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Basquete
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Paciência é o remédio que Tiago Splitter receitou para ele mesmo

Pivô brasileiro, que desembarcou na NBA como um dos melhores jogadores da Europa, não consegue jogar no San Antonio

Fábio Sormani, especial para o iG |

Peguei Tiago Splitter no supermercado. Junto com a mulher, a espanhola Amaia Amescua, comprava mantimentos para a casa — e não apartamento — que ele mora em San Antonio. Fica em um condomínio fechado, onde vive a maior parte dos jogadores do Spurs, entre eles Manu Ginobili, seu melhor amigo. Disse-me que já está adaptado completamente à cidade e à nova vida nos EUA.

“Mas ainda não sou reconhecido na rua como era na Espanha”, disse-me ele, nem um pouco contrariado com o novo momento, talvez gostando desta privacidade, o que não ocorria em Vitória, capital do País Basco, onde morava na Península Ibérica.

Entre uma compra e outra depositada no carrinho do supermercado, fomos desenvolvendo a conversa e perguntei o que todos gostariam de perguntar: Tiago, você está satisfeito com sua situação no time do San Antonio? Afinal, tem jogo que você nem joga e sua média de permanência em quadra é de pouco mais de 11 minutos por partida.

“É claro que é uma situação diferente, estou acostumado a jogar bastante, mas vivo agora uma nova realidade e tenho que ter paciência”, disse-me ao telefone.

Ter paciência. Tiago repetiu estas duas palavras várias vezes durante a nossa conversa. Como se fosse um mantra. Vocês vão ver.

Decepcionado? Perguntei a ele. “Decepcionado não é a palavra”, respondeu. E qual é? “Preciso ter paciência. Tem uma palavra que explique isso?” Conformar-se com a situação? “Não, porque se eu me conformar eu não cresço”.

E voltou a dizer que tem que ter paciência. “O time está feito, todos se conhecem, todos entendem o sistema do treinador. E estamos ganhando vários jogos. Além disso, eu me machuquei e isso me atrapalhou muito”.

E sabe como ele completou o pensamento? “Por isso, tenho que ter paciência. O mais importante é que estou me adaptando e meu momento vai chegar”.

Getty Images
Tiago Splitter nos tempos de Espanha onde era um dos melhores da Europa

Tiago é esperto, não só dentro da quadra, mas fora dela também. Não fala o que não deve. Expor-se pra quê? Afinal de contas, ele está onde muitos jogadores gostariam de estar. A organização Spurs é um exemplo para qualquer franquia ou agremiação em todo o planeta.

Nesta temporada, tem uma campanha de 24 vitórias e apenas três derrotas. Aparece na boca dos torcedores como um dos maiores favoritos ao título.

Por isso, quando eu perguntei se ele soubesse que iria jogar tão pouco tempo, se não era melhor ter ido para outro time, ele respondeu prontamente: “Não, claro que não. Sinto-me privilegiado em estar neste grupo, onde jogadores pensam em ganhar jogos e não em atuações pessoais”.

Esta é a filosofia do técnico Gregg Popovich. Quando ele escolhe jogadores para compor o elenco, contou-me Tiago, Pop (como é chamado) olha não apenas as qualidades técnicas do atleta, mas o caráter também.

“Para fazer parte desta organização tem que ser assim”, afirmou Tiago. E ficar curtindo um banco de reservas talvez faça parte deste vestibular para se saber se o jogador tem ou não condições de fazer parte do grupo.

“Mas o Popovich não me fala nada sobre minha situação, ele só me fala sobre situações de jogo”, disse Tiago. E ninguém fala sobre isso com você, perguntei a ele? “Os assistentes falam comigo, dizem que outros ‘rookies’ também passaram por isso, que o Manu passou, que o Oberto também passou, e todos tiveram paciência. E eles me pedem para eu ter também”.

“Além disso”, prosseguiu, “há muitos jogadores na minha posição. Tenho que ter paciência”.

Ok, Tiago, já sabemos que você tem que ter paciência, você já nos disse isso várias vezes, mas você não sente vontade de jogar? “Claro que eu sinto; obviamente que todo jogador quer jogar. Mas o mais importante é que eu tenho consciência de que estou fazendo um bom trabalho, tenho aproveitado os meus minutos”.

Fazer um bom trabalho, neste momento, não é pontuar, pegar rebotes ou dar tocos. Fazer um bom trabalho, neste momento é entender as diferenças entre o jogo da Fiba e o da NBA.

“Já estou entendendo melhor as diferenças”, afirmou. “No começo da temporada eu tive dificuldades. Na Fiba você pode defender mais no garrafão; na NBA não pode. Na Fiba o contato físico é maior; na NBA é bem menor, você toca e já é falta. Na Fiba tem menos espaço para se jogar, mas na NBA os jogadores são mais atléticos”.

AP
Agora com a camisa 22 do San Antonio Spurs; "Tenho que ter paciência"

Para concretizar esta adaptação Tiago disse que tem contado não apenas com a ajuda dos treinadores, mas dos companheiros de time também. “Tim Duncan é um cara muito reservado fora da quadra, mas quando estamos trabalhando ele me ajuda muito”, afirmou. “Ele me explica com detalhes a importância do jogo ofensivo e defensivo”.

Novato no time e na cidade, seu porto-seguro atende pelo nome de Manu Ginobili. “Ele é excepcional dentro e fora da quadra”, disse Tiago. “É muito inteligente, lê muito bem o jogo. Conversamos muito, e é claro que a língua ajuda, pois nós conversamos em espanhol, que eu domino muito bem”.

Tiago deixou o Brasil, exatamente Joinville, cidade onde nasceu em Santa Catarina, quando tinha apenas 15 anos. Morou dez na Espanha, quando, em julho passado, aos 25 anos e logo depois de ter se casado, mudou-se para os EUA para jogar na NBA.

Quer fazer na liga norte-americana o que fez na Espanha: construir um patrimônio profissional que o tornou um dos melhores do basquete europeu quando fez as malas e rumou para os EUA.

Quando eu pergunto se a realização de um sonho é ser apresentado no AT&T Center (ginásio do San Antonio) como titular, ao lado de Tim Duncan como os donos do garrafão do Spurs, ele respondeu: “Por enquanto eu tenho minutos (em quadra) limitados. Por isso, fica impossível pensar em ser companheiro de Tim Duncan ou de qualquer outro jogador”.

E sabe como ele encerrou a resposta? “Por isso, eu preciso ter paciência”.

Tiago obviamente não vive a situação que ele queria, por isso repete esse mantra o tempo todo. Quando vai dormir, quando acorda, quando vai ao supermercado, quando treina, quando joga, quando volta pra casa, quando vai dormir...

Não é a situação que ele queria e nem imaginava.

 

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