Atletas com mais experiência no exterior e nomes consagrados confirmam expectativas, mas médio e baixo clero encontram problemas

Enquanto o locaute da NBA se arrasta rumo a uma disputa judicial , os jogadores que buscaram continuar sua carreira no basquete europeu vão oscilando nos novos empregos, o que coloca em dúvida quantos mais poderiam seguir esse caminho agora que a temporada 2011-2012 está ameaçada para valer. Alguns assumiram a condição de protagonistas logo de cara em fortes torneios. Outros já pegaram as malas e voltaram para casa, dispensados.

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Entre os 20 jogadores mais eificientes da Euroliga, considerada a segunda competição de clubes mais forte do mundo, oito são atletas recém-imigrados dos Estados Unidos. Dois deles encabeçam a lista após quatro rodadas: o ala francês Nicolas Batum, do Portland Trail Blazes e defendendo o Nancy em sua terra natal, e o ala russo Andrei Kirilenko, agente livre ex-Utah Jazz, hoje atuando pelo CSKA Moscou.

Deron Williams brilhou em clássico contra o Galatasaray e definitivamente virou ídolo do Besiktas
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Deron Williams brilhou em clássico contra o Galatasaray e definitivamente virou ídolo do Besiktas

Fora da Euroliga, Deron Williams, do New Jersey Nets, talvez o nome mais proeminente a ter deixado os EUA, vem fazendo sucesso pelo Besiktas, na Turquia, com médias de 21,4 pontos (a maior entre os 'exilados'), 6,6 assistências e 3,2 rebotes na liga local. Em um clássico diante do Galatasaray, ele liderou o clube a uma vitória com 21 pontos, cinco rebotes e cinco assistências. Foi o suficiente para cair definitivamente nas graças da fração alvinegra de Istambul, fazendo valer seu salário de cinco milhões de euros na temporada.

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Mas esse cenário positivo é limitado em grande parte a apenas alguns nomes. A participação dos jogadores oriundos da NBA não se traduz imediatamente boas atuações. "Apenas as super-estrelas estão mantendo sua imagem", avaliou David Thorpe, treinador pessoal de jogadores da NBA como Kevin Martin (Houston Rockets), Luol Deng e Joakim Noah (Chicago Bulls) e Udonis Haslem (Miami Heat) e comentarista da "ESPN". "Ter NBA próximo ao seu nome hoje significa menos globalmente do que no mês passado".

Enquanto isso, nos EUA, Derek Fisher (à esq.) lidera os atletas da NBA durante o locaute
Divulgação
Enquanto isso, nos EUA, Derek Fisher (à esq.) lidera os atletas da NBA durante o locaute
Jogadores como os alas-pivôs DeJuan Blair, do San Antonio Spurs e do Samara, da Rússia, JJ Hickson, do Sacramento Kings e do Bnei Hasharon, de Israel, foram dispensados após terem disputado apenas uma partida em suas novas ligas. A interrupção de contrato aconteceu abruptamente seja por dificuldades de adaptação a outra cultura, seja pela assimilação de novas regras que trazem diferentes nuanças ao jogo, ou até pela combinação dos dois fatores.

"Apesar de Hickson ter tido alguns problemas em relação ao seu apartamento, essa não foi a razão de ele ter ido embora", disse Izy Chinio, presidente do clube israelense. "Ele foi um garoto que apenas ficou com muitas saudades de casa e tinha muita dificuldade em se manter concentrado em quadra, enquanto tinha de se ajustar rapidamente a Israel".

Hickson somou 20 pontos, oito rebotes e cinco assistências em sua única partida em Israel. Talento, então, não era o problema. Mas as dispensas dão a entender que o desnível entre os atletas de ambos continentes não é tão acentuado, e a realização disso por parte dos clubes europeus pode fechar as portas para jogadores que busquem outras alternativas nas próximas semanas.

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"Para aqueles que seguem o basquete europeu de perto, isso não é uma surpresa", disse Jonathan Givony, que comanda o serviço de scouts "Draft Express", que presta serviços a times europeus, asiáticos, australianos e da própria liga norte-americana. "Fora do top 150 da NBA, ou algo em torno disso, a diferença de talento é mínima".

Nicolas Batum: melhor atleta da NBA na Europa
AFP
Nicolas Batum: melhor atleta da NBA na Europa
Quem vai bem
O grande destaque entre os 'exilados' vem sendo o francês Batum, que é o líder no ranking de eficiência da Euroliga, que basicamente soma todas as estatísticas positivas obtidas pelos atletas em quadra (pontos, rebotes, assistências etc.) e as subtrai pelas negativas (erros de arremessos, desperdícios de bola, faltas cometidas). Ele acumula 29,75 pontos de média nesse quesito, contra 27 de Kirilenko. O próximo da lista é o armador Jordan Farmar (do Nets e Maccabi Tel Aviv), em quinto, com 21,50. Ainda no top 10 aparece o pivô sérvio Nikola Pekovic, do Minnesota Timberwolves e do Partizan Belgrado, com 21 pontos, em sétimo.

O pivô sérvio Nenad Krstic, agente livre ex-Oklahoma City Thunder e do CSKA Moscou, é o 11º, com 19 pontos. O ala italiano Danilo Gallinari, do Denver Nuggets e do Olimpia Milano, é o 17º, com18 pontos, seguido pelo ala turco Ersan Ilyasova, do Milwaukee Bucks e do Anadolu Efes, com 17,50, e pelo ala Sonny Weems, agente livre ex-Toronto Raptors e do Zalgiris Kaunas, com 17 pontos.

Desse octeto, apenas Farmar e Weems nunca haviam disputado uma partida por um clube europeu: ambos construíram suas carreiras no basquete colegial e universitário dos Estados Unidos até ingressarem na NBA. Os outros seis já haviam disputado o campeonato, em meio à elite do continente. Em um campeonato com regras diferentes, no qual as defesas por zona não encontram nenhuma restrição, por exemplo, essa experiência vem pesando a favor "Vários desses jogadores se tornaram estrelas justamente na Europa e jogaram pelos mesmos clubes", afirmou Jordi Bertomeu, presidente da Euroliga.

Weems e Krstic também compõem outra exceção: seus contratos são válidos por toda a temporada, independentemente do desfecho do locaute. No caso dos outros, sua estadia depende do que acontece nos bastidores da liga norte-americana. "Os times que decidiram seguir essa via estão cientes dos riscos que assumiram", disse Bertomeu. "O bom é que um jogador desse nível vai ajudar a vencer enquanto estiver por aqui. O mau é que a química da equipe será difícil de ser mantida quando ele sair".

Ty Lawson (à dir.): colega de Nenê no Denver Nuggets tem decepcionado na Europa
Gety Images
Ty Lawson (à dir.): colega de Nenê no Denver Nuggets tem decepcionado na Europa
Nem tão bem
Embora o alto escalão venha cumprindo seu papel de acordo com o esperado, a dificuldade dos atletas menos badalados pode causar um impacto negativo no mercado para as futuras temporadas.

Com salário anual superior a um milhão de euros, o armador Ty Lawson, uma das apostas do Denver Nuggets para as próximas (eventuais) temporadas, vem encontrando dificuldades para se enquadrar no mesmo Zalgiris de Weems, com média de apenas 21,8 minutos e 1,5 assistência por jogo). Já o esloveno Sasha Vujacic, do New Jersey Nets e do Anadolu Efes, vem com média de 14,8 pontos, mas com aproveitamento de apenas 28,6% nos arremessos.

No Caja Laboral, ex-clube de Tiago Splitter e Marcelinho Huertas, mais exemplos de alternância: a dupla Reggie Williams (Golden State Warriors) e Joey Dorsey (Toronto Raptors) não fica em quadra nem por 14 minutos, enquanto o ala-pivô francês Kevin Seraphin (Washington Wizards), outro com experiência na Europa, destoa dos companheiros, com 11,8 pontos, 5,8 rebotes e um toco por jogo.

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No Real Madrid, o ala Rudy Fernández tem média na Euroliga de 15,5 pontos, mas é apenas o 33º em eficiência, aquém do que os torcedores merengues esperavam. O pivô Serge Ibaka, que assinou contrato apenas em outubro, vem com rendimento ainda mais fraco: 3,7 pontos, 4,0 rebotes e 1 toco, em 12,3 minuto, sendo apenas o 110º.

"O brilho de ter NBA em seu currículo foi avariado seriamente devido a este locaute. Isso provou muito pouco até agora para a maioria", avaliou Jonathan Givony. Para ele, será interessante notar se o fiasco de alguns desses jogadores pode repercutir em suas carreiras mesmo nos Estados Unidos. Não é o caso de prospectos como Hickson, Blair e Ibaka, todos bem cotados pelos scouts. Mas jogadores marginais, como o armador Ben Uzoh (Nets), que já foi dispensado por dois clubes europeus em menos de dois meses, e o ala DaJuan Summers (agente livre ex-Detroit Pistons), que teve seu contrato rescindido na Itália, vão exigir um trabalho maior a seus agentes.

Mas pode ter mais
Williams e Kirilenko são um dos poucos casos entre os jogadores que cruzaram o Oceano Atlântico e haviam sido convocados ao menos uma vez para disputar o All-Star da NBA. Os outros dois são o pivô turco Mehmet Okur (do Utah Jazz e do Turk Telekom) e o armador francês Tony Parker (tricampeão pelo San Antonio Spurs e do Villeurbanne, clube do qual é o dono), que vem também com ótimas médias de 19,8 pontos, 5,6 assistências e 4,8 rebotes. Mas esse número pode aumentar nas próximas semanas.

Andrey Kirilenko (à esq.): Europa não é novidade para o russo do Utah Jazz e do CSKA Moscou
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Andrey Kirilenko (à esq.): Europa não é novidade para o russo do Utah Jazz e do CSKA Moscou

A liga norte-americana vive una semana decisiva. Os jogadores não aceitaram a última proposta formulada pelos clubes para a reformulação do regulamento geral e decidiram levar a disputa aos tribunais. Essa ação pode resultar no cancelamento da tabela de jogos de novembro e dezembro e praticamente impede a realização de uma temporada 2011-2012 com os 72 jogos previstos pela direção (número já inferior aos 82 regulares).

A possibilidade de seguir em inatividade por tanto tempo já faz alguns astros se movimentarem. Neste domingo, depois de jogo de caridade organizado em Dallas, o ala Kevin Durant disse que estava em cima do muro sobre a possibilidade de jogar no exterior, mas que "estava pronto para saltar" no caso de as negociações fracassarem. Três clubes estariam interessados em seus serviços, no mínimo.

Dirk Nowitzki: alemão pode atuar na Europa
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Dirk Nowitzki: alemão pode atuar na Europa
A lista é certamente maior no caso do alemão Dirk Nowitzki, campeão pelo Dallas Mavericks neste ano e outro que optaria por jogar na Europa se a NBA não tiver previsão de início até janeiro de 2012. "Não posso ficar uma temporada inteira sem entrar em quadra", disse o alemão, que tem sondagens de Real Madrid, Bayern de Munique e outros.

A partir do momento em que a Fiba liberou o acerto dos atletas com clubes do exterior, com a condição de que esses novos vínculos seriam imediatamente anulados ao fim do impasse, os dirigentes europeus se apressaram para reforçar seus elencos.

A negociação que mais causou barulho aconteceu entre o ala Kobe Bryant e o Virtus Bologna, da Itália. Apesar de o astro do Los Angeles Lakers ter forte ligação com o país, por ter passado boa parte de sua infância lá, as tratativas fracassaram depois de muitas reuniões e ofertas para um pacote de dez partidas ou mesmo um só jogo.

Atletas como Dwyane Wade, Pau Gasol, Kevin Durant e Amaré Stoudemire também receberam sondagens ou propostas oficiais, mas optaram por seguir treinando por conta própria, confiantes de que o imbróglio fosse resolvido sem muita demora. A duração do locaute já passa de 135 dias, e o êxodo, que já envolveu mais de 100 jogadores, também com a China, Brasil, Austrália e outros países como destino, gora pode aumentar. Por sua parte, os clubes europeus sabem, no entanto, que a contratação da grife NBA não é garantia de sucesso.

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