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Futebol

04/09 - 13:46

Doncaster: 50 anos depois, entre os (quase) melhores
Pela primeira vez em meio século, clube retorna para a disputa da segunda divisão inglesa, após seguidos acessos

Trivela.com

'O dia que nós enfim voltarmos para a segunda divisão, eu me aposento'. Foi o que disse John Ryan, que acabava de assumir como presidente do Doncaster Rovers, dez anos atrás, quando o clube ainda penava jogando na Conferência (Quinta Divisão Inglesa). O descrédito era evidente, e tinha razão de ser. Tanto que Ian Snodin, revelação do time anos antes e comandante da equipe na ocasião, comentou em uma entrevista à BBC que não havia rede, nem bolas ou uniformes na época em que chegou para treinar o clube.

Pois é, as coisas mudaram. Depois de seguidos acessos, o Donny surpreendeu mais uma vez. Na temporada passada, mesmo perdendo a promoção automática na última rodada da League One, a moral dos Reds seguiu alta e com uma goleada frente ao Southend United e uma inesperada vitória contra o gigante Leeds United, em Wembley, os Rovers retornaram pela primeira vez em 50 anos para a Championship (Segunda Divisão).

O caminho do clube se assemelha ao do Hull City, que hoje disputa a Premier League, após anos em crise financeira, perambulando em divisões inexpressivas da Inglatera. Fica a dúvida: um raio pode cair duas vezes — e de maneira consecutiva — no mesmo lugar?

Crise quase fechou as portas

Tudo começou em setembro de 1879, em uma iniciativa de um mecânico chamado Albert Jenkins, após uma partida amistosa entre seu time, um combinado da Doncaster LNER Works, empresa para a qual trabalhava, e o Yorkshire Institute for Deaf and Dumb. Aparentemente, o grupo de Jenkins gostou da brincadeira, decidindo torná-la séria. Nascia então o Doncaster Rovers Football Club.

Nos primeiros momentos, ainda sem uma 'casa', bastava arranjar um local que tivesse um espaço suficientemente bom para que o time pudesse jogar. Essa sina durou seis anos, até que, enfim, os Reds estabelecessem o Intake Ground, situado próximo ao instituto Yorkshire supracitado, como seu estádio. Além disso, foi nessa ocasião que o clube adotou o vermelho como cor oficial, em detrimento do azul.

Em 1891, o Doncaster enfim conseguiu adentrar na Midland League, competição que dava acesso à Football League Division Two, que era a então segunda divisão britânica. Após sete temporadas, o time conquistou seu primeiro acesso, e, duas temporadas depois, realizou sua melhor campanha — até hoje (!) — dentro do País, alcançando o 7º lugar no torneio.

No entanto, pouco tempo depois, a situação financeira limitada vivida pelo clube complicou os desempenhos futuros. No ano seguinte à ótima campanha, veio um estrondoso rebaixamento, com apenas oito pontos ganhos, em último lugar. A pior campanha de um time na segunda divisão inglesa até hoje.

Tentou-se salvar a pátria de várias maneiras, como através de alianças com outros times para a formação de uma nova liga e a transformação do clube em uma sociedade limitada. Sem sucesso nas iniciativas, o Donny chegou a fechar as portas após a temporada de 1916/17.

Renascimento pós-guerra

O renascimento em 1920, novamente sem estádio, já que o exército inglês seguia utilizando o Intake Ground como base, como o fez durante a I Guerra Mundial. Três anos depois, o clube adotou o estádio Belle Vue como sua casa. Ao longo daquela década, surgiram os primeiros grandes destaques da história da equipe, como Tommy Keetley (autor de 180 gols em 231 jogos pelo time em seis temporadas) e Fred Emery, que, segundo o site oficial do clube inglês, realizou 417 partidas pela equipe. Atualmente, o recorde de Emery ainda persiste.

Até 1949, o clube foi uma verdadeira gangorra, revezando-se na Terceirona e na Segundona. Foi quando o Rovers resolveu abrir seus escassos cofres, e tirou Peter Doherty do Huddersfield para que o recém-contratado assumisse as funções de jogador e treinador. Foram dez anos no comando do Doncaster, com resultados expressivos na história da equipe, que, em seu comando, permaneceu por oito temporadas consecutivas na Division Two até o rebaixamento em 1958.

Os anos que se passaram foram de pouca expressão e muitas idas e vindas nas divisões inferiores da Liga Inglesa, com títulos e rebaixamentos. O clube obteve até um recorde: é o único a vencer por três vezes a Quarta Divisão. Até a chegada dos anos 90, o principal momento do clube ocorreu nas categorias de base. Foi em 1988, quando o time alcançou a final da FA Youth Cup, sendo derrotado pelo Arsenal. No entanto, a falta de dinheiro, que já prejudicara o Rovers no passado, volta a assombrar Belle Vue.

Plástica salvadora

O fundo do poço ficou próximo em 1998, quando o time foi rebaixado para a Conferência com um vergonhoso saldo negativo de 83 gols ao término da temporada. Alem disso, viu Ken Richardson, então presidente do clube, ser preso após ser considerado responsável por um incêndio que atingiu as arquibancadas principais do estádio Belle Vue. O objetivo: uma desculpa para vender o estádio. A situação financeira apertou de tal forma que, tal como lembra uma reportagem do periódico The Guardian, fez com que os Rovers pedissem uniformes para o rival Sheffield United.

Foi então que John Ryan assumiu a presidência do clube. Cirurgião plástico apaixonado pelo Doncaster, comprou parte dos Rovers por 4,5 milhões de libras esterlinas, renovando todo o ambiente da equipe. O já citado Ian Snodin (já em final de carreira), Neville Southall e John Sheridan foram alguns dos reforços obtidos por Ryan para alcançar seu objetivo: recolocar o Doncaster nas divisões principais da Inglaterra.

A partir da temporada 2002/03, enfim, a torcida vermelha passou a ter motivos para sorrir. Na ocasião, obteve o acesso para a quarta divisão e, no ano seguinte, para a terceira. Lá, permaneceram por quatro temporadas, sempre distantes da zona de rebaixamento, ainda que distantes de qualquer possibilidade de acesso. Isso tornou a temporada passada ainda mais importante e emocionante para os torcedores dos Rovers.

Após um início vagaroso, o Doncaster, aos poucos, foi lucrando pontos em cima de adversários diretos, entrando inclusive na rodada final da League One na segunda posição. Tudo parecia se encaminhar bem, com o acesso de volta à Segundona garantido, de maneira até surpreendentemente tranqüila, acima das expectativas. Um sinal de alerta, no entanto, surgiu no dia 5 de maio deste ano, quando os Rovers caíram frente ao Cheltenham, por 2 a 1. Melhor para o Nottingham Forest, que obteve a promoção automática ao ultrapassar os Reds e ficar com o vice-campeonato.

Mas estava escrito. O acesso era questão de tempo, e demorou mais algumas semanas — ou três partidas. Após um empate suado no jogo de ida contra um determinado Southend, na partida de volta, porém, o Donny deu show, goleando por 5 a 1 e contrariando as expectativas da imprensa inglesa. Na decisão, nova zebra. Azar do tradicional Leeds, que, mesmo após tirar a diferença de 15 pontos que lhe foram deduzidos no início da competição e ficar próximo do acesso, acabou superado com um gol de cabeça de James Hayter, aos 47 minutos de jogo. Festa vermelha em Wembley. Festa essa que não estava no planejado.

Sabe-se que, hoje, o Doncaster é um dos mais fortes candidatos ao rebaixamento, e que terá longas viagens e pedreiras muito mais complicadas do que encontrou até então, nos últimos anos. Além disso, até o momento, poucos reforços vieram para os Rovers, o que tende a tornar ainda mais dura a luta pela permanência no segundo escalão do futebol inglês, como lembra Jonathan Symcox, da Eurosport. O início foi bom, e após quatro jogos, foram duas vitórias, um empate e uma vitória.

Dificilmente esses 58% de aproveitamento atuais serão mantidos. No entanto, em alusão à temporada passada, um percentual de 39% de pontos atingidos deve salvar o time de uma nova queda. Números à parte, se a reta final da League One reservou emoções aos torcedores vermelhos, a temporada inteira de 2008/09 não será de fácil resistência aos mais fracos.

 

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