Medalhista olímpico, técnico argentino diz que basquete brasileiro será potência

Por Luís Araújo - iG São Paulo |

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Em entrevista ao iG, Sergio Hernandez elogia organização do campeonato no país e afirma não ter sido influenciado por Rubén Magnano ao optar por trabalhar no Brasil

Divulgação
Sergio Hernandez chega ao basquete brasileiro com a missão de reconduzir Brasília ao título

Treinador argentino respeitado no mundo todo, tem uma medalha olímpica como principal marca no currículo vitorioso e viu no basquete do Brasil um novo desafio para a carreira. A descrição poderia ser de Rubén Magnano, que conquistou o ouro com seu país nas Olimpíadas de 2004 e atualmente comanda a seleção brasileira. Mas existe agora um outro personagem que se encaixa neste perfil. Trata-se do novo técnico do Brasília: Sergio Hernandez, que ganhou o bronze nos Jogos de Pequim, em 2008.

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Apesar das semelhanças entre os caminhos percorridos pelos dois, Hernandez diz que o fato de Magnano estar no Brasil não o influenciou. A decisão de trabalhar fora da Argentina já estava tomada, e a opção pelo país vizinho aconteceu por fatores que nada têm a ver com o compatriota.

"Não gosto de ser hipócrita, o dinheiro é muito importante", admitiu ao iG. o treinador de 49 anos. "O Brasil pode pagar melhor que a liga argentina, mas isso não foi a causa principal. Quando você vai ficar longe da família, muitas coisas precisam ser levadas em conta. A melhora na organização do basquete brasileiro nos últimos quatro ou cinco anos foi uma delas. Há um esforço para ter um campeonato mais organizado", completou

A organização que enxerga por aqui o faz acreditar que o basquete brasileiro será um dos mais fortes do mundo no futuro. "Com ela e com o potencial que existe, fatalmente o Brasil será uma potência no mundo. Penso que agora estou em um país entre os principais no mundo com condição de fazer coisas importantes. E eu gosto disso", disse o treinador.

Hernandez chega ao Brasil com a missão de reconduzir a equipe da capital federal ao caminho dos títulos. Três vezes campeão do NBB, Brasília fez na última temporada sua pior campanha na competição ao ser eliminado nas quartas de final. O desafio é grande, mas ele demonstra saber da pressão com a qual terá de lidar.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista de Sergio Hernandez

Getty Images
Sergio Hernandez comandou a seleção argentina entre 2005 e 2010. Foi bronze nas Olimpíadas de Pequim


Trabalho no Brasil

"Já tinha muitos anos seguidos que eu trabalhava na Argentina e queria algo diferente. Nada mais que isso. Não gosto de ser hipócrita, o dinheiro é muito importante. O Brasil pode pagar melhor que a liga argentina, mas isso não foi a causa principal. Quando você vai ficar longe da família, muitas coisas precisam ser levadas em conta. A melhora na organização do basquete brasileiro nos últimos quatro ou cinco anos foi uma delas. Há um esforço para ter um campeonato mais organizado. Com isso e com o potencial que existe, fatalmente o Brasil será uma potência no mundo. Penso que agora estou em um país entre os principais no mundo com condição de fazer coisas importantes. E eu gosto disso."

Pressão de ser campeão

"Se não houvesse a possibilidade de vir para um time com uma história forte e que tem pretensão de ganhar títulos, seria melhor ter ficado na minha casa. Todos querem ganhar dinheiro e títulos, mas não querem pressão. Só que ela está em todo lugar. Há pressão no time que pela primeira vez quer chegar entre os oito primeiros ou em outro que busca ir à semifinal pela primeira vez. A pressão é diferente, mas garanto que existe em todos os times que disputam o NBB."

Como implantar a filosofia de jogo aos brasileiros

"Muito se fala que os times brasileiros jogam no 'run and gun', sem organização, que não gostam de defesa. Acho essa visão um pouco exagerada. No mundo inteiro essa ideia mudou. Antes, Venezuela e Porto Rico, para citar dois exemplos, jogavam quase que em 'showtime' o tempo todo. Hoje, não. Os times têm mais bagagem internacional, querem ganhar torneios internacionais. Brasília foi campeão da Liga das Américas. Quem ganhar a Liga das Américas, precisa vencer equipes argentinas, uruguaias, venezuelanas, etc. Um time que apresenta só um estilo de jogo, um estilo que já não é mais tão eficiente, não vai ganhar. Brasília em especial é o que mais concentra o conceito de basquete internacional no Brasil porque tem muitos jogadores de seleção e tem a noção de que no basquete internacional não se pode cometer erros por individualidades ou atitudes erradas, pois isso pode te levar a perder todos os jogos. Por isso tudo, acho que está sendo fácil implementar meu estilo no time."

Conhecimento sobre o basquete brasileiro

"Quando o Gonzalo Garcia (ex-técnico do Flamengo), que era meu assistente na seleção argentina, trabalhou aqui, pude acompanhar o basquete brasileiro mais de perto. Mas eu sigo desde muito pequeno. Morava em Bahia Blanca e vi todos os grandes jogadores de perto, tais como Oscar, Marcel, Carioquinha, Marquinhos, Israel, Gerson e Pipoka. Sei do basquete brasileiro muito mais do que se acredita. Eu via que o basquete profissional tinha problemas de organização, mas vi que isso mudou nos últimos três anos."

Seleção brasileira

"O Brasil tem uma seleção muito competitiva e respeitada em todo o mundo. Quando os enfrentamos na Turquia (no Mundial de 2010), muitos treinadores europeus foram ao hotel após o jogo parabenizar as duas equipes porque fazia muito tempo que não viam um jogo tão bom. Nós tivemos a sorte de acertar os últimos dois arremessos e ganhar o jogo, mas os dois times têm o mesmo mérito. Por dois, cinco, seis pontos de diferença um foi melhor que o outro. Não podemos esquecer que no Pré-Olímpico de Mar del Plata (em 2011), o Brasil ganhou de nós na primeira fase. Depois, na final, não ganhou porque já estava classificado e diminuiu o ritmo, mas jogou muito bem. Acho que o brasileiro tem que ficar muito orgulhoso da equipe que tem."

Comprometimento dos jogadores

"Acho que deveriam deixar de lado se um jogador foi ou não foi para a seleção no último torneio. Na Argentina, eu falo que poucas vezes eu conheci um jogador tão comprometido com o basquete do país como um todo quanto Manu Ginóbili. Ele sempre quer saber como está a liga, os times e a seleção. Na Copa América de 2005, ele não jogou. No Pré-Olímpico das Américas de 2007, não jogou. No Mundial de 2010, não jogou. E não é por isso que ele não tem compromisso. Ele tem que cuidar de seu corpo e da sua vida. Um atleta tem o corpo como ferramenta de trabalho, não pode ficar dois semestres ininterruptos jogando. Não é um escritório, em que você entra, faz seu trabalho e sai."

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