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15/07 - 08:31

Outras Memórias de um Chimarrão
Fernando Martinho Filho conta como ficou Cavalcanti após um clássico

Trivela.com

No dia seguinte ao clássico, o silêncio. Ninguém saiu de casa. Nem as padarias abriram, nem as bancas de jornal. Até as rádios estavam fora do ar. Movimentação somente nos pastos fora da cidade. O dia mais frio do ano deixou sua marca. A geada se via no vasto capim esbranquiçado nos arredores de Cavalcanti.

O sol nascia na fronteira. Não esquentava. Parecia congelar ainda mais os pés e as mãos. Era impossível respirar de boca aberta, a sensação era de estar tomando água gelada de tão frio e úmido que era o ar. A ponta do nariz e as orelhas estavam duras.

A pergunta não podia ser feita. Ninguém estava lá pra responder. De repente se viu um gaúcho típico, vindo do leste pela estrada de barro, trazendo seu cavalo pelo cabresto. A viagem deve ter sido longa e preferiu poupar de seu peso o cavalo que vinha carregado.

Perguntado sobre o que acontecera no dia anterior no jogo, ele tentou fazer-se entender com palavras típicas da fronteira usada por ambos os lados, mas seu forte sotaque evidentemente do outro lado da fronteira, dificultou a conversa. O máximo que pôde dizer era que havia cruzado o rio e ido buscar leite e alimentos do lado de cá, pois sua vaca havia morrido pelo frio que chegara à região.

O clássico de desempate entre Fontanarrosa e Galeano, outrora tão badalado, não deixou vestígios pela cidade. Não havia nenhuma provocação, ou insultos nos muros da cidade. Cavalcanti era um deserto de almas. No estádio municipal, alguns poucos indicadores do que poderia ter acontecido. No gramado, apenas pequenas pedras e pedacinhos de madeira. Nada que nunca tenha sido visto. Do lado de fora do campo, tudo normal.

No entanto, o único objeto que causava estranheza era um chimarrão caído no canto da arquibancada. Seria a maior evidência de uma suposta tragédia. Essa gelada segunda-feira ficará registrada. Um dia insólito. Já é meio dia. O sol já aquece as paredes das casas e o calorzinho entra pelos ponches. Agora, se pode ver uns gurís nas ruas. Um deles grita ao outro:

- Tchê, tu sabes quando será o jogo de ontem?

- Bah, não tenho idéia.

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