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Futebol

21/07 - 08:27

"Somos vistos como sujeitos ordinários"
Dave Roberts, agente licenciado pela FIFA, conta sua rotina na Ásia

Trivela.com

Dave Roberts, agente licenciado pela FIFA, é um tipo que pode passar horas falando sobre suas experiências e andanças pela Ásia. Ex-árbitro e também membro da equipe de esportes da ESPN Soccernet, ele compartilhou com a Trivela um pouco de sua vivência como representante da Global Sports Group em solo asiático. Entre as histórias mais hilárias, o inglês relata:

“Um agente estava dirigindo um ônibus cheio de africanos pela Malásia. Ele estava tentando arranjar amistosos com equipes profissionais na esperança de que seus jogadores assinassem com algum clube”. Imperdível!

 

Você vem com muita freqüência ao Brasil observar jogadores e fazer contatos?

É um dos meus países favoritos, passei a gostar mais ainda quando Juninho, Branco e Emerson atuaram no Middlesbrough, time que torço. Eu acompanhei muito o futebol brasileiro no ano passado como parte da equipe de comentaristas da ESPN na Ásia. Existe um pedaço do Brasil no meu coração.

Mas você vem a negócios aqui?

Não com a freqüência que eu gostaria. A Global Sports Group tem uma equipe baseada aí na América que cuida dos nossos negócios. Eu confio nas recomendações deles, se eles me contam que um atleta é bom, pra mim é o suficiente.

A Global Sports Group tem algum diferencial operacional e metodológico?

Nós trabalhamos de forma diferente de outros agentes, operamos mais com qualidade do que com quantidade, o que significa um pequeno número de jogadores. Muitos assinam com vários atletas, se é bom pra eles, ok. Nós da Global damos o tempo e o respeito que os jogadores precisam, trabalhamos pra eles. Não somos apenas uma fábrica de jogadores.

Como é a rotina de um agente na Ásia?

Eu passo muito tempo conversando com jogadores, técnicos e gente ligada a organização das ligas. Tem muitos técnicos que me pedem conselhos e jogadores, sinal de que sou confiável. A confiança é uma coisa difícil de desenvolver no mundo do futebol, agentes são vistos como sujeitos ordinários.

Principalmente os que não têm licença.

Eu sei que muitos licenciaram e tem outros sem licença que apenas querem ganhar comissões. Eles farão qualquer coisa para segurar isso, inclusive mentir para jogadores e vende-los ilegalmente. Isso torna a função muito dura de exercer porque quando você lida com um novo treinador ou um novo clube você nota que eles são muito desconfiados. Eu costumava me doer só de pensar que alguém não confiasse em mim, mas agora me tornei mais firme com isso e continuo trabalhando. Um dia típico envolve chamadas de técnicos, atletas e outros agentes que querem saber se existe qualquer abertura no mercado para jogadores. Como nossa base é nos EUA, é comum eu fazer ligações ás 4 da manhã, por exemplo.

Quais os países asiáticos que contam com os dirigentes mais profissionais?

Existem coisas boas e ruins em todos os países. Alguns são melhores que outros, é como a vida, tem boas e más pessoas. Eu tenho muito respeito por Cingapura. É apenas um país de 4 milhões de habitantes, mas operam sobre futebol de forma muito profissional. Clubes, jogadores e até mesmo os árbitros são rigidamente administrados. Eu já fui árbitro na S-League. Eu também me dou bem com profissionais da Índia e da Malásia.

Quantos jogadores você representa na Ásia?

Em torno de 12 jogadores, trabalho diretamente com eles e outros que eu conheço e sempre falo. São de várias partes: Macedônia, Chile, Guiné, Burkina Faso, Zâmbia, Inglaterra, Dinamarca e Austrália, bem como asiáticos também. Um brasileiro que conheço bem é Peres de Oliveira. Eu empreguei ele na S-League. Nós tínhamos muitos momentos de humor dentro e fora de campo, ele ainda está em Cingapura. Atualmente estou atrás de jogadores da América do Sul, do Brasil em particular, para levá-los a Ásia. Eles se adaptam e trabalham muito bem fora.

Atualmente é crescente o número de estrangeiros provenientes da América e da África no Sudeste Asiático.

O grande fluxo vem da África. Isso tem causado um problema para os clubes, já que a quantidade absurda de jogadores africanos sendo sugeridos por agentes está diluindo a qualidade dos espaços disponíveis. Existem também muitos jogadores africanos se dizendo ser de qualidade internacional, mas na prática deixam a desejar. Os técnicos agora estão começando a olhar negativamente para os jogadores africanos que eles não conhecem, e essa é a vantagem dos sul-americanos. O que também está ajudando é a qualidade dos sul-americanos. O nivel na Ásia já é bom e os treinadores estão mais dispostos a trabalhar com jogadores que tenham boas referências.

 

Você recomenda qualquer jogador a atuar em países remotos da Ásia?

Eu recomendo os jogadores tentarem a Ásia. Tem muitas ofertas e os jogadores sul-americanos se adaptam muito bem. Eu tenho três jogadores chilenos em Ipoh, na Malásia. Eles adoram o ambiente. Carlos Cáceres marcou 25 gols pelo Perak FA e o zagueiro Mário Berríos está ganhando o prêmio de ‘man of the match’ quase toda semana. Eles estão adorando estar aqui!

O atacante africano Keita Mandjou, duas vezes artilheiro da Liga Malaia, rescindiu com o Perak FA e desapareceu, onde está ele?

É um dos meus jogadores. Ele foi substituído por Carlos Cáceres no Perak FA. Keita foi mal aconselhado a deixar o Perak FA, mas não foi dado o que foi prometido para ele. Eu ofereci ajuda a ele e recentemente o coloquei no DPMM Brunei, que disputa a Liga Malaia. Ele está adaptado e esta trazendo sua família para o Brunei e começará a nova temporada. Ele fará muitos gols novamente, sem dúvida.

Você esteve na última Copa das Nações da África. Foi proveitoso?

Eu estive em Gana durante toda a competição. Foi espantoso ver agentes de todas as partes ao meu redor. Alguns com seus jogadores e outros tentando desesperadamente assinar com algum. Eu não abordo um jogador assim do nada. Sou um agente da Global que estava lá simplesmente para ver os caras jogarem e observar como o futebol esta se desenvolvendo na África. É espantoso ver os jogadores ‘profissionais’ da Liga nacional de Gana treinando em campos sem grama. Existe um grande talento lá que ainda não foi descoberto. Nós voltaremos lá pra checar como os jogadores locais estão progredindo.

No Vietnã é comum jogadores africanos recebendo 500 dólares mensais.

Eu toquei neste assunto, do enorme fluxo de africanos na região. É verdade, alguns jogadores topam jogar pra ganhar quase nada. Te conto que um agente asiático estava dirigindo um ônibus cheio de africanos pela Malásia. Ele estava tentando arranjar amistosos com equipes profissionais na esperança de que seus jogadores assinassem contratos com algum clube.

E ainda tem clubes que assinam.

Pegue um sul-americano que ganha 8 mil dólares por mês e um africano que quer receber 1 mil e 500 dólares. Os treinadores mais responsáveis tomarão a decisão baseada no talento dos jogadores, entretanto, existem aqueles técnicos que se precipitam e pegam o barato e aí os resultados são catastróficos..

E os agentes aproveitam.

Existem agentes que trazem sul-americanos e africanos para a região de acordo com o salário oferecido pelo clube, mas retém uma larga porção desse dinheiro para si mesmo, bem como segurando qualquer assinatura e taxa. O jogador recebe muito pouco em relação ao que está sendo pago ao agente.

O que você aconselharia para um jogador que deseja atuar na Ásia?

É um lugar fantástico para jogar, meu conselho para os jogadores que estão pensando em vir é procurar saber primeiro como é a região, os clubes e os agentes. Pergunte aos jogadores que estão ou estiveram aqui para contarem suas experiências e se qualquer agente aparecer oferecendo o mundo, fiquem atentos...

 

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