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Futebol

05/08 - 08:35

A Batalha do Aflito
Rafael Melo relata a polêmica decisão sobre quem ficaria com o título de um importante torneio

Trivela.com

O contra-ataque

Dessa vez, jogar seria arriscado, e contra a vontade de muita gente. O time inteiro fechou-se no mistério de como esconder o ouro de todo mundo.

Uma reunião fechada, literalmente às escuras. A primeira de muitas estratégias para fugir do óbvio e das luzes dos holofotes. E também dos microfones, dos curiosos, até mesmo dos próprios torcedores. Para se ter uma idéia da verdadeira operação de guerra montada: o horário da reunião, às singelas badaladas das duas horas da madrugada. Na casa do presidente do clube. Foram todos chegando aos poucos, soturnamente, quase como ladrões espreitando o alvo do roubo. E de táxi. Nada de carreata, amontoado de veículos parados num mesmo lugar. Atrair olhares desconfiados era a última coisa a se desejar. Mandaram ir com toda a família. A mansão lotou. E no horário de dormir, todos acordados, discutindo aos cochichos a melhor maneira de ludibriar praticamente todo um país.

Primeira decisão: os familiares ficariam em regime de clausura até o término da partida decisiva. Como num convento, porém misto. O calabouço: as instalações do próprio clube. Isso resultaria, naquele momento, em cinco dias de prisão “domiciliar”. Para os jogadores, a mesma coisa. Ninguém teria casa durante aquela semana. Pelo menos, não uma residência própria. Viveriam e conviveriam somente dentro dos limites do clube. Se a intenção fosse, por exemplo, unir um grupo, não haveria melhor solução.

Segundo: declarações públicas estavam banidas. Por qualquer pessoa envolvida com o clássico. Básico. Afinal, por muito menos, se proíbe os jogadores de falar. Logicamente, câmeras dentro do clube, gravações de treinos, coletivas... tudo cancelado até após a finalíssima. E finalmente, o terceiro: decisões e comunicados importantes sobre a partida, somente à noite, e fora dos limites do clube.

O melhor veio depois. A logística para o dia do jogo, um domingo que prometia ser chuvoso. O vôo sairia à meia-noite. Ônibus oficial da equipe nem pensar. A diretoria já havia arranjado a saída: táxi. No plural. Cada jogador, ou grupo de no máximo três atletas, chegaria ao aeroporto num táxi que seria devidamente chamado na hora da saída do clube-feudo. No aeroporto, estava descartada qualquer reunião de jogadores. Cada qual ficaria por si só pelas dependências do aeroporto, até o embarque na aeronave. E lá dentro, a ordem era ignorar um ao outro, como se fossem estranhos. O presidente falou em inimigos.

Em seguida, contrariando o que a lógica do futebol moderno e atual diria, a viagem seria de trem. Nada de ônibus, van ou até mesmo carro. A chegada à cidadezinha onde seria disputada a grande partida se daria pelos trilhos. Como era um município não muito grande, não havia aeroporto, e pelas vias normais, o trajeto restante seria feito em ônibus, em condições normais. Não era o caso. Jogar essa final transformou-se num feito épico, o que implicou até no abandono à praticidade. Depois do pouso, mais táxis até uma cidade vizinha, onde havia uma estação de trem para seguir viagem até o destino final. Não haveria estadia em hotel: o medo de intoxicação alimentar era cavalar. Fora o incômodo de torcedores rivais esperneando em frente à hospedaria, perturbando o sono de toda a delegação. O que estava acertado era uma parada, de algumas horas, nas dependências da equipe rival local, a qual topou sem pestanejar o acordo. Para ver o adversário conterrâneo sucumbir valia qualquer coisa.

Tática apresentada, a conferência do sono foi dissolvida. E de lá mesmo, naquele mesmo horário insólito, iniciou-se o confinamento no Centro de Treinamento. Algo que poucas pessoas tiveram a oportunidade de assistir, porém seria digno de filmagens: uma verdadeira mudança no miolo da madrugada. O C.T. nunca ficou tão movimentado às quatro da manhã. E, numa improvável, mas agradável novidade, não houve vazamento de informação. Sequer um flash clareou as sombras da sede do clube naquela noite. Sinal de que todos realmente fecharam num objetivo. Nada como um procedimento totalmente fora da rotina para tal. As pessoas gostam do inesperado.

Arqui-rival

Conhecido por hostilizar seus adversários, o outro candidato ao título tornou-se, ao longo dos anos, especialista em minar os ânimos dos clubes que o enfrentam em sua casa. As costas quentes de quem tem muito dinheiro e influência ajudava a deixá-la sempre acima de qualquer suspeita – e da lei. Afinal, o que é a política quando aliada ao verde que realmente manda, o verde-dinheiro?

As estratégias e realizações deste clube e de sua torcida contra a paz e sossego dos adversários tornaram-se tão conhecidas e corriqueiras que já faziam parte do folclore popular daquela cidade. Transformaram-se em lendas. Era tão rotineiro que não acontecer nada de estranho ao clube visitante era o anormal. Assim, o que se fazia país afora para perturbar e desestabilizar o time rival era travessura de criança perto do que o profissionalismo alcançado por este clube em particular. Destruir o próprio gramado, sumir com as bolas do campo, fazer cera, catimba... procedimentos amadores ali. A coisa começava bem antes, longe do campo. Equipes especializadas em provocar situações bizarras ficavam de plantão em diversos pontos, até mesmo fora da cidade, à espera da menor brecha que o adversário viesse a oferecer. Tanto que o apelido nacional empunhado a esse time específico era “merda no ventilador”. Sutileza bem sugestiva e insinuante, não? Aliás, logicamente, como uma organização terrorista, não assumia autoria dos crimes que “outros” supostamente cometiam. Poderiam até não ter envolvimento direto com os excessos cometidos, mas a lama também chegava à sala principal da sede.

O fato que unir lé com cré não passava pela cabeça das grandes autoridades esportivas. Assim, punições severas nunca ocorreram, no máximo, cala-bocas paliativos e bem aleatórios. Um ótimo incentivo para uma reação completamente fora dos padrões.

Bastidores

Os jogadores ganharam folga no dia da “mudança”. Mesmo porque, a noite não havia sido utilizada para dormir. O primeiro dia, e contando. O C.T. ficou às moscas. Ninguém levantou cedo. Ainda mais com a família próxima. Muito próxima, diria.

No segundo dia, uma rotina mais normal finalmente ocorreu, pelo menos até o fim da tarde. Treinos, almoço, broncas... Depois, confinamento nos quartos. A comissão técnica não aprovou: jogadores jovens, mulheres e/ou namoradas no mesmo recinto... E a verdade apareceu de imediato: o clube havia se transformado num motel após às seis horas da tarde. Ou num bordel, como preferir. Daí, a lógica manda reagir. O técnico ordenou, a diretoria fez cumprir, numa clara inversão de papéis: separação em alas, como num abrigo para menores. Homens (jogadores) isolados numa porção do C.T., filhos e principalmente mulheres numa outra. E a partir de então, as noites naquela sede passaram a assistir a cenas de colégio interno religioso. Na surdina, sombras transitavam pelos corredores da seção social do clube. Contornos escuros de todos os sexos, frise-se bem.

O rigor estava tão grande que a conexão com a Internet fora limitada por servidores próprios. Nenhum conteúdo saía sem aprovação prévia de um moderador. Aparelhos de gravação, fotografia e filmagem passaram a ser instrumentos de execração. Extintos do C.T., pelo menos naquela semana.

No sábado, véspera da aventura, nova reunião às pressas, logo depois do treino. Só com jogadores e comissão técnica: últimos detalhes para a viagem que teria início logo mais. As passagens foram distribuídas, e cada jogador ficou incumbido de chamar o seu táxi. Cada um em um horário diferente, em intervalos de cinco minutos.

Como aperitivo final, a perplexidade da imprensa, que passou a não ter notícia do seu time-vilão. E reclamavam mesmo na TV, falavam como torcedores, pelos torcedores, como se fossem porta-vozes deles. Acharam um absurdo a falta de informações e o literal isolamento da equipe. Divulgaram até que um detetive particular fora contratado pelo clube para investigar todas as possíveis ligações de interessados no fracasso do time. Uma ilusão que, depois, foi confirmada como verídica.

O dia do jogo

Os jogadores são conhecidos, não há dúvida. Mas, a tática da infiltração individual num ambiente superlotado funcionava. Salvando pouquíssimos esbarrões entre colegas de trabalho, todos agiram como se estivessem num velório. Roupas sóbrias, visual pouco chamativo. Mas o avião atrasou horrores. E no painel eletrônico, de todos os vôos, o único que chegou e decolou fora do horário foi aquele.

Duas horas de espera depois, um funcionário descuidado veio gritando pelo saguão de espera:

- Arrancaram os fios do painel, arrancaram os fios do painel – ele repetia, desesperado.

- De novo? – quis saber um superior. O raciocínio ficou evidente: todo o painel funcionava normalmente, exceto o vôo para aquela cidade, o único do painel. E se havia ocorrido mais de uma vez, significava que nenhum vôo para aquele Estado sairia no horário, uma vez que o painel não informaria a disponibilidade do avião. Aliás, nem ele nem o serviço de som.

Quando se procurou a companhia para conferir a situação, a novidade esperada: não havia avião algum fazia muito tempo. Ele decolara. Vazio. Daí, surgiu a figura do presidente do clube, e unido com mais passageiros do mesmo vôo, conseguiu obrigar a empresa a disponibilizar outra aeronave. Mas, o estrago já havia sido feito, e o atraso agora era irrecuperável.

Após horas de assentos duros no saguão, a delegação embarcou num vôo superlotado. No ar, a instabilidade climática de um mês inteiro reuniu-se em poucos minutos, atacando justamente aquele avião. Todo o calor derramado durante toda a semana no país inteiro sumiu em segundos para amedrontar os ocupantes do vôo. Dentro da aeronave, o grupo de passageiros mais mal educado já reunido. Foram freqüentes as reclamações de conversas em tom de voz muito alto, flatos, arrotos, crianças chorando compulsivamente. Após muitos sacolejos, estresses e mais atrasos, o avião pousou com extrema dificuldade no seu destino parcial, debaixo de um total dilúvio.

Ali ocorreria, para a diretoria, a etapa mais perigosa da jornada. Uma companhia inteira de táxi foi mobilizada para o transporte intermunicipal com antecedência, pois não havia tempo hábil para aguardar no saguão a quantidade suficiente de veículos aparecer na porta do aeroporto. Embora não havia sido informado o ponto final da viagem com os carros, alguém poderia simplesmente ter dado com a língua nos dentes. Era pagar para ver.

Ainda dentro da cidade onde o avião deixou os seus passageiros, os táxis, em comboio, enfrentaram um longo congestionamento, fruto de uma manifestação. Na pauta dos protestantes, as cores dos ônibus da cidade. Os taxistas queixavam-se copiosamente, revelando que aquele já era o quinto dia seguido de passeatas por motivos totalmente banais.Era maquiavélico: não faziam questão sequer de esconder a atuação deles.

Na estrada, em tenebroso estado de conservação, os trinta quilômetros que separavam o destino da chegada foram vencidos, com muita luta, em uma hora e meia. Os taxistas mostraram verdadeira surpresa com as péssimas condições da rodovia, pois uma semana antes haviam transitado por ela e estaria um “tapete”.

Com as poupanças assadas e quadradas, os jogadores entraram no trem aleatoriamente, dentre outros passageiros, e sem conversar entre eles. Por sinal, um trem de outro horário, pois o previsto já estaria no destino final àquela hora. Pelo cronograma oficial do clube, o atraso da delegação naquele ponto já era de mais de quatro horas. E ninguém havia dormido direito no avião. O jogo seria na noite daquele mesmo dia.

Num Estado agrário, o trem que servia cidades rurais só poderia ser rural também. Ou, pelo menos, a intenção era fazer crer nisso. Logo, galinhas, porcos e até jegues eram igualmente passageiros, e dividiram os assentos com os seres humanos que teimavam em utilizar aquela estrada de ferro também. Uma confortável viagem de uma hora e meia sonorizada pelo suave cacarejar de galos estafados e pelo grunhir harmônico dos porcos esfomeados. Claro que o aroma natural do trem era, assim como a música ambiente, desesperador. E, evidentemente, ninguém se atreveu a colocar nada no estômago. Primeiro porque o ambiente não ajudava. Daí, o W.O. seria por congestão ou infecção intestinal. E depois, o medo de passar mal com comida batizada havia contagiado toda a comitiva. Em suma, a delegação, além de sonolenta, estava faminta. A poucas horas do jogo.

A chegada à estação lembrou cenas de filmes de guerra. Uma estação deserta, em ruínas. A cidade, de médio porte, não contava com táxis. Mas, a diretoria tinha o plano B: o clube rival do adversário daquela noite. Prontamente, o transporte havia sido arranjado, e ninguém mais estava sabendo até então. No caminho, uma cena que todos gostaram de ver evitada: um panelaço à frente de um hotel encabeçado por torcedores do time contrário.

O saldo da saga havia sido positivo, mas não impediu que tudo ocorresse de novo. O resultado foi mesmo minimizar os prejuízos. Anulá-los seria façanha ainda maior.

Em segurança, o desembarque ocorreu na sede do time-anfitrião. Instalações mais modestas, mas ideais para o repouso depois de uma jornada atribulada como aquela. Ninguém treinaria, apenas uma discussão tática pela tarde. Mas, numa cidade não muito grande, as coisas não ficam escondidas por muito tempo: após o almoço, um passarinho contou a verdadeira localização do time visitante aos habitantes. E rumaram para lá, para a arte do incomodar, que sabiam tão bem empregar. Até polícia apareceu. Virou vale-tudo: de buzinas até alto-falantes, tudo isso misturado às vozes frenéticas dos torcedores rivais e das sirenes policiais. Mas, àquela altura, o incômodo foi pequeno, pois após o almoço ocorreu o treino tático, todos já haviam passado pelo seu período de repouso.

No horário planejado para deixar o clube, a surpresa foi uma boiada bem à frente do portão de saída do clube-hotel. Vaca empacada mesmo, junto com jumentos mais teimosos que o natural da espécie. Dispensar a manada foi trabalho pra leão. E uma eternidade passou-se. A saída deu-se a uma hora e quinze para o início programado da decisão.

No trajeto para o estádio, um inédito caos no trânsito, o primeiro que aquele arremedo de município viu. O fluxo exagerado e inesperado atrasou os visitantes em sua chegada ao palco da partida. Incontáveis os números de carros vazios nas ruas, supostamente quebrados, com pisca-alertas acionados. O objetivo, desde o início, era o W.O., não dá para negar. Mas, em cima da hora, os jogadores dos dois times estavam no gramado. E já lá dentro, não satisfeitos, tentaram de tudo: pane elétrica, excesso de faixas de papel no campo, apitos estridentes nas arquibancadas, invasão de campo...

O jogo não terminou. Que novidade, não? O árbitro, inseguro desde o início, viu que o clima de guerra vinha de longe (não só na distância, mas no tempo também), e nem esperou o tempo mínimo regulamentar para validar uma partida ser atingido. Suspendeu o jogo e relatou os fatos ocorridos na súmula. Já o presidente do clube perseguido preferiu o boletim de ocorrência. E avisou que toda a saga havia sido totalmente filmada e fotografada secretamente, por profissionais de confiança contratados por ele mesmo, em pessoa.

Uma audiência jurídico-esportiva foi agendada para alguns meses depois. Novamente, em mais uma tática de esconde-esconde, o “time-vítima” dispensou até os advogados. Ninguém imaginava que tipo de defesa a diretoria do clube havia preparado para a ocasião. Nem mesmo os jogadores. Só se comentava dentro das paredes da sede da equipe que não seria nada convencional.

E a vez do clube na audiência chegou. Sem cerimônia, o presidente pediu um projetor e uma tela branca ao fundo, atrás do auditor.

- Com vocês, em primeira mão, a pré-estréia do filme “Escondendo o jogo” – ele anunciou. E qual não foi a surpresa de todos que lotavam o fórum acompanhar toda a rotina, sem atores, de um clube inteiro para despistar os olhos do adversário. Um atestado documental da trapaça. E parece que só precisavam mesmo era da prova material.

- Condeno todos os participantes desse complô, e sem prejuízo da lei penal! – sentenciou o auditor. Mas, ficava a dúvida principal:

- E o campeão, senhor? – alguém gritou do bloco de jornalistas que acompanhavam o evento. A conclusão do auditor mostrou claramente como a banda tocava, apesar da decisão inaugural.

- Declaro campeãs ambas as equipes!

 

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