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Futebol

14/11 - 15:32

Santa Lúcia: descobrindo a América
Aos poucos, seleção da pequena ilha deixa de ser conhecida apenas no Caribe

Trivela.com

SÃO PAULO - O ano era 1979. Enquanto o Liverpool conquistava seu décimo primeiro campeonato nacional e o Nottingham Forest levantava a primeira de suas duas Copas Européias, atestando a superioridade do futebol inglês na época, em uma pequena ilha 6.800 quilômetros a sudoeste da terra da Rainha nascia um novo país. Após séculos de dominação inglesa (e de muitas disputas com a França pelo controle da região), Santa Lúcia conquistava sua independência.

E o país que foi batizado em homenagem à Santa Lúcia de Siracusa, conhecida no Brasil como Santa Luzia, não demorou muito para começar a jogar futebol com as próprias pernas. Apenas meses depois de alcançar sua independência pacificamente, com a assinatura de um tratado, Santa Lúcia já viu ser fundada a Football Association, na capital Castries. No ano seguinte, já foi disputada a primeira temporada do campeonato nacional, com a vitória do Dames SC, de Vieux Fort. A cidade ao sul da capital é atualmente sede da seleção, que manda seus jogos no Vieux Fort National Stadium, com capacidade para 9 mil espectadores.

Entretanto, a federação não desenvolveu logo de cara o trabalho para uma seleção nacional. Com uma área pouco menor do que a cidade de Campinas e uma população igual à de uma cidade pequena do interior brasileiro, era de se esperar que houvesse dificuldades para se encontrar um número considerável de praticantes do futebol. Ainda assim, o esporte já era o mais popular na ilha antes da independência, graças à presença inglesa.

Mas, curiosamente, Santa Lúcia tem mais campos de golfe e quadras de tênis e squash do que campos de futebol: por ser um destino turístico bastante procurado no Caribe, tais esportes são praticados pelos visitantes em hotéis e resorts, enquanto que a população divide a paixão do futebol com o críquete, outra herança da terra da Rainha. De fato, o estádio de críquete Beausejour, em Castries, comporta até 22 mil pessoas – mais do que o dobro da casa do futebol na ilha.

Descobrindo a América

Foi apenas dez anos depois da fundação da SLFA que a seleção nacional disputou sua primeira partida. Jogando em Kingston, capital da Jamaica, os papagaios azuis arrancaram um impressionante empate em 1 a 1. Naquela equipe pioneira, destacavam-se o atacante Keith Alexander, que jogou por diversos clubes das divisões inferiores da Inglaterra, e Ken Charlery, considerado o maior jogador da história do país, tendo defendido o Birmingham e o Watford no início da década de 90.

Os dois, entretanto, são exceções. A maioria dos praticantes do esporte no país ainda são semi-amadores, assim como é a liga nacional, que conta atualmente com vinte clubes. Mas já há algum avanço: até pouco tempo ranqueada entre as piores do continente, a Premier Division começou a partir de 2005 a classificar seu campeão para as fases preliminares da Copa dos Campeões da CONCACAF. Contudo, nenhum time até hoje passou da primeira eliminatória.

A primeira competição oficial disputada pela seleção foi o qualificatório para a Copa Ouro de 1991. E o resultado foi acima do esperado: a classificação para a fase final não veio por muito pouco, graças a uma derrota para os jamaicanos na semifinal da zona caribenha. Uma vitória na etapa anterior sobre Trinidad & Tobago, que chegou acabou se qualificando para a competição, mostrou a força da nova equipe na região.

E nas edições seguintes, Santa Lúcia voltou a incomodar, transformando-se em pouco tempo em uma das forças do futebol caribenho, vencendo até alguns torneios organizados entre seleções próximas, como São Vicente e Grenadinas, Barbados e Martinica. O debut em eliminatórias para Copa também foi animador: vitória sobre os vizinhos de São Vicente e Grenadinas por 1 a 0. Na partida de volta, entretanto, dois gols no segundo tempo e a derrota final por 3 a 1 acabaram com o sonho.

Surgiu então uma nova geração de jogadores, a maioria nascidos na ilha mas criados na Inglaterra, como Warren Hackett, que começou sua carreira no Tottenham, René Regis e Earl Jean, conhecido como “o mosca” por sua agilidade, tendo passado por Portugal e diversos clubes pequenos da Inglaterra. Com a afiliação à FIFA de países menores da região, os papagaios enfrentaram as Ilhas Virgens Britânicas na primeira fase das eliminatórias para a Copa de 2006 e conseguiram duas vitórias, por 1 a 0 e 9 a 0.

A derrota para o Panamá na fase seguinte já era esperada, mas um novo marco havia sido alcançado: pela primeira vez em seus 15 anos de história, a seleção disputou uma partida no continente, fora do Caribe. O feito se repetiu este ano, mas de maneira mais sofrida: contra as Ilhas Turks & Caicos, derrota por 2 a 1 fora de casa e vitória por 2 a 0 em Vieux Fort, com o gol da classificação marcado por Titus Elva a sete minutos do fim. Na fase seguinte, pouco poderia ser feito para evitar as derrotas por 6 a 0 e 3 a 1 para a Guatemala.

Centralizar para crescer

O desenvolvimento do esporte no país é lento, mas já bastou para atrair a atenção das mulheres. O futebol feminino tem crescido bastante na ilha pelo fato de poder ser praticado por qualquer um, sem tantos equipamentos sofisticados como demandam o tênis, o squash, o golfe ou o críquete. A campanha da seleção feminina na Copa Ouro de 2002, que serviu como Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2003, foi surpreendente: não fosse uma derrota para o Haiti, as meninas teriam avançado à fase final – a primeira do país no futebol, independente de gênero.

Em 2003, a federação nacional recebeu investimentos de US$ 400 mil do Projeto GOAL, da Fifa, para a construção de um centro de treinamento em União – o primeiro fora da capital. Com campo de gramado artificial e infra-estrutura ímpar na ilha, a FA teve como missão desenvolver o futebol tanto no nível profissional como também nas categorias de base, com captação de talentos, realização de torneios e abertura de escolinhas.

Mas o principal problema nem é a estrutura. Apesar dos esforços da federação, o futebol em Santa Lúcia ainda é bastante descentralizado. Ligas independentes, muitas vezes com patrocinadores locais, rivalizam com o campeonato nacional e tiram garotos e profissionais dos principais clubes.

De acordo com o presidente da FA, Patrick Mathurin, as competições paralelas deverão fazer parte do calendário oficial a partir de 2009, transformando as ligas distritais em algo como os nossos campeonatos estaduais. “A federação gastou quase todo seu dinheiro investindo na disputa das Eliminatórias para a Copa. Precisamos de uma identidade nacional para nosso futebol, do contrário nunca iremos evoluir”, afirmou recentemente, quando do anúncio das medidas centralizadoras.

Para quem nasceu e aprendeu a jogar futebol como colônia, a transição para metrópole pode ser bastante difícil. Mas a paixão pelo esporte garante que ela acontecerá, mais cedo ou mais tarde.

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