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04/07 - 18:52

As lembranças de 1958, ano do título do Brasil em Copa do Mundo
50 anos após o Brasil levantar a taça da Copa pela primeira vez, o colunista do iG Alberto Helena Júnior conta o que lembra da bossa, das praias, dos programas de TV do ano de 1958

Por Alberto Helena Jr

SÃO PAULO - Salve, sedutora. Você nem havia sido projetada ainda, gatinha. Mas, sua avó, brotinho saliente, sonhava em tomar um banho de lua no Guarujá, de praias desertas e alvíssimas, mar transparente e ruas adormecidas ao som do toque-toque das charretes de aluguel, o transporte disponível para os poucos turistas que se aventuravam a enfrentar a travessia de balsa nesse ano de 1958.

Os que não podiam dar-se a tais luxos, paravam em Santos, ou, então, ficavam mesmo em São Paulo, cidade que respirava ainda ares europeus, antes da invasão avassaladora norte-americana. O chamado à época, de centro novo, lembrava um pedacinho de Paris, com seus cafés de cadeirinhas e mesas de vime espalhadas pelas calçadas, sob toldos de lona – ah, o Arpège, o Pari-Bar – na rua São Luís, na praça da Biblioteca, de onde partia-se para a Barão de Itapetininga e suas butiques sofisticadas, via rua Marconi, com seus edifícios de fachadas em mármore, ao pé de um dos quais plantava-se solene o supra sumo da elegância masculinas – a alfaitaria e camisaria Old England.

Sim, porque só naquele ano os jovens mais avançadinhos começaram a enfiar-se em camisetas e calças jeans, chamadas de jardineiras, verdadeiras armaduras de brim envernizado com as barras dobradas. Tudo por conta de James Dean e de Elvis, com seu rock nascente.

Ao som da Bossa Nova
Mas, já começava a bailar no ar os primeiros acordes da Bossa Nova, de João, Tom e Vinicius, aliviando os ouvidos mais sensíveis, tão castigados por chorosos sambaladas e boleros, além dos estridentes mambos, xaxaxás e demais breguices vigentes.

O som, porém, que se sobrepunha a todos era o da britadeira, do martelo, do caminhão misturando cimento, pois a cidade, ainda cortada por bondes, e pacata na sua divisão entre ricos e pobres, em que a miséria se concentrava em dois três pontos isolados – a tradicional favela do Vergueiro, a da Vila Nova Cachoeirinha e... E, só, creio.

O fato é que, em cada esquina, deparava-se com um tapume de madeira anunciando o prédio suntuoso que se ergueria em breve. O vetusto Martinelli, durante décadas aclamado como o mais alto prédio da América do Sul, desconfio, espiava aquilo tudo com um misto de inveja e desconsolo.

Plano e talento
Em meio a esse frenesi, esse momento macunaímico de ruptura e transformação, Paulo machado de Carvalho, dono da TV Record e das Emissoras Unidas de Rádio – Rádio Panamericana, a emissora dos esportes (hoje, Jovem Pan), Rádio São Paulo, o Vale de Lágrimas, assim denominada por ser o núcleo central das radio-novelas, e a Record, especializada em programas de auditório, musicais e humorísticos, chamou o técnico Vicente Feola e os jornalistas Paulo Planet Buarque, Flávio Iazzetti e Arí Silva. E pediu-lhes um plano para levar a Seleção Brasileira a cumprir um papel digno na Copa do mundo da Suécia.

O plano previa, entre outras coisas, pela primeira vez, uma comissão técnica composta por especialistas em cada área – um médico, Hilton Gosling, um preparador-físico, Paulo Amaral, um massagista, Mário Américo, um dentista, Mário Trigo, um psicotécnico, Carvalhaes, um supervisor para cuidar da logística, Carlos Nascimento, e um longo período de preparação em termas de Minas.

Feito isso, com dr. Paulo como chefe da delegação e Vicente Feola como técnico, partiu-se para a preparação da equipe. E deu-se uma base organizacional capaz de conferir suporte ao talento nato e insuperável do craque brasileiro, como Pelé, Garrincha, Didi, Nílton e Djalma Santos etc.

Deu no que deu: a primeira grande conquista do futebol brasileiro, com um time que combinava na exata medida raça, malícia, poder de se defender, arte na criação e potência no ataque.

Mas, como separar esse episódio de ouro da nossa história de todo o contexto que nos cercava e nos impelia naquele mágico ano de 1958.

Maria Esther Bueno iniciava seu longo reinado em Wimbledon, Eder Jofre abria com seus punhos adestrados o caminho para o primeiro título mundial do Brasil no boxe, o Cinema Novo dava seus primeiros passos, JK implantava a indústria automotiva e o Brasil respirava, pela primeira, talvez, em sua história, os ares da plena democracia.

Na verdade, desconfio que esse foi o ano em que Deus resolveu ser plenamente brasileiro. Nós é que, no desenrolar, não soubemos retribuir tal bênção.

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