Treinador do bi mundial brasileiro, Kanela era exigente e paizão para jogadores

Por Luís Araújo - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Integrantes da seleção no Mundial de 1963 relembram forma disciplinadora de trabalho do treinador e o consideram parte fundamental da conquista

CBB/Divulgação
O técnico Kanela é carregado por Waldemar após a conquista do bi mundial da seleção brasileira

Amaury Pasos e Wlamir Marques eram os dois principais destaques individuais, mas o grande trunfo da seleção brasileira de basquete que conquistou o bicampeonato mundial em 1963, de acordo com os próprios atletas, era a coletividade. Mas eles reconhecem que, para esse aspecto dar resultado dentro de quadra, foi fundamental a participação de um homem que trabalhava fora das quatro linhas: o técnico Togo Renan Soares, conhecido simplesmente como Kanela.

Deixe seu recado e comente a notícia com outros torcedores

"Ele foi importante demais", reconheceu Wlamir, em conversa com o iG. "Era um técnico exigente e sargentão, mas os jogadores se sujeitavam àquilo. Era uma pessoa de comando forte, mas que tinha nosso talento à disposição. Ao mesmo tempo, nós éramos talentosos e pudemos contar com a forma de trabalhar dele. Foram as duas coisas juntas que fizeram essa seleção dar certo."

Infográfico: Números e curiosidades dos 50 anos do bi mundial de basquete

O comando forte de Kanela se fazia presente o tempo todo. Nos treinos, praticava à exaustão cada movimento que desejava ver dos seus comandados durante as partidas. "A gente ia dormir sabendo exatamente o que devia fazer e onde devia estar em quadra no dia seguinte", disse Jathyr Schall.

Veja ainda: Campeões de 1963 lembram "time que jogava por música" e não vêem legado

Na concentração, a situação não era diferente. Kanela fazia questão de estar no controle de tudo o que acontecia com a seleção. "Ele desligava a luz do hotel todo à noite para que ninguém ficasse acordado até mais tarde e visitava a cozinha para ver a comida que era feita para a gente. Ele cuidava de todos nós e dizia que éramos os pupilos dele. Ele gostava de nos chamar assim", relatou Luiz Cláudio Menon.

Acesse o blog Espírito Olímpico

Sucar leva a melhor na disputa contra os jogadores de Porto Rico e pega o rebote para o Brasil. Foto: CBBAmaury sobe para fazer a cesta no jogo contra Porto Rico. Foto: CBB/DivulgaçãoUbiratan sobe para dar o toco em jogo contra a seleção francesa. Foto: CBB/DivulgaçãoVictor bate bola durante a partida contra os EUA. Foto: CBB/DivulgaçãoSucar luta pelo rebote durante a partida contra os norte-americanos. Foto: CBB/DivulgaçãoAmaury encara a marcação norte-americana no último jogo do Brasil no Mundial. Foto: CBB/DivulgaçãoBanco de reservas do Brasil comemora vitória sobre os EUA no último jogo do Mundial. Foto: CBB/DivulgaçãoMosquito corta a rede da cesta como lembrança da conquista. Foto: CBB/DivulgaçãoO técnico Kanela é carregado por Waldemar. Foto: CBB/DivulgaçãoCapitão da seleção, Wlamir recebe o troféu das mãos de Antonio dos Reis Carneio, ex-presidente da Fiba. Foto: CBB/DivulgaçãoO capitão Wlamir ergue o troféu no Maracanãzinho. Foto: CBB/DivulgaçãoSeleção brasileira de basquete campeã mundial de 1963. Foto: CBB/Divulgação

Futebol e pólo aquático foram outras modalidades nas quais o treinador trabalhou durante a carreira. No basquete, Kanela nunca foi jogador. "Mas sabia comandar o time muito bem", ponderou Antonio Salvador Sucar. "Era uma pessoa vitoriosa. Tinha o dom de aproveitar o melhor de cada jogador que tinha à disposição no grupo e nos tratava como filhos", completou.

Além do aspecto disciplinador e de treinar jogadas de forma repetitiva para que as movimentações em quadra ficassem o mais próximas possível da perfeição, Kanela tinha ainda como característica marcante a capacidade motivacional. "Ele era excelente nisso", lembrou Jathyr.

Tudo isso pode fazer com que o olhar tático pareça estar em segundo plano. Não significa, porém, que as qualidades de Kanela se resumem apenas à forma como costumava gerenciar os jogadores na seleção. Menon usou um duelo pelo Mundial de 1970 para ilustrar o lado estrategista do treinador.

"Durante uma partida contra a Itália, ele percebeu que havia um buraco na defesa adversária, próximo à cabeça do garrafão. Ele pediu tempo na hora e traçou uma jogada para que eu a finalizasse exatamente naquela região. Deu certo. Isso desmantelou a defesa rival, que passou a tentar cobrir aquela falha e acabou abrindo outros espaços. Era uma perspicácia que poucos técnicos tinham. E nós vencemos", contou.

Natural de João Pessoa (Paraíba), Kanela assumiu a seleção brasileira em 1951 e a comandou por 103 jogos, válidos por 14 competições oficiais. O retrospecto foi de 87 vitórias e 16 derrotas. Além dos dois títulos mundiais (1959 e 1963), tem como grande conquista a medalha de bronze nas Olimpíadas de 1960, em Roma. A última competição no cargo foi o Sul-Americano de 1971, disputado no Paraguai e teve o Brasil como campeão.

Kanela morreu no dia 12 de dezembro de 1992, aos 87 anos. Em 2007, entrou para o Hall da Fama da Fiba.

Leia tudo sobre: Basquete BrasileiroMundial 1963

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas