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Futebol

31/08 - 03:15

Fogo de palha à francesa
Grenoble surpreende na Ligue 1, mas sucesso está com os dias contados

Trivela.com

PARIS (França) - O Lyon acabou com a graça do Grenoble. O GF38 liderava a Ligue 1, havia vencido suas duas primeiras partidas no campeonato e já tinha gente dizendo que o clube era a sensação do campeonato. Calma lá. Com apenas duas rodadas, simplesmente não dá para se fazer projeções com o que cada equipe demonstrou até então. Bastou ter o OL pela frente para o clube sentir realmente o que é a primeira divisão e todas as suas agruras.

Após 46 anos de ausência da elite, o Grenoble pelo menos teve o gosto de ser líder, mesmo por tão pouco tempo. Nada mal para um clube com um dos menores orçamentos da Ligue 1: € 25 milhões, seis vezes menor do que o Lyon. Além disso, o time por pouco não teve sua presença na elite podada por conta da falta de garantias financeiras. O DNCG, órgão responsável pela análise das finanças das equipes francesas, só deu seu ok quando o GF38 recebeu um aporte de última hora.

À frente do clube, aparece o empresário japonês Kazutoshi Watanabe, proprietário da Index Holdings, do ramo de serviços de telefonia móvel. Dono de 99% das ações do Grenoble, ele não fala nem francês, nem inglês. Tais limitações com o idioma quase custaram a aprovação das contas pelo DNCG. A carta com a comprovação das garantias financeiras foi entregue ao órgão, que não entendeu lhufas: estava tudo em japonês. Daí a necessidade de um prazo extra para o acerto, enfim, ocorrer.

Às vésperas do dérbi regional com o Lyon, Watanabe compareceu ao treino para desejar boa sorte aos jogadores. Precisou de um intérprete para se fazer entender. A boa largada da equipe na Ligue 1 pode até esconder tantas dificuldades, mas aos poucos elas vêm à tona. E elas não se limitam apenas à barreira da comunicação. O próprio treinador Mecha Bazdarevic reconhece a falta de um projeto a médio prazo – e isso não se refere somente ao plano esportivo.

No começo de 2005, quando comprou o clube, a Index traçou como metas subir para a primeira divisão em até três anos e obter uma vitória na Liga dos Campeões nos próximos dez. A primeira foi cumprida, mas os custos começam a aparecer agora. “No começo de 2006, uma ação da Index valia € 1.540. Hoje, está cotada em € 62”, diz Pierre Mazé, presidente-delegado do Grenoble. Um claro sinal de como o dinheiro anda curto para Watanabe.

Não adianta lá muita coisa o GF38 contar com um estádio dos Alpes novo se os recursos para a montagem de um elenco com um mínimo de qualidade estão contados. A parte japonesa do clube não parece muito animada a colocar a mão no bolso para contratar alguns bons reforços. A empolgação dos primeiros jogos corre sério risco de dar lugar à frustração com o desenrolar do campeonato.

Hidetaka Ubagaï, diretor geral do Grenoble, disse que “não quer um modelo capitalista, no qual o dinheiro pode comprar tudo, inclusive estrelas do futebol”. Um discurso notório de quem vê sua empresa caminhar para uma crise. Para se manter na elite, primeiro objetivo da equipe, é necessário gastar, não há jeito. Por isso, a constatação de Bazdarevic soa forte, mas verdadeira: “o sucesso do time é um fogo de palha.”

Cogitou-se a abertura de capital para acionistas minoritários locais como alternativa para aliviar a saúde financeira do clube, mas dirigentes do GF38 recusaram a idéia. Enquanto a parte japonesa não der o braço a torcer e permitir uma integração maior com a parte francesa, as dificuldades só ganharão tamanho. Daí, voltar atrás será tarde demais; ainda há tempo para se assegurar um futuro sem tantas regalias, mas certamente melhor do que o quadro traçado neste momento.

Crise, já?

Com apenas três rodadas disputadas na Ligue 1, o Nantes pensa em fazer mudanças radicais. Os Canários, recém-promovidos à primeira divisão francesa, somaram apenas um dos nove pontos possíveis. Foi o suficiente para o presidente Waldemar Kita iniciar o processo de fervura do treinador Michel Der Zakarian. Com tamanha precipitação, o clube demonstra ter se esquecido das lições de quando caiu e lança as bases para a construção de um novo fracasso.

Um símbolo deste clima de incertezas quanto ao futuro próximo está em um detalhe da partida contra o Bordeaux. Na folha do jogo entregue pela equipe aos jornalistas, o nome reservado ao treinador estava em branco. Pode ter sido um mero esquecimento, mas Der Zakarian já sabia da pressão por obter bons resultados em um curto intervalo de tempo. Como eles não vieram, sua cabeça rolou.

Antes mesmo do confronto com os girondinos, os rumores sobre uma possível saída do técnico circulavam com força nos bastidores, independentemente do resultado do duelo. Os 2 a 0 para os Marine et Blanc apenas deram força aos argumentos dúbios de Lita, desejoso por um desempenho digno. “Não deixarei minhas mãos no bolso”, disse o presidente depois da segunda derrota em três jogos. Para quem sonhava em encontrar um mínimo de estabilidade, os sonhos se desfizeram de forma rápida demais.

Lita nunca escondeu sua desconfiança com relação ao trabalho de Der Zakarian. O presidente nunca foi fã de suas escolhas táticas, nem mesmo de algumas de suas atitudes com alguns jogadores. Se há este conflito, por que então o dirigente não demitiu o técnico antes do início da temporada? Garantida a promoção, haveria tempo para o novo treinador se ambientar, traçar os planos de preparação da equipe e para a contratação de reforços. Em vez da segurança, ele preferiu arriscar em nome de um ‘dever moral’ de manter no cargo o homem responsável pelo retorno à elite.

Agora, por conta do comportamento intempestivo de seu presidente, o Nantes corre o risco de ver sua temporada afundar pouco depois de começar sua navegação. Com a despedida de Der Zakarian dos Canários, simplesmente todo o planejamento do Nantes será jogado no lixo. Com o iminente fechamento da janela de transferências, o novo técnico terá que trabalhar com um grupo montado por outra pessoa, sem ter direito a uma mudança sequer. Ou seja, mais problemas pela frente.

Lita se enganou ao pensar que poderia criar um grande impacto logo de cara com a contratação de alguns bons nomes, como Alonzo, Klasnic, N’Daw e Gravgaard. A disposição do presidente em gastar dinheiro com reforços contrasta com sua impaciência e ambição, elementos perfeitos para um fiasco completo. O Nantes parece mesmo acreditar na história de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Coitado de quem estiver perto dos Canários quando vier a tempestade.
 

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