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Futebol

29/07 - 08:39

A primeira vez num estádio de futebol
Diego Renan conta como foram suas sensações em seu primeiro jogo in loco

Trivela.com

SÃO PAULO - Ainda me lembro como se fosse ontem a primeira vez que fui ao estádio. Lembro que aquele dia estava calor, próximo a 40 graus, mas nada como um banho gelado e a ansiedade para ver os meus ídolos de perto pela primeira vez, cada um deles estaria a aproximadamente 10 metros de mim.

Então fomos eu e meus amigos pegar um dos três ônibus (além do metrô) para o estádio. O caminho do primeiro ônibus até o metrô foi tranqüilo, fomos comentando sobre o clássico que iríamos ver, sendo que para alguns de nós (inclusive eu) seria o primeiro jogo no estádio, primeiro clássico, sendo que tive de esperar ter 15 anos para meus pais deixarem eu ir em virtude da violência dos estádios. Fiz 15 anos e eles deixaram, mas esqueci de mencionar que era um clássico, aliás, pensando bem, não esqueci não, apenas omiti o fato de que era um clássico. Nunca devemos desrespeitar nossos pais, mas acabei fazendo isso pois meus amigos falaram que não tinha perigo.

Deixando a lição de moral que aprendi da pior maneira, lá estávamos nós indo para o estádio, tirando o trânsito alucinante e a vida caótica de uma grande metrópole estávamos animados e aquilo não nos incomodava, pois tudo era belo e tudo estava ótimo, mas isso foi até ver o estádio pela primeira vez. Aquela obra prima que lembrava a beleza e o espetáculo do coliseu de Roma, onde os gladiadores da bola travariam uma batalha pela vitória enquanto a multidão vibrava, mas o que era aquela gigante fila? A fila da bilheteria.

A bilheteria estava com uma fila gigantesca. A maior aglomeração de pessoas que já tinha visto e mesmo assim tinha alguns guichês fechados. Se entrássemos naquela fila só conseguiríamos comprar o ingresso quando a partida acabasse, mas a salvação foi um senhor que estava vendendo ingressos que cobrava o dobro do preço.Ele sabia que não tínhamos escolha. O dinheiro da pipoca e do refrigerante tinha se acabado, tudo bem.

No caminho para a bilheteria fui acordando para a realidade: pessoas cobrando preços absurdos por alimentos, pessoas jogando o resto desses alimentos e embalagens no chão, pessoas revirando esse lixo em busca de um sustento. Nesse momento me senti mal, pois lá estava eu, contente e alegre, me divertindo, enquanto pessoas estavam lá em busca de comida e outras exibindo placar em frente de suas propriedades: Estacionamento: 5 reais (exceto em dias de jogos: 50 reais).

O caminho para o portão do jogo era longo, porque além de estar desviando das pessoas na calçada e agradecendo pelo que ofereciam no trajeto, fomos obrigados a ir para o meio da rua e ficar atentos com os carros que passavam O portão tinha finalmente chegado e mais uma fila pela frente.

A fila até que correu rápido, era onde os policiais revistavam os torcedores e também agarravam pessoas. Agarravam pessoas? Sim, um rapaz tentou entrar e o ingresso dele era falso, então ficou visivelmente nervoso, pois perderia o espetáculo e, principalmente, o dinheiro. Ele não havia comprado na bilheteria por causa daquela fila enorme e foi 'obrigado', como nós, a comprar de um cambista. Felizmente nossos ingressos passaram, mas ficamos muito preocupados que fossem falsos, poderia ter sido conosco.

Entramos finalmente no estádio faltando 15 minutos para o início da partida, mas sempre tem um indivíduo que tem vontade de fazer o famoso 'número um' antes do espetáculo. Reparei que por causa da minha ansiedade não havia notado que também estava com vontade de usar o banheiro. Lá dentro tinha uma fila para usar os vasos sanitários e o chão estava ensopado e muito sujo pelo fato das pessoas pisarem com o calçado sujo na água. Infelizmente aquele líquido não era incolor, mas sim amarelo, pois alguns indivíduos estavam urinando no chão em vez de aguardarem na fila. Eu esperei a fila andar e usei o banheiro, mas na hora de lavar a mão não tinha água. Sorte que tenho boa mira.

O jogo estava prestes a começar. Estávamos na arquibancada superior, muito longe do campo e dava a sensação de que estávamos vendo pela televisão. Faltava pouco para começar e os torcedores cantando músicas de incentivo ao time, algumas tinham palavras ofensivas para o time adversário, infelizmente isso já é normal em nossa cultura.

Na partida teve muitas emoções, bola na trave, pênalti não marcado, defesas incríveis dos dois goleiros, uma pena que não saiu do 0 a 0, estávamos com sede, pois um copinho de água era 2 reais e uma esfiha + um kibe e um doce era 5 reais, o jogo acabou, mas o medo estava apenas começando.

Mal dava pra andar pois todos saiam ao mesmo tempo. Então fomos cortando por algumas ruas e estávamos no meio da torcida adversária. Ficamos de boca fechada e ninguém comentava sobre o jogo, até que viram um rapaz com uma calça laranja (uma das cores do meu time) e começaram a chutar o rapaz e bater nele, mesmo ele dizendo que torcia para o mesmo time deles e estava acompanhado da namorada. Não ligaram para isso e o rapaz saiu correndo de lá até uns policiais que nada fizeram, ao menos os agressores não tiveram coragem de fazer mais nada.

Poderia ter sido com qualquer um de nós aquilo, a sorte é que nenhum de nós estávamos vestido com qualquer peça de roupa que lembrava as cores do nosso time.

Após este fato isolado as coisas correram razoavelmente tranqüilas, tirando o congestionamento e o ônibus completamente entupido com a porta aberta. Ao chegarmos no último ônibus já era mais de 1h da manhã e não tinha mais. Tivemos de dividir um táxi.

Depois de tudo isso valeu a pena? Não, era melhor ter visto em casa e a partir de hoje terá de ser assim, quem sabe as autoridades responsáveis de nosso país dê maior segurança e condições de vida para o povo e os dirigentes dos clubes tenham mais respeito com seus torcedores, oferecendo preços justos e comodidade. 

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