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Futebol

10/10 - 15:49

Laos: onde o futebol não é o ópio do povo
Esporte ainda engatinha no país do sudeste asiático e sofre com concorrência do pétanque

Trivela.com

SÃO PAUL0 - O futebol nunca foi muito popular no sudeste asiático até a década de 70, graças principalmente às condições ruins de desenvolvimento dos países, extremamente pobres. A situação começou a mudar em 1984, quando as federações nacionais da região se uniram e fundaram a Asean Football Federation (AFF), uma subdivisão da Confederação Asiática. Vinte anos depois, o cenário é de evolução, mas apenas um país continua deixando a desejar: Laos, onde o futebol ainda não é o ópio do povo.

Espremido entre Vietnã, Tailândia e Camboja, Laos é o único país da Península Indochinesa sem saída para o mar. Por isso, sua economia é extremamente agrícola, baseada na produção de arroz. Outra cultura com grande presença é a de papoula, para a fabricação de ópio: na década de 70, Laos era o maior produtor da droga no mundo, fabricando aproximadamente 300 toneladas por ano. Durante a Guerra do Vietnã, a maior parte do ópio produzido era consumido pelos soldados norte-americanos.

Com origens que remontam ao século 14, no reinado de Lan Xang, o nome do país vem do grupo étnico “lao”, de características físicas e lingüísticas similares aos tailandeses. Após séculos de declínio gradual, o império de Xang foi dominado pelos tailandeses, até ser absorvido pela Indochina Francesa. Foi o tratado franco-siamês de 1907 que determinou a atual fronteira entre Laos e Tailândia. Em 1975, o partido comunista, sob forte influência chinesa, tomou controle do governo e instituiu um regime socialista parecido com o do Vietnã, em voga até os dias atuais.

A partir de 1986, o governo começa a promover uma abertura lenta e compassada ao capital privado, abrindo as portas ao investimento estrangeiro na tentativa de salvar a economia do país, ainda dependente da agricultura e muito precária em infra-estrutura básica. A abertura, que seguiu o modelo chinês, não é a única coincidência entre os dois países: o budismo é a religião oficial de Laos, o que configura à nação características bastante peculiares.

Concorrência com o pétanque

O contexto histórico do país, bem como seu processo de reformulação econômica, ajudam a entender como o futebol se desenvolveu – ou não – em Laos. Após afiliar-se ao grupo econômico do sudeste asiático em 1997, a república socialista começa a alcançar a estabilidade política e pode investir mais no esporte, que ainda hoje é fomentado pelo governo: a maioria dos clubes da Lao League, fundada em 1990, é estatal. Não à toa, os maiores campeões são o Lao Army (time do exército), com cinco títulos; o CTPC FC (equipe do Ministério de Transportes e Comunicações), com três; e o Vientiane FC, clube da prefeitura da capital, com duas conquistas.

O futebol possui ainda status semi-amador, com 50 clubes e 2.600 jogadores registrados. O número de praticantes sem registro, entretanto, é muito maior: 106 mil, segundo dados da Fifa. Isso faz com que a concorrência com o pétanque, o esporte nacional, ainda seja desleal. Parecido com a bocha, o pétanque (petanca, em português) tem origem francesa e difere do jogo italiano por utilizar bolas de metal, ao contrário de resina. A forma de jogar também é um pouco diferente: enquanto na bocha o arremesso é feito como no boliche, no petánque a bola é jogada de cima para baixo. A rivalidade com os vizinhos tailandeses no esporte é antiga e acirrada, já que Laos possui a equipe mais forte da região, tendo conquistado o ouro nos Jogos do Sudeste Asiático nas últimas três edições.

Os guerreiros laranjas

Embora tenha fundado sua federação nacional em 1951, o pequeno país do sudeste asiático ainda espera por seu debut em grandes competições internacionais. Laos jamais participou de uma Copa do Mundo, Copa das Nações Asiáticas ou mesmo dos Jogos Asiáticos. Até hoje, a seleção restringe suas participações internacionais a torneios regionais como os Jogos do Sudeste Asiático ou a antiga Tiger Cup, competição organizada pela Asean Football Federation.

A estréia dos guerreiros laranjas não foi das melhores: derrota por 7 a 0 para o Vietnã do Sul, em 12 de dezembro de 1961. O apelido se deve ao uniforme reserva, que remete à cor do antigo império de Lan Kang. A seleção, que veste camisa azul-escuro e calções pretos, também é chamada de “os grandes rinocerontes”, embora o elefante seja um animal muito mais presente na cultura lau.

Nove anos após o debut, uma vitória sobre Singapura por 3 a 0 marca a maior goleada da história da seleção. O placar foi igualado em 1995, contra Brunei, e dois anos depois, a diferença foi a mesma contra Filipinas, mas o placar final – 4 a 1 – foi o com maior número de gols de Laos em uma partida até hoje. Foi exatamente nesta época que começaram as participações em competições internacionais, na edição de 95 dos Jogos do Sudeste Asiático.

Um ano depois, a primeira participação na Tiger Cup: uma vitória, um empate e duas derrotas. Em todas as seis edições que disputou, Laos foi eliminado na primeira fase. Ainda assim, em 1998 atingiu sua melhor posição no ranking da Fifa, com um 134º lugar. Atualmente, é a quinta pior seleção do continente e a pior rankeada da região.

Da mesma forma, disputou as Eliminatórias para a Copa das Nações Asiáticas apenas duas vezes, em 2000 e 2004, sendo eliminada no primeiro confronto. Para a edição de 2007, realizada nos vizinhos Tailândia, Vietnã, Indonésia e Malásia, a federação sequer se inscreveu, assim como fez para as Eliminatórias da Copa de 2010. Também para o Mundial o primeiro qualificatório disputado foi recente: em 2002, três gols marcados e quarenta sofridos em seis partidas.

Mas apesar do cenário desanimador, alguns resultados dos últimos anos chegam a ser surpreendentes. Em 2004, vitória sobre Bangladesh por 2 a 1 nas preliminares da Copa Asiática. Para a Copa de 2002, ficaram na frente das Filipinas em seu grupo, vencendo um jogo e empatando outro nos dois confrontos. E nas Eliminatórias da Copa de 2006, o time se classificou para a segunda fase na repescagem, após as desistências de Guam e Nepal.

Até mesmo algumas vitórias contra vizinhos mais fortes foram alcançadas, como em 1995, sobre a Malásia, jogando na casa do adversário. Ainda é muito pouco, e projetos como o “Goal”, da Fifa, tentam ajudar a melhorar a infra-estrutura e o desenvolvimento do esporte entre os jovens. No ano passado, a equipe sub-17 foi vice-campeã da AFF no torneio regional, perdendo para a Tailândia. Recentemente, alguns jogadores vieram ao Brasil, para conhecer os centros de treinamento de Coritiba e Atlético-PR. Esperança de que, se o futebol não chega a ser o ópio do povo, ao menos possa evoluir e trazer um pouco de alegria.

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