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Futebol

31/07 - 07:50

Edu Dracena considera safra atual de zagueiros como a melhor do Brasil
Em entrevista exclusiva, zagueiro do Fenerbahçe também criticou o torcedor brasileiro e exaltou Vanderlei Luxemburgo

Por Bruno Pessa, do iG Esportes

ISTAMBUL (Turquia) – Aos 26 anos, o experiente zagueiro Edu Dracena, do Fenerbahçe, reconhece que a disputa por uma vaga na zaga da seleção brasileira está cada vez mais árdua. “Esta é a melhor safra de zagueiros que o país já teve”, avalia o jogador, um dos brasileiros do elenco da equipe turca, que ficou entre as oito melhores do continente na última Liga dos Campeões da Europa.

Revelado pelo Guarani (SP), em 1995, o zagueiro teve rápida passagem pelo Olympiacos, da Grécia, em 2002, e chegou à vitrine do futebol nacional com o desempenho no Cruzeiro, onde foi campeão brasileiro em 2003 e permaneceu até 2006. Desde então, faz parte do elenco do Fenerbahçe, tendo contrato até 2010.

Eliminado pelo Chelsea nas quartas-de-final da Liga dos Campeões de 2007/2008, o Fener começou bem sua caminhada na edição atual do torneio. Nesta quarta-feira, bateu em casa o MTK, da Hungria, por 2 a 0, no primeiro jogo da segunda eliminatória. O futebol turco foi apenas um dos assuntos da entrevista exclusiva concedida por Dracena ao iG Esporte, reproduzida abaixo:

Você fez parte da seleção que disputou o Pré-Olímpico para Atenas e conhece bem a situação. Quais erros o Brasil precisa evitar para voltar com o ouro em Pequim?
O Brasil sempre entra nas competições como favorito, o que acaba atrapalhando. Então tem que deixar esse favoritismo de lado para buscar a medalha. Qualidade técnica e competência os jogadores e a comissão têm, então é só isso mesmo, deixar de lado todo esse favoritismo para ganhar essa medalha inédita.

Sente que abriu mão da seleção brasileira quando optou por jogar na Turquia?
Coloquei tudo isso na balança quando recebi a proposta do Fenerbahçe, pesei muito em termos de seleção, convocação, mas acho que a decisão foi correta, estou muito feliz aqui na Turquia. O futebol turco está crescendo a cada ano que passa, aqui tem uma estrutura muito boa, e depois o Dunga começou a dar oportunidade aos jogadores que não estavam nos grandes centros, como Turquia, Rússia, Ucrânia, então fiquei em evidência novamente.

Acha necessário deixar o país para ser convocado com maior freqüência?
Não, tanto é que quando você joga no Brasileirão está sendo visto em todos os jogos, na quarta e no domingo. Cabe a você render o necessário para ser convocado, independentemente de estar na Europa ou no Brasil. Quando tiver a chance você tem de aproveitar o momento e a chance que o treinador lhe dá.

Há ótimos zagueiros aparecendo no futebol brasileiro, como Breno, Léo, Thiago Silva e Alex Silva. É nossa melhor leva de zagueiros em muito tempo? 
Creio que é a melhor safra de zagueiros que o país já teve, haja vista os nomes citados e os zagueiros que estão na Europa. O Brasil está muito bem servido de zagueiros, você pode contar 10 jogadores com nível para ser titular da seleção, ainda bem, pois isso é bom para o treinador, que tem mais opções para levar à seleção.

Se a briga pelas camisas 3 e 4 da seleção é pesada, a 9 tem poucos candidatos. Por que temos tantos bons zagueiros e tão poucos novos atacantes?
Há alguns anos, o Brasil estava bem carente de zagueiros e com bons atacantes. Isso é fase, às vezes o jogador é convocado para a seleção e não consegue render o que sabe, às vezes o momento não está sendo bom para ele, tudo isso acontece, mas acho que no Brasil, a cada ano que passa, surgem novos jogadores e jogadores de qualidade.

O zagueiro uruguaio Diego Lugano fez história no São Paulo e mesmo longe do Brasil segue como ídolo de muitos torcedores. Vocês têm amizade fora de campo? Quais seus melhores amigos dentro do elenco?
Temos uma amizade muito boa, tanto dentro quanto fora de campo. Lugano é uma pessoa extraordinária, no Brasil a gente só jogou contra, mas a convivência no dia-a-dia com ele está sendo ótima, já são dois anos jogando e vivendo juntos, nos damos muito bem. Aqui a gente se dá bem com todos os brasileiros, consideramos o Lugano e o (volante chileno Cláudio) Maldonado como brasileiros, não tem nenhum tipo de problema ou vaidade aqui não.

Entre os atacantes que você já enfrentou, qual o mais difícil de marcar?
Enfrentamos vários atacantes bons, mas o (sueco Zlatan) Ibrahimovic (da italiana Inter de Milão) foi o mais difícil, na minha opinião. Não é porque ele tem algo diferente ou especial, mas é difícil marcar um jogador alto e forte, como ele é, que também seja rápido e com técnica. Às vezes você pega um jogador rápido mas sem muita técnica, ou alto e forte que só se dá bem com bola alta. Ele não, ele reúne todas essas características, técnica, cabeceio e protege bem a bola.

A ótima campanha na última Liga dos Campeões faz com que todos olhem e esperem mais do time daqui para frente. Como lidar com essa pressão?
Estar bem cotado na Liga para a gente está sendo bem legal, o presidente contratou jogadores (como o atacante Güiza, artilheiro do último Espanhol), trouxe o técnico campeão europeu (Luis Aragonés), e vai ser assim, a cobrança será maior do que foi no ano passado. Neste ano temos a obrigação de passar pela fase de grupos, mas o elenco está lidando bem com isso, treinando forte. A gente espera não apenas repetir a campanha do ano passado, mas melhorar um pouco mais para colocar a Turquia numa boa posição no cenário europeu.

O futebol turco já conseguiu mostrar serviço na Liga dos Campeões e foi muito bem nas últimas Copas do Mundo e Eurocopas. Os turcos podem se firmar como potência européia ou ainda está longe disso?
Longe não está, está crescendo ainda, a cada ano que passa a liga turca vai se fortalecendo. O fato de trazer jogadores de fora acaba melhorando bastante o desempenho dos jogadores turcos, com uma liga mais forte faz os jogadores aprendem mais e melhoram, por isso o futebol turco vem melhorando. Tenho certeza de que daqui a uns anos a Turquia vai dar trabalho para muitas seleções européias.

Vendo a torcida turca, ela se parece com a brasileira, na paixão pelo futebol. É assim dentro e fora de campo? O assédio é intenso?
Eu acho que a torcida turca é até melhor que a brasileira, o pessoal aqui é muito mais fanático e respeita mais o jogador; eles admiram, tratam bem, independentemente se o time ganha ou perde. Se você ganha um jogo no Brasil você é o melhor, mas se perde é o pior, não pode sair com a família em um restaurante, um shopping, que já é xingado. Aqui o pessoal te trata diferente, te vê como ídolo mesmo, não tem nenhum problema.

Como vocês brasileiros lidam com o idioma turco?
Temos um intérprete, mas como no ano passado a comissão técnica era toda brasileira, a gente é que começou a ensinar o português ao pessoal, alguns jogadores aprenderam um pouco do português. Mas a gente vai aprendendo o turco aos poucos, tem o intérprete para ‘salvar’ quando necessário, e salva mesmo, porque é difícil, às vezes você fala umas palavras em turco, outras em inglês, quando precisa só do turco o intérprete ajuda. 

Qual o melhor técnico com quem você já trabalhou e com qual gostaria de trabalhar? Prefere o estilo tranqüilo do Zico ou linha-dura do (Luis) Aragonés? (o brasileiro dirigiu o Fenerbahçe na última temporada, sendo substituído pelo espanhol)
O melhor foi Vanderlei Luxemburgo, tive a oportunidade de trabalhar com ele no Cruzeiro, ganhamos tudo que disputamos em 2003. Ele te passa confiança, é um treinador vitorioso, pelos títulos que têm, não é à toa que está há muitos anos treinando e sendo campeão. Só a presença dele já te motiva mais, te traz força, você sabe que com ele você vai ganhar. E ele cobra mesmo, tanto nos treinos quanto nos jogos, é a filosofia dele, às vezes você toma mais dura nos treinos, aí já coloca isso na cabeça e a coisa deslancha.

Não tive chance de trabalhar com o Felipão (Luiz Felipe Scolari), mas espero ter essa oportunidade algum dia, assim como com os grandes treinadores da Europa, que estão em alta hoje. Não tenho isso de preferir trabalhar com este ou aquele, cada um tem sua maneira de ser, agir e trabalhar, e a gente tem de se adequar à maneira de pensar do treinador e agir de acordo com o que ele pede. O modo de trabalhar do treinador conta, mas se o jogador não quiser fazer o que é pedido, de nada adianta. O jogador tem que querer, acreditar no trabalho do treinador, acreditar nele próprio e ir em busca do objetivo traçado. 


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Arquivo/AP

"Aqui você é respeitado"
Zagueiro está contente com o Fenerbahçe e a torcida turca, que apóia o time até nas derrotas

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