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13/06 - 12:01

Exclusivo: Zico rejeita o Fla e promete vencer como treinador
"Não tinha pensado em ser treinador até passar pela seleção do Japão", confessou o comandante do Fenerbahçe, nesta entrevista exclusiva ao iG

Por Paulo Tescarolo, do iG Esportes

SÃO PAULO – Zico não gosta de comparações. "Acho sempre muito difícil", justifica. Não é questão de vaidade, o que seria perfeitamente compreensível. O que parece incomodar o técnico do Fenerbahce são as constantes referências ao tempo de jogador. Atualmente, sua mais complicada missão é se distanciar da imagem criada nos 33 anos que passou nos gramados.

Zico, o jogador, foi campeão estadual, brasileiro, sul-americano e mundial. É o maior jogador do Flamengo e um dos maiores do futebol brasileiro em toda a história. Mas esse tempo passou. Como técnico, Zico está apenas engatinhando. Já se tornou o primeiro brasileiro a conduzir um time às quartas-de-final da Liga dos Campeões da Europa, mas sabe que precisa ir além. E promete chegar lá.

Nesta entrevista exclusiva ao iG, feita por e-mail, Zico contou, entre outras coisas, que a nova carreira surgiu por acaso. "Não tinha pensado em ser treinador até passar pela seleção do Japão", confessou. Agora, completamente adaptado, ele só pensa em vencer. Mesmo que, para isso, tenha que se distanciar do clube de coração. "Vou confessar que nunca sonhei em trabalhar no Flamengo. Hoje, sou apenas um torcedor à distância. Só estou pensando em ir o mais longe possível na Liga dos Campeões".

Como está o ambiente em Istambul após a classificação? Como foi a chegada ao país após o jogo?
Foi uma grande festa, difícil de descrever, parecia que tínhamos conquistado um título. E foi um feito histórico mesmo, já que nenhum time turco havia conseguido ficar entre os oito na Europa. Fomos recebidos no aeroporto por milhares de pessoas, o trânsito da cidade parou. Vi fotos da festa em diversas cidades do país. Foi fantástico.

O personagem do jogo foi o goleiro Volkan Demirel. Ele falhou duas vezes durante o tempo normal, mas defendeu três pênaltis depois. O que você conversou com ele?
O Volkan é um goleiro experiente, que já passou por muitos momentos bons e ruins normais da profissão. Conversei no intervalo e disse que ele deveria ficar tranqüilo, pois já tinha sido muito importante para a equipe em outros jogos e todos confiavam nele. Antes das penalidades, falei novamente com ele que sabia que ele podia fazer a diferença para a gente. Ele foi lá e decidiu o jogo. Mostrou personalidade e coragem.

O seu time tem muitos brasileiros. Um deles é o Alex, que nunca conseguiu uma seqüência boa de jogos na Seleção. Você o sugeriria para o Dunga? Aliás, você identifica um pouco do Zico no Alex?
Já falei algumas vezes que admiro o Alex, acho o jogador brasileiro mais inteligente jogando bola em atividade, e que lamento que ele não tenha tido continuidade na seleção. Mas este é um assunto mesmo para o Dunga. O que vejo de semelhança é que ele joga como o 10, de referência. É o jogador que decide. Mas eu não gosto de comparações, acho sempre muito difícil. Prefiro dizer que há poucos no futebol mundial hoje com a visão de jogo e a qualidade técnica do Alex.

O fanatismo e a rivalidade no futebol aí são muito grandes. São maiores que no Brasil? Você consegue andar tranqüilo na rua?
São maiores que no Brasil, isso não resta dúvida. Chega em alguns momentos a parecer perigoso, fica violento o fanatismo. Mas não tenho problema para sair na rua. Ando normalmente, às vezes sou abordado, mas tudo tranqüilamente.

Seguindo essa linha, dá pra dizer que a idolatria da torcida do Fenerbahçe pelo Alex é maior do que a que a torcida da Udinese e a japonesa tinham por você?
Não sei mesmo dizer, ate porque são culturas diferentes de futebol. E, como já falei, não gosto de comparações. Alex é uma referência, mas com a chegada do Roberto Carlos, por exemplo, dividiu um pouco isso. Tínhamos o Tuncay, que era muito idolatrado pelas raízes no Fener. Enfim, não é possível comparar, mas o Alex conta muito com o carinho da torcida, sim, e é um grande ídolo do Fener.

Você pensa em continuar sua carreira de técnico na Europa ou preferea voltar ao Brasil? Se for para ficar na Europa, tem alguma preferência entre os grandes centros, como Inglaterra, Espanha e Itália?
Não vejo chance de trabalhar no Brasil. A profissão de treinador não é levada a sério, e minha proposta é outra. Não tinha pensado em ser treinador até passar pela seleção do Japão. Depois, o que me atraiu foi a possibilidade de poder desenvolver um trabalho de longo prazo, com estrutura boa. Essas condições não temos no Brasil, infelizmente. Nesse momento não estou pensando para onde vou. Estou pensando em ficar e ajudar o time a conquistar o bicampeonato nacional e ir o mais longe possível na Liga dos Campeões.

Aliás, o que achou do sorteio das quartas-de-final da Liga dos Campeões, que colocou o Fenerbahçe contra o Chelsea?
Não resta dúvida de que é um dos times mais experientes desta fase, tem jogadores como Cech, Drogba, Lampard, uma equipe muito forte e que chega mesmo como favorita. Mas nessa fase não daria mesmo para escolher adversário. Gostei porque vamos jogar em casa, que é o que eu mais queria.

Você ainda sonha algum dia voltar a trabalhar no Flamengo ou se desiludiu com o clube? Se pensa em voltar, em que cargo? E que "exigências" você faria para isso?
Vou confessar que não penso em nada disso neste momento e nunca sonhei em trabalhar no Flamengo. O Flamengo fez parte da minha vida de um jeito e, é claro, se um dia eu puder ajudar, estarei lá. Foram 20 anos dedicados intensamente, muito suor e muito sangue dados ao clube. Se um dia voltar a acontecer, não sei exatamente como será. Só sei que no jogo das estrelas do ano passado, ao sentir novamente o calor daquela torcida, eu percebi que, quem sabe, poderia um dia voltar a ajudar meu clube de coração. Mas, hoje, sou apenas um torcedor à distância.

Obviamente você deve fazer uso de um tradutor para se comunicar com vários jogadores. Isso não tira o impacto das instruções? Tem alguma história engraçada que tenha acontecido por conta de falhas na comunicação?
Já estava escolado porque no Japão era assim. Tenho a vantagem de ter encontrado aqui o Samet, um jovem apaixonado pelo clube e que aos poucos foi captando meu jeito de dizer as coisas. Temos muitos brasileiros, e sempre notei que a expressão do rosto, o gestual, o conhecimento de algumas palavras, isso tudo diz muito aos jogadores. Engraçado é que no começo eu usava expressões tipicamente brasileiras e deixava o Samet louco para traduzir. Mas hoje ele está acostumado. E os resultados mostram que o pessoal esta entendendo.

Você já disse que num certo sentido era fácil dirigir os jogadores japoneses, porque eles eram muito disciplinados. Os turcos têm alguma particularidade? Compare também com os brasileiros.
Os turcos são muito vibrantes, expressivos. São totalmente diferentes do japoneses, e nesse ponto se parecem com os brasileiros. Mas acho que são ainda mais intensos jogando. Eles gritam, gesticulam, refletem um pouco do que e a torcida, do que o futebol representa aqui.

O que você achou do Kaká dizer que "depois do Pelé, o melhor jogador brasileiro foi o Ronaldo"? Afinal, você é um dos candidatos para esse posto, né?
Não sou candidato a nada, por favor. Quero continuar trabalhando como treinador. Acho que é tudo questão de opinião, e ele está falando de um Ronaldo que foi o melhor do mundo várias vezes. Pra mim, por exemplo, depois do Pelé, o Garrincha foi o melhor que vi. Meu ídolo no futebol era o Dida, um grande craque também. Meu pai falava que o Zizinho foi o melhor jogador que ele viu jogar. O futebol é apaixonante por isso, e cada um deve ter o seu direito de escolha.

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AP

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