Povoada por amigos e ex-companheiros de seu proprietário, Bobcats tenta se profissionalizar e crescer em Charlotte

Jordan e Steve Kerr (à dir.) foram companheiros de Chicago Bulls
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Jordan e Steve Kerr (à dir.) foram companheiros de Chicago Bulls
Depois de ser varrido pelo Orlando Magic em maio, Michael Jordan não via a hora de voltar aos treinos com o Chicago Bulls em 1996. Ele chegou à pré-temporada agitado, inquieto, numa missão, e todo mundo podia perceber isso. Quando estava daquele jeito, não havia muito como agir a seu lado: ou os jogadores e comissão técnica poderiam relevar muito da pressão imposta pelo craque e correr o risco de perder seu respeito, ou podiam optar por encarar e responder aos ataques. Steve Kerr optou pela segunda via.

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Durante um treinamento bastante físico, o técnico Phil Kackson colocou Kerr, sete centímetros mais baixo e praticamente 20 quilos mais magro, para conter Jordan. Os ânimos se acirraram. “Phil estava apitando sempre a favor do Steve, e fiquei bem irritado”, disse Jordan, meses depois, em um vídeo para celebrar aquela campanha do Chicago, a melhor da história da liga, com 72 vitórias em 82 partidas. “Comecei a jogar de modo bem agressivo. O Steve começou a fazer umas faltas duras e acabei acertando um soco no olho dele. O Phil me expulsou do treino. Fui para casa bem magoado. Depois liguei algumas vezes e deixei um recado na secretária eletrônica dele, pedindo que me desculpasse, que eu havia deixado a raiva tomar conta de mim”.

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Sua impulsividade e a incapacidade de aceitar uma derrota foram características notórias na carreira de Jordan e, segundo seus treinadores, contribuíram muito para ele se tornar o jogador que foi e levar seu time ao máximo. Agora, quanto desse comportamento poderia ajudá-lo a se desenvolver no basquete ao trocar a bola de couro por uma pasta de homem de negócios?

Estresse
Em Washington, quando Michael Jordan decidiu voltar a jogar por uma segunda vez, mesmo beirando os 40 anos, a bola e a pasta se confundiram. Embora fosse obrigado a abrir mão de seu cargo na chefia de operações do Wizards, extraoficialmente todos ali sabiam quem estava dando as cargas. Seja o técnico Doug Collins, o pivô Kwame Brown ou o roupeiro.

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Foi um período de excepcional retorno financeiro para a franquia vizinha da Casa Branca, mas que deixou muitas feridas em muitas das promessas do elenco do Wizards. No fim, quando Jordan imaginava que retomaria seu cargo na diretoria, ele foi dispensado numa breve reunião de 15 minutos com o antigo proprietário da franquia, Abe Pollin. A decisão do bilionário ficou mais fácil quando o lendário (ex-)atleta ia a público para malhar seus companheiros e, ao mesmo tempo, comandados. “Espero que agora eu possa entender o que é necessário para construir um projeto melhor. Eu não voltei a vestir o uniforme para criar interesse no time, mas para ajudar esses caras a jogar com a paixão que você precisa neste jogo”, era um dos seus bordões na época.

Paixão e negócios não cabem necessariamente na mesma equação de um executivo. Para o dono do Bobcats, parecem indissociáveis. “MJ trabalha em cima de suas emoções”, afirmou Howard White, dirigente de longa data da Nike, que trabalhou por muitos anos diretamente com a fera.

Jordan se aposentou das quadras jogando pelo Washington Wizards
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Jordan se aposentou das quadras jogando pelo Washington Wizards

Bons companheiros
Dois dos jogadores mais promissores a sair do basquete colegial da Carolina do Norte em 1980, Mike Jordan e Buzz Peterson estavam o tempo todo juntos. Jogavam os torneios de verão por todo o país, foram recrutados ao mesmo tempo pela UNC (University of North Carolina), dividiram quarto na universidade. Só se separaram três anos depois, quando Jordan já era Michael e estava pronto para dar o salto rumo à NBA, enquanto Peterson via seu sonho de se tornar um astro do esporte ruir devido a uma grave lesão no joelho.

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Os melhores amigos foram se reunir em 2007, quando o proprietário do Charlotte Bobcats contratou aquele de quem foi padrinho de casamento para ser o diretor do programa dos jogadores da franquia – isso embora Peterson nunca tivesse tido nenhum tipo de envolvimento com a liga profissional. Ele construiu sua carreira como treinador no basquete universitário, sendo assistente por nove anos em quatro equipes diferentes e outros 11 como técnico principal em mais quatro equipes. Nenhum desses times era exatamente de ponta – chegou à fase final do torneio nacional uma só vez, em 1999-2000, pela Appalachian State.

Jordan e Whitfield são amigos há mais de 30 anos
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Jordan e Whitfield são amigos há mais de 30 anos
Peterson, que deixaria o clube para voltar ao campus universitário em apenas dois anos, foi só mais um personagem do passado de Jordan resgatado e recrutado para sua administração do Bobcats. Fred Whitfield, presidente, é outro amigo próximo há mais de 30 anos. Rod Higgins, vice-presidente de operações de basquete, foi um companheiro de Chicago Bulls em seu primeiro ano na liga. Sam Vincent e Charles Oakley, outros ex-companheiros da época de Bulls, já fizeram parte da comissão técnica do time.

A proximidade ou intimidade desses contratados desperta um desconforto entre alguns concorrentes na liga sobre o quanto eles teriam autonomia para gerir a franquia de um modo que não precisasse da intervenção de Jordan em qualquer negócio, desde uma troca de jogadores a uma ação de marketing na comunidade.

Ele pode dizer não
No dia 18 de fevereiro, Michael Jordan e os jogadores do Bobcats passaram umas boas horas distantes do ginásio da equipe. Tanto o dono, que dificilmente se envolve em ações públicas do time, como os atletas visitaram regiões mais carentes de Charlotte, distribuindo alimentos e fazendo doações. O clube também decidiu patrocinar um caminhão refrigerado de uma empresa do ramo alimentício para que ele circulasse periodicamente por áreas rurais empobrecidas, numa iniciativa que pode impactar cerca de 100 mil pessoas da região.

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Por trás dessa operação está Curtis Polk, um ex-contador que não figura na folha de pagamento do clube e só aparece por perto uma vez por mês, visto muitas vezes engravatado ou com um agasalho esportivo da “Jordan Brand”. Ele é outra figura que convive com o astro há tempos. Sobre seu trato com Jordan, ninguém duvida de duas coisas: uma, que a relação segue muito mais o lado profissional do que o emocional; outra, a principal, é que é ele quem pode se atrever a dizer “não” ao patrão.

Polk entrou no círculo ao redor de Jordan por meio do agente David Falk. O contador era o responsável pelo controle das contas de alguns dos principais atletas empresariados pelo escritório F.A.M.E. – os pivôs Dikembe Mutombo e Patrick Ewing entre eles. Aos poucos, com investimentos certeiros, ganhou a confiança do ex-jogador do Bulls até que passou a trabalhar diretamente com ele em 2001, supervisionando também seus contratos de patrocínio.

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Jordan aceita as intervenções do conselheiro, ciente de que precisa de um equilíbrio entre sua vocação de conquistador e um modo mais razoável de se fazer negócios. Não que os dois não se envolvam por vezes em debates acalorados. “Ele nunca vai fazer algo impulsivo”, afirma Jordan. “Ele é ideal porque eu sou sempre dos que enxergam o copo meio cheio, enquanto ele sempre o vê como meio vazio”.

Ainda que com certo distanciamento, Polk também acaba por supervisionar as atividades de Whittfield no comando da franquia e a aconselhar Higgins em determinados movimentos do clube. Mas esse ex-contador sabe que sua atuação realmente pertence aos bastidores. “O maior trunfo que temos é Michael Jordan”.

Jordan é o proprietário do Charlotte Bobcats
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Jordan é o proprietário do Charlotte Bobcats

Aos 50
Alguns treinamentos do Bobcats podem ser mais intensos do que os outros, à revelia do discurso do técnico Paul Silas. Tudo vai depender da presença, ou não, do dono do clube nas sessões. Neste caso, sem a pasta. Aos 49 anos, Michael Jordan ainda se atreve a bater bola com jogadores como o pivô congolês Bismack Biyombo, de 19.

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Nesta temporada, vem acontecendo com menor frequência. Em fevereiro de 2011, um forte bochicho rondava o ginásio do Bobcats com participações diárias do patrão em quadra. “Ele ainda é o Mike”, disse o ex-ala do time, Gerald Wallace. “Ele poderia marcar 20 pontos por jogo ainda hoje”, afirmou Paul Silas. Em seu discurso de entrada ao Hall da Fama de basquete, Jordan falou em um tom dúbio entre provocação e sonho: “Um dia você pode se pegar me assistindo aos 50 anos. Não riam. Nunca digam nunca, porque os limites, como os temores, são muitas vezes apenas uma ilusão”. Aí pronto: será que ele... ?

Mas um terceiro retorno de Jordan hoje parece muito mais uma lenda do que algo que tenha sido realmente estudado. Observadores garantem que este, ao menos no contato com os jogadores, é um Jordan já mais calmo, mais paciente e preocupado em ensinar do que cobrar – o ala Gerald Henderson seria seu aluno predileto e mais dedicado.

O próprio Kwame Brown, que defendeu o Bobcats na temporada 2010-2011 depois de, digamos, reatar com Jordan após nove temporadas na liga, atesta essa mudança. “Ele ainda faz barulho, brinca. É bom ter ele em volta, porque aí todo mundo começa a jogar mais duro. Quer dizer: é melhor que você faça isso”, afirma. Jogar duro pode, e ele até quer. Desta vez, só não dá para comprar briga com o chefe.

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