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Betise Assumpção contou que piloto, morto em 1º de maio de 1994, estava abalado por acidentes anteriores em Imola e se sentia responsável por melhorar condições de segurança na F1

No último fim de semana de sua vida, Ayrton Senna estava transtornado com acidentes de Rubinho e Ratzenberger
Pascal Rondeau/Getty Images
No último fim de semana de sua vida, Ayrton Senna estava transtornado com acidentes de Rubinho e Ratzenberger

Ayrton Senna não estava bem no último final de semana de sua vida. Abalado pelos acidentes de Rubens Barrichello e Roland Ratzenberger nos treinos para o GP de San Marino de 1994, o tricampeão mundial se sentia culpado. Ele pensava que era sua responsabilidade lutar por melhores condições de segurança na Fórmula 1. Foi o que relatou ao iG Esporte Betise Assumpção, ex-assessora de imprensa do piloto, morto 20 anos atrás.

“Imola era conhecido por ser um circuito absurdamente perigoso e os pilotos já haviam diversas vezes colocado pressão por mudanças. O Nelson (Piquet, em 1987) já havia sofrido acidente lá e o Gerhard (Berger, em 1989) só não morreu por pura sorte na mesma curva Tamburello, uma curva muito veloz com pouca área de escape”, lembrou Betise.

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“No primeiro dia, quando o Rubinho sofreu o acidente e não morreu por milagre, o Ayrton ficou completamente abalado. ‘Por que a gente não botou o pé para essa corrida não acontecer? Ou não para não acontecer, mas para mudarem isso aqui?’. Falavam que não tinham dinheiro para as mudanças e foi preciso dois morrerem para fazerem”, contou a ex-assessora.

Barrichello bateu ao perder o controle de sua Jordan a 225 km/h na curva Variante Bassa no dia 29 de abril. Apesar da pancada forte, o brasileiro apenas quebrou o nariz e precisou imobilizar o braço direito. Mas Senna não descansou até obter informações sobre o amigo.

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“Ele me perguntava como estava o Rubinho. Foi no centro médico e não deixaram ele entrar. Ele pulou o arame farpado porque achou que estavam mentindo para ele. Ele achou que o Rubinho tinha morrido e que eu não ia dizer para ele. E entrou para ver”, explicou Assumpção.

Com Barrichello foi só o susto. Mas no dia seguinte, 30 de abril, a coisa ficou pior. O austríaco Roland Ratzenberger, da Simtek, morreu depois de bater no muro da curva Villeneuve a 306 km/h.

“Quando aconteceu o acidente, o Ayrton saiu do carro e falou que não ia voltar. Ele arrumou um jeito de ir lá ver se o cara estava morto. E estava morto”, afirmou Betise.

Betise Assumpção fez carreira como assessora de imprensa de Ayrton Senna
Arquivo pessoal
Betise Assumpção fez carreira como assessora de imprensa de Ayrton Senna

“Ele não conversou comigo aquele dia, a não ser o óbvio e necessário. O acidente foi de manhã e ele não participou da tomada de tempo à tarde. Ele não falou com ninguém e até tive uma discussão séria com o assessor dele no Brasil que queria matéria. Mas eu sabia que ele não iria falar e não iria pedir isso para ele. Tinha visto ele e sabia que não tinha a menor condição de falar. Ele estava quase mudo, olhando para a parede”, prosseguiu a jornalista.

No último dia de sua vida, o fatídico 1º de maio de 1994, Senna permaneceu calado. E assim ficou na cena emblemática na qual, com o olhar distante, se apoiou por minutos na asa traseira de sua Williams antes de entrar no carro para a corrida.

“Ele passou mudo e não conversou com ninguém, só deu um bom dia. Perguntei se podia fazer alguma coisa para ajudar, mas ele disse ‘não'. A gente estava sentado meio perto e eu fiz um carinho no cabelo dele. Nunca tinha feito isso na vida. Ele estava péssimo. Fiz um cafuné bem carinhoso e bem rápido, mas foi espontâneo. Disse que ficaria ali fora para qualquer coisa. Só levantou a cabeça, me olhou no olho e falou um obrigado. Ele estava bem transtornado, bem ruim mesmo”, recordou Betise.

“Pelo que eu conhecia dele, ele devia estar achando que poderia ter feito alguma coisa (com relação à segurança). Ele era assim, se sentia responsável. Se via alguma coisa, achava que era ele quem poderia arrumar. Ele sabia que, como o maior nome da F1, tinha mais responsabilidade mesmo”, disse a ex-assessora.

Críticas a Prost e elogios a Piquet

Túmulo de Ayrton Senna no cemitério do Morumby, em São Paulo
Mike Hewitt/Getty Images
Túmulo de Ayrton Senna no cemitério do Morumby, em São Paulo

A morte de Senna comoveu o mundo do automobilismo, e seu funeral, cinco dias depois, em São Paulo, atraiu grandes nomes do esporte. Entre eles, o eterno rival Alain Prost e Jack Stewart, tricampeão do mundial de F1 que já havia feito duras críticas a Ayrton durante sua carreira. A presença destes dois, em especial, incomodou Betise.

“O cara morreu e o Prost aparece no enterro. E o Jack Stewart, que detestava o Ayrton. Eu fiquei olhando e falei: ‘Quê? Passou a vida inteira falando mal do cara e vem ao enterro?’. Que ridículo, hipocrisia. Lembro até que o Piquet deu uma entrevista depois falando que não foi porque ‘não tem nada a ver’. Está certíssimo”, falou Betise.

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