, completando que "o esporte pode ajudar a reencontrar a tranqüilidade em uma situação que é elétrica". O goleiro afirmou que fará aquilo que for determinado pela Federação de Futebol Italiana e recusou-se a entrar no mérito do refúgio concedido por Tarso Genro.
Mais contundente sobre o caso foi o ex-atacante Paolo Rossi, carrasco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982, quando marcou três gols na vitória italiana na semifinal. Ele também se posicionou contra o cancelamento do amistoso, mas tomou partido em relação ao caso.
"É justo que um ex-terrorista cumpra a sua pena e que não viva no Brasil como um refugiado político. Os dirigentes devem pedir a algum jogador para fazer declarações ou gestos em lembrança das vítimas do terrorismo. Isso seria muito útil para promover a sensibilização sobre o problema. O futebol serve como caixa de ressonância", disse.
Disputa interna na Itália
Embora tanto os políticos da situação como os da oposição italiana sejam contrários à decisão do ministro brasileiro Tarso Genro, o fato de membros do governo terem misturado futebol e políticas serviu para esquentar o clima no parlamento do país europeu.
"O governo brasileiro errou ao negar a extradição a Battisti e é correto que a Itália ponha em prática todas as medidas necessárias para fazer com que isto aconteça, mas o que tem a ver colocar em discussão o amistoso de futebol entre Itália e Brasil?", disse o deputado de oposição Ermete Realacci, do Partido Democrata.
"Se este fosse o critério, o nosso país, em todos estes anos, deveria renunciar a todas as partidas contra a França. Talvez seja necessário ter mais seriedade para lidar com temas tão importantes", acrescentou.
Já o líder comunista Alessandro Pignatiello disse em tom irônico que se o amistoso fosse cancelado, o premier italiano, Silvio Berlusconi, que também é dono do Milan, deveria suspender os contratos de todos os jogadores brasileiros de seu time: "Sejamos sérios! Ao pedir o cancelamento do jogo, o ministro La Russa se expõe ao ridículo, e pode fazer o mesmo com todo o país".
* Com informações da agência Ansa.
Qual sua opnião? Os italianos deveriam cancelar o amistoso ou usar faixas de luto como protesto contra a decisão do governo brasileiro? Comente abaixo.
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AP
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