Em dezembro de 2012, Felipe Zanol estava nos Estados Unidos se preparando para o Dakar quando sofreu um grave queda. Sem condições físicas para voltar a pilotar, ele se manteve nas corridas, agora no comando do time que leva seu sobrenome

Felipe  Zanol a pouco dias de sofrer grave acidente nos Estados Unidos, em dezembro de 2012
Divulgação/Team HRC/VIPCOMM
Felipe Zanol a pouco dias de sofrer grave acidente nos Estados Unidos, em dezembro de 2012

Com carreira vitoriosa no enduro, graças a 13 títulos nacionais no currículo, o mineiro Felipe Zanol estava cercado de expectativas para o Rally Dakar de 2013. Na edição anterior, estreou na principal competição off-road do mundo com o décimo lugar entre as motos. Contratado pela equipe oficial da Honda, ele viajou aos Estados Unidos para completar seus treinamentos e os últimos ajustes no equipamento que usaria. A viagem, porém, mudou radicalmente sua vida.

No dia 4 de dezembro de 2012, Zanol participava de mais uma sessão de testes no deserto de Mojave, na Califórnia, quando sofreu uma forte queda e foi levado de helicóptero ao Loma Lida University Medical Center. Induzido ao coma nos primeiros dias de internação, o piloto ficou nove dias desacordado e, aos poucos, passou a responder a estímulos, reconhecer as pessoas e voltou para o Brasil quase dois meses depois. Lembranças daquele dia fatídico?

"Por um ponto é bom, não lembro de nada. Eu caí? Quem disse? Não lembro. Tem foto? (risos)", relembra Zanol, agora levando na brincadeira o acidente que quase tirou sua vida. "O cérebro desarma essa função da memória para não ter tanto impacto na lesão, acho que foi isso que aconteceu comigo. Fiquei nos Estados Unidos mais de 50 dias e tenho só duas lembranças. Várias pessoas foram ao hospital, meus pais foram ao hospital e não lembro. Do voo de volta eu lembro, minha esposa (Luciana) estava ao meu lado. Lembro um pouquinho antes, fazendo treinamento, onde a gente estava, o que jantamos um dia antes, esses detalhezinhos acabo lembrando, mas como eu estava andando, o que aconteceu... Não tenho a mínima ideia, mas queria ter. Sempre fui um cara comedido e nunca forcei meu limite, mas queria lembrar para saber onde errei. Com certeza errei, onde e o que errei vou continuar na dúvida."

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Apesar de não ter sofrido fraturas, os traumas na cabeça em consequência da queda a mais de 100km/h - ele caiu com o rosto no chão, segundo quem testemunhou o acidente - comprometeram os movimentos do lado esquerdo do corpo. O tratamento com fisioterapia, iniciado desde a internação nos Estados Unidos, continua até hoje. Para quem deixou o hospital na cadeira de rodas, a evolução física é para lá de satisfatória, mas ele caminha com certa dificuldade. Os reflexos, essenciais para um piloto especialista em terrenos irregulares, ficaram comprometidos. Por isso, por enquanto, o mineiro não tem condições de retomar a carreira em duas rodas. "Como eu tinha uma luta pela vitória antes, tenho uma luta pela minha vitória hoje, que é conseguir me reabilitar 100% fisicamente. Está mais difícil a reabilitação do que a vitória era antes. Continuo tentando, batalhando, fazendo fisioterapia todo dia, de manhã, à tarde, à noite, o tempo que for preciso vou continuar na luta para me reabilitar", conta Zanol, de 33 anos.

"Não consigo andar normalmente sem mancar, a mão e o braço esquerdo não têm a reação 100%. Eu voltei para o Brasil em cadeira de rodas, estar andando já é uma vitória. Os médicos americanos disseram que se já conseguisse andar era uma vitória. Estar andando, ter minha vida, dirigir carro, fazer o que gosto já me deixa feliz", completou, lembrando também de outro fator importante na recuperação de quem até outro dia vivia com plenitude física, mas agora precisa superar dificuldades.

Felipe Zanol é chefe da equipe que leva o seu sobrenome
Luiz Pires/Vipcomm
Felipe Zanol é chefe da equipe que leva o seu sobrenome

Reinserir-se na sociedade também faz parte da recuperação. Felipe agora é o chefe de equipe da Zanol Team Rinaldi ASW. No ano de estreia, em 2014, os pilotos que ele comanda conquistaram 12 de 13 títulos possíveis em campeonatos de enduro. "É um pouco mais trabalhoso do que pensava, porque antes eu corria sozinho e uma equipe que trabalhava por mim. Agora tenho cinco pilotos para administrar, ano passado foram três, e tem sido bem difícil. Mas já quem teve a experiência de correr e competir tenta passar isso aos pilotos. Pedir competitividade, que sejam pessoas simpáticas, acessíveis à imprensa e ao público, o que é mais importante, e acho que tenho conseguido. Os pilotos têm crescido e evoluído nessas partes, com bons resultados nas competições."

Agora como dirigente, Zanol espera que as provas, nacionais ou internacionais, sejam mais rigorosas com equipamentos de segurança. Usar produtos de qualidade, segundo ele, teve grande importância para que o acidente não tivesse consequências mais graves. "É importante a exigência de alguns equipamentos que muitos pilotos usam, outros, não. Isso foi o que me salvou, um bom capacete... Ouço muito falar no tal do selo do Inmetro (órgão que fiscaliza e define parâmetros de qualidade a produtos no Brasil), mas acho que ele não certifica um capacete para competição em nada. O protetor cervical, obrigatório na Fórmula 1, deveria ser obrigatório também para andar de moto em diversas modalidades. Botas de boa qualidade, protetores de joelho, um bom colete, eu vejo alguns pilotos correndo sem colete... Se isso não acontece mundialmente, não vai ser no Brasil que vai acontecer. A fiscalização deveria ser bem mais rígida. Precisa melhorar, mas sei que é gradativo."

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