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Futebol

30/09 - 12:01

Museu do Futebol cabe num DVD
Emoção, história e diversão são a base de uma nova iniciativa que tenta apresentar as origens do futebol ao grande público

Mauricio Stycer, especial para o Último Segundo

 Acordo Ortográfico

SÃO PAULO - Já se vai um quarto de século desde que o antropólogo Roberto DaMatta organizou o livro “Universo do Futebol”, uma coletânea de estudos que é considerada a primeira tentativa sistemática na universidade latino-americana de abordar o assunto.

De lá para cá, nesses 25 anos, dezenas de historiadores, sociólogos, antropólogos, professores de literatura, economistas e jornalistas, com variados estudos, sobre os mais diferentes temas e ângulos, ajudaram a formar uma considerável biblioteca sobre o futebol no Brasil.

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Walter Feldman, José Serra, Pelé e José Roberto Marinho no Estádio do Pacaembu

Sabemos hoje, em detalhes, e não sem polêmica, em função de diferentes interpretações do fenômeno, como se deu a introdução do futebol no país. Um dos mais importantes trabalhos a esse respeito, “Footbalmania – Uma história social do Rio de Janeiro, 1902-1938”, de Leonardo Pereira, descreve em minúcias como foi longo – e penoso – o processo de disseminação do esporte, transformando o que era uma diversão exclusiva dos bem nascidos no esporte mais popular e democrático nos principais centros urbanos do país.

É uma história repleta de episódios tão épicos e dramáticos quanto uma final de campeonato. No Rio de Janeiro, temos a saga do Bangu, time de funcionários ingleses de uma fábrica de tecidos que começou a ganhar de todo mundo na primeira década do século XX depois que incorporou os seus trabalhadores braçais brasileiros.

Também é célebre a história do Andaraí, time de negros que fez o mesmo uma década depois do Bangu. Ou, para ficar no caso mais famoso, do Vasco da Gama, campeão carioca em 1923, bem no ano em que subiu para a primeira divisão, com um time formado por três negros, um mulato e sete brancos, todos pobres e remunerados, numa época em que o futebol era, por lei, amador. 

"O Museu do Futebol constrói-se sobre um tripé: emoção, história e diversão. A reiteração de lugares comuns começa logo na primeira sala, intitulada 'Pé na bola'"

Em São Paulo, há histórias semelhantes, contadas pelos antepassados do Palmeiras, o Palestra Itália, time que enfrentou preconceito não apenas por aceitar jogadores de origem humilde, mas também, e sobretudo, por serem imigrantes. Ou do Corinthians, time formado por operários. E tantos outros, Brasil afora.

Ao ouvir falar que estava sendo construído um Museu do Futebol, em São Paulo, não pude deixar de pensar que essa magnífica história do futebol brasileiro, finalmente, deixaria as páginas de estudos acadêmicos para alcançar um grande público. E, de fato, há uma tentativa de contá-la, num espaço intitulado Sala das Origens. O bonito ambiente exibe 431 fotografias, com legendas, e um vídeo que tenta sintetizar tudo em quatro minutos. “Parece que todo brasileiro nasceu com uma bola no pé. Mas não foi sempre assim”, anuncia.

Emoção, história e diversão
O Museu do Futebol constrói-se sobre um tripé: emoção, história e diversão. A reiteração de lugares comuns começa logo na primeira sala, intitulada “Pé na bola”. Ali, uma sequência de vídeos mostra diferentes garotos chutando bolas em campinhos de várzea, com a proposta de lembrar ao visitante que “o futebol nasce em todos os lugares, todos os dias, em todos os terrenos, com todos os tipos de calçado”.

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Ricardo Teixeira, presidente da CBF, ganha um abraço de Pelé, um dos "homenageados"
 

No terreno da emoção há, ainda, uma Sala dos Anjos Barrocos – 25 telas holográficas com imagens de craques de diferentes épocas. Os jogadores flutuam no espaço, a sugerir, como diz o nome da sala, que estão acima de nós, com seu talento artístico para o esporte.

Num ambiente contíguo, a Sala dos Gols reproduz imagens de centenas de gols comentados por personalidades do esporte e, ao lado, a Sala dos Rádios oferece o registro em áudio de outros tantos gols pela voz de alguns dos principais narradores esportivos do país.

Na passagem da emoção para a história, o visitante é levado a subir uma escada construída embaixo da arquibancada do Pacaembu. Vídeos projetam imagens de torcidas no concreto aparente, com o áudio a todo volume. Criação de Daniela Thomas e Felipe Tassara, responsáveis por toda a “expografia” do museu, esse ambiente, denominado Exaltação, é um raro espaço no museu em que a narrativa não nos oferece uma legenda para entender o que estamos vendo e temos a possibilidade de sentir e pensar livremente.

"Quase tudo que se vê no Museu do Futebol foi criado especialmente para estar lá. Com exceção de algumas camisas da seleção brasileira e uma chuteira"

Antes, logo à entrada do museu, num ambiente com pé direito monumental, outro espaço criado pela dupla produz efeito semelhante. Variados objetos do mundo do futebol foram fotografados, ampliados, enquadrados e pendurados, um próximo ao outro, em três paredes, criando a sensação de entrarmos em um local de fato grandioso, para celebrar o futebol.  

Domingos da Guia = Getúlio Vargas
Na parte dedicada à história, além da Sala das Origens, o visitante conhece a Sala dos Heróis, um ambiente de alta tecnologia em que Leônidas da Silva e Domingos da Guia são colocados no mesmo patamar que outros brasileiros que tiveram papel relevante na primeira metade do século, como Portinari, Drummond, Villa Lobos, Noel Rosa, Tarsila do Amaral, Jorge Amado, Getúlio Vargas, Pixinguinha, Niemeyer, Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. “Pessoas que ajudaram a construir a identidade brasileira”, explica o museu.

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Festa de inauguração reuniu jornalistas, empresários, ex-jogadores, personalidades...

Trata-se de uma simplificação ousada, para dizer o mínimo. Vai-se aqui, além do polêmico ponto de vista do jornalista Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, que, para efeitos de demonstração de sua tese, considera a trajetória desses dois jogadores de origem humilde, mas infinito talento, simbólica da afirmação dos negros no futebol brasileiro.

Outra sala no núcleo histórico chama-se Rito de Passagem. Exibe apenas um vídeo, com cenas da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 50. O texto, lido por Arnaldo Antunes, informa: “2 a 1 Uruguai. O coração do Brasil para”.

Em outra sala, totens exibem imagens e vídeos sobre todas as Copas do Mundo, associados ao esforço, por meio de algumas fotos, de explicar o que acontecia no país em cada um daqueles momentos. Outras duas instalações, nesse ambiente, exibem vídeos e fotos dedicadas ao talento de Pelé e Garrincha, a salientar que foram os dois maiores jogadores brasileiros, mas sem a preocupação de dar alguma pista sobre os lugares de onde vieram, como chegaram e, no caso do gênio do Botafogo, como acabou.

"A rigor, o Museu do Futebol cabe dentro de um DVD – a principal experiência de quem o visita é a contemplação de vídeos e fotos"

No núcleo da diversão as atrações são várias. Uma sala com painéis gigantescos exibe números e curiosidades do mundo do futebol. Especialmente atraentes são os painéis com as 17 regras do futebol, explicadas didaticamente.

Em outro ambiente, entra-se no terreno do videogame e da altíssima tecnologia. A sala chama-se Jogo de Corpo. Ali há uma projeção em 3D que resulta no jogador Ronaldinho. Também há uma imagem submetida a um software que simula o efeito da câmera lenta, chamado “super slow”. E, por fim, um espaço em que o visitante pode chutar uma bola de verdade contra um goleiro virtual.

Quase tudo que se vê no Museu do Futebol foi criado especialmente para estar lá. Com exceção de algumas camisas da seleção brasileira e uma chuteira, tudo o mais é fruto do casamento de pesquisas em bancos de imagem e áudio com tecnologia de última geração.

São seis horas de vídeo, no total. Os quatro minutos do vídeo da Sala das Origens representam, portanto, 1,1% do total de imagens do museu. A rigor, o Museu do Futebol cabe dentro de um DVD – a principal experiência de quem o visita é a contemplação de vídeos e fotos.

O esforço dedicado à criação deste museu e o investimento da iniciativa privada que o viabilizou merecem ser saudados. A três dias da inauguração, era possível perceber a paixão que mobilizou todos os envolvidos no processo. Se este é, de fato, um museu da terceira geração, parece natural esperar que não seja uma obra fechada. Ao contrário, que seja uma instituição viva, em permanente estado de aperfeiçoamento. 


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Principal experiência de quem visita o Museu é a contemplação de vídeos e fotos

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