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Futebol

24/07 - 08:11

Há males que vêm para Gales
Sem o aposentado Ryan Giggs e num dificílimo grupo, o País de Gales, longe das Copas há 50 anos, tem poucas chances de interromper o jejum

Trivela.com

SÃO PAULO - Neste ano de jubileu de ouro do primeiro triunfo do Brasil em Copas, os gols daquela mágica jornada, protagonizada por craques da estirpe de Pelé, Didi e Garrincha, já foram revisitados à exaustão. Um dos mais vistos e revistos foi o de Pelé contra o País de Gales, o primeiro de seus 12 em Mundiais. Esse lance, que será para sempre lembrado como aquele que marcou a aparição de um gênio, também teve um lado negativo, pelo menos para os galeses – eles jamais voltariam a disputar uma partida de Copa depois daquela derrota por 1 a 0 nas quartas-de-final de 1958.

Depois de superar o País de Gales, o Brasil venceria aquela Copa e outras quatro. Já o adversário eliminado nunca passaria novamente no teste das Eliminatórias, embora tenha chegado muito perto de fazê-lo nas qualificações para 1978, 1982, 1986 e 1994, com a ajuda de Ian Rush, Neville Southall, Mark Hughes, Dean Saunders, Ryan Giggs e outros expoentes do futebol galês. Daí em diante, as campanhas de Eliminatórias foram fracas, mas ainda havia Giggs. Para 2010, não mais. O anúncio de seu afastamento, em maio de 2007, fez a distância entre Cardiff e a Cidade de Cabo aumentar alguns milhares de quilômetros.

Meses mais tarde, outra notícia ruim: o sorteio das chaves das Eliminatórias européias punha o País de Gales ao lado de Alemanha, Rússia, Finlândia, Azerbaijão e Liechtenstein. Se, antes da Euro 2008, o grupo já parecia muito difícil, depois, com a boa impressão deixada pelos comandados de Guus Hiddink na competição, teve-se a certeza. Para ir à África do Sul, o País de Gales precisa alcançar um impossível primeiro lugar, que lhe daria a vaga direta, ou uma improvável segunda colocação, que pode levar à repescagem.

Com o time que tem, Gales deve conseguir, no máximo, a terceira posição, que não leva a lugar nenhum. Ainda assim, a tarefa não é das mais simples, visto que a Finlândia deu trabalho nas eliminatórias da Euro 2008, lutando pela classificação até a última rodada. Caso termine a disputa em quarto lugar, a seleção galesa já terá feito mais do que nas Eliminatórias para 2006, quando ficou à frente apenas do Azerbaijão (que reencontra agora), e atrás de Inglaterra, Polônia, Áustria e Irlanda do Norte. À época, o técnico já era o ex-jogador galês John Toshack, até hoje no cargo.

Toshack, que formou um famoso duo ofensivo com Kevin Keegan no Liverpool dos anos 70, viveu suas melhores experiências como técnico na Espanha. Sagrou-se campeão espanhol com o Real Madrid, na temporada 1989/90. No comando da seleção de seu país desde novembro de 2004, tem procurado remoçá-la, dando oportunidades a vários jogadores jovens. Na opinião de alguns críticos, esse processo de renovação não tem sido conduzido da melhor forma, pois Toshack estaria promovendo estréias precoces e privando a equipe de experiência de jogadores como Robbie Savage (Derby County) e Danny Collins (Sunderland). Para se ter uma idéia, a média de idade dos jogadores presentes na mais recente convocação de Toshack não passava da casa dos 22 anos.

Há de se considerar, porém, que não há muitos bons jogadores galeses na faixa dos 25 aos 30 anos, o que estaria obrigando o treinador a lançar mão da garotada. Craig Bellamy, Danny Gabbidon e Jason Koumas, todos com 28 anos e algum talento, são exceções à entressafra que veio após a geração de Gary Speed e Ryan Giggs (ambos ainda na ativa, mas aposentados da seleção). Mesclá-los com promessas do calibre de Gareth Bale (ala canhoto do Tottenham, 19 anos), Chris Gunter (beque do Tottenham, 18 anos) e Aaron Ramsey (meia de 17 anos arrebatado pelo Arsenal no mês passado) é, na visão de Toshack, o caminho certo para o time galês. Não deve funcionar até 2010, mas pode render bons frutos para 2014 e 2018.

O problema é que John Toshack ocupa o posto de selecionador galês há quase quatro anos e ainda não alcançou nenhum resultado satisfatório. Uma espera até as próximas Eliminatórias talvez extrapole o que se convencionou chamar de “crescimento a longo prazo”. Principalmente se levarmos em conta que, quando Toshack assumiu o emprego, o País de Gales vinha de ótima campanha nas eliminatórias para a Euro 2004, durante a qual chegou a vencer a Itália. O time, então treinado por Mark Hughes, só não pôde ir a Portugal porque, em um play-off contra a Rússia, deixou a vaga escapar. Na ocasião, o doping do russo Yegor Titov gerou muita celeuma, mas não alterou o que havia sido decidido em campo. A seleção galesa tem, agora, a chance de acertar as contas com a Rússia. Mas que hora, hein...

A polêmica da grama artificial

Ao menos uma coisa no Grupo 4 das Eliminatórias européias parece favorecer o País de Gales: a tabela. A disputa começa em setembro, com um jogo em casa contra o Azerbaijão, seguido de uma viagem a Moscou. Em outubro, o time galês pega Liechtenstein em Cardiff e a Alemanha fora. Em março de 2009, recebe a Finlândia. Como se vê, o primeiro turno não poderia ser mais generoso: jogos fáceis em casa e os mais difíceis no terreno inimigo. Se não vacilar em seus domínios e conseguir roubar algum pontinho de Alemanha ou Rússia, o time de Toshack parte para o segundo turno com pontuação e confiança altas.

O primeiro compromisso fora de casa, contra a Rússia, será realizado no Lokomotiv Stadium, no dia 10 de setembro. Na semana passada, a federação russa aventou a possibilidade de mandar a partida no Luznihki Stadium, cujo gramado é artificial. Nesse piso, os russos surpreenderam a Inglaterra nas eliminatórias da última Euro. A hipótese deixou os galeses em polvorosa. Falou-se no jeito estranho de a bola quicar, no perigo de contusões e nas desvantagens de quem não está habituado. E, claro, tinha que aparecer alguém para dizer que a Rússia estava com medo do País de Gales. Esse alguém foi o meia Carl Robinson, um dos remanescentes do controvertido play-off pré-Euro 2004.

No fim das contas, a Rússia abandonou a idéia de jogar no Luznihki e confirmou o Lokomotiv Stadium como palco do embate.

Em 50 anos, muitos “quases”

O cinqüentenário da ausência do País de Gales em Copas não estaria acontecendo se a seleção galesa tivesse aproveitado uma das quatro claras oportunidades que teve para quebrar o jejum.

Essa história de frustrações se inicia em 1977. Animada por uma contundente vitória (3 a 0) sobre a então campeã européia Tchecoslováquia, a seleção galesa, com John Toshack no ataque, encararia a Escócia num jogo-chave, cujo vencedor ficaria numa situação confortabilíssima para ir ao Mundial de 1978. Como o estádio Ninian Park, em Cardiff, estava descartado por conta de tumultos em jogos anteriores entre seleções, a federação do País de Gales resolveu levar o mando de campo do duelo com a Escócia em Anfield, embora contasse com a opção de Wrexham, cidade galesa. Motivo: público maior, mais dinheiro em caixa.

Acontece que os escoceses compareceram em massa à casa do Liverpool, deixando os galeses espremidos num canto. A pressão da torcida acabou tendo alguma influência no placar da partida – aos 78 minutos, na área galesa, o atacante escocês Joe Jordan e o zagueiro galês David Jones disputaram uma bola no alto, e o árbitro francês Robert Wurtz deu pênalti, alegando toque de mão de Jones. Don Masson bateu e fez 1 a 0. Dez minutos depois, Kenny Dalglish ampliou. Os derrotados até hoje garantem que foi Joe Jordan o autor da “cortada”, e imaginam que o árbitro teria agido diferente caso o jogo tivesse sido realizado em solo galês.

As Eliminatórias para a Copa de 1982 também foram bastante doloridas para o futebol galês. Após um começo excelente (quatro vitórias em quatro jogos), vieram dois empates e duas derrotas, a última delas para a União Soviética (3 a 0). O País de Gales encerrou sua participação com o mesmo número de pontos da Tchecoslováquia, mas com um saldo de gols inferior, o que acabou determinando seu fracasso.

Quatro anos depois, uma desclassificação com ingredientes de dèja vú: jogo decisivo contra a Escócia, toque de mão discutível, gol de pênalti a poucos minutos do fim. O confronto acabou empatado e tirou do País de Gales a chance de disputar um play-off contra a Austrália. A Escócia foi em seu lugar e conseguiu a vaga para o Mundial do México.

Remonta a novembro de 1993 a última grande chance perdida pelos galeses. Carimbar o passaporte para os Estados Unidos dependia de uma vitória em casa sobre a Romênia, na última rodada. Quando o jogo estava empatado em 1 a 1, houve um pênalti a favor do País de Gales. O sonho bateu literalmente na trave, após a cobrança de Paul Bodin. Num contragolpe, a Romênia fez 2 a 1. Bom, pelo menos não ficamos sem o Hagi em 1994.

Com alguns dos maiores jogadores de sua história, o futebol galês falhou em momentos cruciais, desperdiçando chances concretas de disputar um Mundial pela segunda vez. Hoje, com uma geração bem mais modesta, só um milagre resolve.

 

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