Time que empregava americano não conta com acompanhamento regular dos atletas. Especialista critica contenção de gastos na área

A morte do norte-americano Laurence Scott Young , que defendeu o time do Internacional/Santos no Campeonato Paulista deste ano, expôs uma carência básica no esporte de alto rendimento brasileiro: a falta de um acompanhamento médico mais atencioso aos atletas. O clube pelo qual o ala-armador atuava não conta com um profissional da área empenhado na observação regular dos atletas. Uma realidade que não é diferente tanto para outros times de basquete como para outras modalidades.

“Nenhum esporte, exceto o futebol, conta com médicos dedicados integralmente às equipes”, disse Guerrinha, técnico do Bauru e ex-armador da seleção brasileira. “Na grande maioria dos times dos chamados esportes amadores, são feitos convênios médicos.”

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O cardiologista Nabil Ghorayeb, especialista em medicina no esporte, avalia que o acompanhamento médico diário deveria ser obrigatório nos esportes profissionais e justifica sua posição citando um dado do COI (Comitê Olímpico Internacional): a cada 100 mortes no esporte, 60 ocorrem durante treinamentos.

“Essa informação é muito importante. Os dirigentes querem economizar e acabam correndo o risco absurdo de ter um atleta morrendo. Não dá para economizar nisso, não existem desculpas. Está na hora de mudar esse cenário”, afirmou Ghorayeb, que contou ainda que recebe muitos atletas no Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese que resolvem se consultar por conta própria.

A causa da morte de Laurence foi uma endocardite bacteriana, doença que acomete pessoas com problemas na válvula do coração. Conforme apurou o iG , o norte-americano chegou à Santa Casa de Santos já com a infecção em estágio bastante avançado, configurando um grave quadro clínico. É possível que as chances de sobrevida do jogador fossem maiores se ele tivesse sido atendido por um médico com antecedência.

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Jorge Bauab, diretor da Federação Paulista de Basquete, explicou ao iG que a entidade cobra dos times exames médicos antes do início do campeonato que atestem a aptidão de seus respectivos atletas à prática esportiva. Para Ghorayeb, a exigência deveria ser maior. “Seria importante que as federações tivessem uma política médica diferente e discriminassem quais os exames deveriam ser feitos pelos atletas. No esporte de alto rendimento, a parte cardiológica precisa de cuidado maior. É diferente de um problema no joelho, por exemplo, que pode fazer com que o atleta tenha que parar de competir. Problemas no coração podem matar”, advertiu o cardiologista.

A estrutura dos clubes

Na prática, o cenário idealizado por Ghorayeb está bem distante de ser aplicado, e o problema vem de longa data. Medalha de ouro do judô nos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, Rogério Sampaio é diretor-presidente da Fupes (Fundação Pró-Esporte de Santos) e responsável pela administração do time de Santos. O ex-judoca revela que, quando competia, jamais contou com assistência médica diária. “Fui atleta olímpico e nunca tive atendimento em tempo integral. A cada contusão que tive, me encaminhava ao médico para ser atendido. Logicamente que, se você detectou um problema, faz o atendimento”, contou.

A exemplo do que acontece na equipe de Santos, o Bauru também não conta com um médico que dedica suas atenções exclusivamente ao time. Mas o acompanhamento é feito de maneira um pouco mais próxima, pelo menos de acordo com a explicação do técnico Guerrinha.

“Temos convênio médico e dentário com a Unimed. Fazemos avaliação clínica dos jogadores já no início da temporada e realizamos exame de sangue de dois em dois meses, até para medir o nível de cansaço dos atletas”, revelou o treinador. “Há um médico presente em todos os jogos e, sempre que possível, também nos treinos. Se for necessário algum tipo de exame, o jogador é encaminhado imediatamente.”

Um dos maiores clubes do país, o Pinheiros conta com 3.200 atletas de alto rendimento, em diversas modalidades, individuais e coletivas. A equipe médica também não acompanha os treinos de cada modalidade, apenas os jogos e competições.

No entanto, há médicos de plantão no departamento localizado dentro do próprio clube. Os atletas são submetidos a exames periódicos, também voltados para o controle de carga horária dos treinos. Os médicos que compõem o departamento são do Instituto Vita, que mantém convênio com o clube e oferece sua infraestrutura para os atletas caso seja necessário.

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