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"Piquet era extremamente inovador", afirma Raul Boesel

Ex-piloto é o quarto entrevistado do especial de 30 anos do primeiro título de Nelson Piquet na F1. Confira a conversa exclusiva

Rodrigo Vieira, iG São Paulo |

Dando continuidade ao especial de 30 anos do primeiro título mundial de Nelson Piquet na Fórmula 1, o iG Automobilismo entrevistou Raul Boesel. O ex-piloto é o quarto personagem da série que aborda o campeonato de 1981 – confira as entrevistas com Mario Andretti, Héctor Rebaque e Chico Serra.

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Boesel foi para a Fórmula 1 em 1982 e permaneceu na categoria por duas temporadas. Neste período, correu ao lado de grandes nomes, como Nigell Mansell, Alain Prost e Keke Rosberg. Para ele, no entanto, Piquet sempre se sobressaiu.

Ao iG, Boesel destacou o caráter inovador do tricampeão e o seu talento no ajuste dos carros. A personalidade de Piquet e a nova profissão de Boesel também foram assuntos do bate-papo. Confira a entrevista completa a seguir.

Getty Images
Raul Boesel estreou na F1 em 1982, pela March. Este é seu carro durante o GP dos Estados unidos daquele ano. Nelson Piquet correu pela Brabham naquela temporada

iG: Quais eram os principais pontos fortes do Nelson Piquet?
Raul Boesel:
Ele sempre foi muito inovador. Veio com várias idéias, que inclusive hoje são desenvolvidas e usadas no automobilismo. Como piloto ele tinha habilidade de acertar bem o carro. Naquela época o piloto era quem fornecia todas as informações ao engenheiro para os ajustes ocorrerem, diferentemente de hoje, quando, muitas vezes, a habilidade do piloto no acerto do carro não é tão comprometedora.

Entretanto, na época não havia piloto de testes. O próprio piloto era quem desenvolvia o carro e, o quem tinha maior habilidade de fornecer informações para o engenheiro tinha o carro mais próximo do que desejava. Essa foi a grande vantagem do Piquet. Ele e Gordon Murray (Nota da redação: projetista da Brabham nos títulos do brasileiro em 1981 e 1983) tinham uma grande afinidade.

Fora isso, Piquet era um piloto talentoso, habilidoso, sabia administrar a corrida, era agressivo quando precisava ser e não batia muito o carro.

iG: Quais foram as maiores inovações que Piquet levou para o automobilismo?
Raul Boesel:
A introdução do pit stop é uma delas. Ele, o Gordon Murray e a equipe Brabham, na época, baseados até em Indianápolis, vieram com a ideia de que seria mais vantajoso andar com o carro mais leve para economizar pneus, freios... Enfim, tudo.

Pelo cálculo deles, largando mais leve e fazendo uma parada nos boxes para reabastecer e trocar pneus, teriam uma vantagem. Foi aí que os outros resolveram fazer a mesma coisa, pois viam que a tática dava certo. Além disso, ele inventou aqueles cobertores de pneus que vemos até hoje na F1, para sair com a borracha já aquecida.

iG: Qual foi a influência do Piquet no desenvolvimento da Brabham?
Raul Boesel:
Piquet teve grande influência para o desenvolvimento da Brabham e do motor BMW. Naquela época a porcentagem do piloto em uma vitória era maior. Ele tinha muito mais influência do que hoje.

Hoje a tecnologia tirou muito da habilidade que o competidor precisa ter. O piloto precisa entender muito sobre os softwares, estudar e entender a tecnologia.

Naquela época, não. O piloto tinha que ir à pista para apontar se o carro estava duro, mole, se dava para trocar isso ou aquilo. Era mais questão de sentir a habilidade do carro em seu corpo e Piquet se destacava nesse sentido.

Hoje os carros já vão praticamente prontos para a pista. A tecnologia já sabe como é o traçado e se o carro chega lá ruim, dificilmente conseguirão deixá-lo bom.

Pega o Rubens Barrichello, por exemplo, que começou na época que tinha que ter essa habilidade. Por mais que ele continue com essa característica, não consegue transformar a Williams num avião. Há pilotos que têm menos talento que ele para mudar um carro, mas como estão em escuderias melhores, conseguem resultados melhores. Enfim, antigamente, quem tinha essa habilidade se dava melhor e Piquet era um deles.

iG: Você chegou a usar as técnicas dele para seus ajustes?
Raul Boesel:
Algumas das minhas equipes utilizaram essas técnicas, sim. Uma das coisas que Piquet fazia sempre, desde a Fórmula 3, com o clima frio da Inglaterra, era esquentar o carro inteiro com aquecedores. Aquecia câmbio, pneus, motor, deixava o óleo mais fino e quente. Assim, com o carro já preparado, não perdia muitas voltas para realizar todo o processo.

Então todo mundo começou a prestar atenção no que ele fazia, até porque já vinha desde a Fórmula 3. Tudo isso veio das ideias dele e não deu para esconder por muito tempo, como nada se esconde por muito tempo. São coisas que estão até hoje na F1.

iG: Para você, Piquet está entre os maiores pilotos da história?
Raul Boesel:
Com certeza. O fato de ele ter voltado após o acidente em Indianápolis e pilotado de novo é uma vitória pra ele mesmo. Pra ele se reafirmar como pessoa. Algo como: “vou voltar a correr, se for para ganhar será consequência”. Ou seja, outro tipo de vitória.

Ele buscava a vitória com intensidade, mas não era sujo na pista. Era um piloto que vencia na base do desenvolvimento, sendo arrojado e mais rápido na pista. Não me lembro do Piquet recebendo críticas por ser um piloto inconsequente.

iG: Piquet é o piloto que mais te agradou correr ao lado?
Raul Boesel:
Tive oportunidade de correr com vários. Talvez não disputar lado a lado, pois eu não tinha carro, mas vi Piquet, (Nigell) Mansell, (Alain) Prost, Keke Rosberg, Patrick Tambay, Alan Jones. Tem muitos, mas Piquet se sobressaia a esses nomes na época.

iG: Qual era a relação entre vocês na época em que estiveram juntos na F1?
Raul Boesel:
Sempre tive boa relação com a maioria dos pilotos. Piquet era mais reservado, muito brincalhão. Até hoje é assim, mas não é de muitos amigos e também não é de levar muito desaforo. Contudo, quando você o conhece mais profundamente, vê que ele é engraçado e espirituoso. É divertido estar com ele.

iG: Vocês têm contato até hoje?
Raul Boesel:
Muito pouco. Às vezes converso com o filho dele por aí, pelo Twitter, Internet, essas coisas. Mais do que com o próprio Nelson. Faz tempo que não o vejo. Só de vez em quando, em alguns eventos, mas como cada um foi para um lado, fica difícil encontrar.

iG: O que um piloto tem que fazer para realizar uma boa transição da F1 para a Indy?
Raul Boesel:
Eu me adaptei muito bem aos ovais e gostei de correr nesse tipo de circuito. Tem gente que acha que oval não é tão emocionante, mas é porque não conhece. É uma pilotagem diferente, um ajuste diferente do carro. Eu me adaptei bem e só da parte de você curtir pilotar no oval é uma grande vantagem. Às vezes a pessoa sai da F1 para Indy achando que está indo para uma categoria inferior e pode se frustrar um pouco.

Divulgação
Afastado do automobilismo desde 2008, Raul Boesel trabalha atualmente como DJ
iG: Agora que você segue a carreira de DJ, o automobilismo ficou para segundo plano?
Raul Boesel:
Minha ultima corrida profissional foi em 2006. De lá pra cá, fiz duas provas: as mil milhas em 2007 e 2008, nas quais terminei em segundo e primeiro. Depois nunca mais corri. Hoje minha prioridade é ser DJ e viajo o Brasil inteiro e até o exterior. Tenho uma agenda bastante cheia.

iG: Qual das duas paixões é maior para você?
Raul Boesel:
São duas coisas totalmente diferentes, mas as duas dão adrenalina. Quando vou começar a tocar, sinto aquela ansiedade. Independente do tamanho da casa, a reação do público é instantânea. Você logo vê se está agradando, se está animando a festa. A música sempre foi uma paixão paralela à carreira de piloto. Sempre consumi música, seguia sempre esse mundo. Até o dia em que acordei pensando mais na música do que em motor, amortecedor. Aí percebi que estava na hora de parar de correr e me focar em outra carreira.

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